Filme exibido na Berlinale acompanha maestra que desconfia da própria maternidade após parto traumático
A maternidade idealizada dá lugar ao medo em “Mother’s Baby”, thriller psicológico que chega aos cinemas brasileiros em março. A trama acompanha Julia, uma maestra de 40 anos que, após engravidar por meio de um procedimento experimental, vê seu sonho ruir diante de um parto traumático e cercado de silêncio. Quando o bebê é retirado de seus braços sem explicações, ela mergulha em dúvidas que desafiam sua própria percepção da realidade.
Dirigido e coescrito por Johanna Moder, de “Once Were Rebels”, o longa é uma coprodução entre Áustria, Suíça e Alemanha. O filme teve première no 75º Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde disputou o Urso de Ouro, e construiu trajetória em festivais internacionais antes da estreia comercial. A distribuição no Brasil é da Autoral Filmes.
Na história, Julia construiu uma carreira sólida na música, mas ainda carregava o desejo de formar uma família com o parceiro, Georg. A promessa de solução surge quando o Dr. Vilfort apresenta um tratamento inovador que resulta em gravidez quase imediata. O que parecia o início de uma nova fase transforma-se em um percurso angustiante, marcado por depressão pós-parto e suspeitas que corroem o cotidiano do casal.
Ao reencontrar o bebê, Julia sente que algo não se encaixa. A dúvida sobre a identidade da criança passa a dominar seus pensamentos e altera a dinâmica da casa. O roteiro conduz o espectador por um território nebuloso, onde a linha entre instinto materno e paranoia se torna cada vez mais tênue.
O elenco reúne Marie Leuenberger, conhecida por “Mulheres Divinas”, Hans Löw, de “Toni Erdmann”, e Claes Bang, que esteve em “Bom Dia, Tristeza”. As atuações intensificam a atmosfera claustrofóbica, sustentando o clima de incerteza que permeia cada cena.
Johanna Moder define o projeto como profundamente pessoal. “É um filme muito pessoal para mim”, explica a realizadora. “É uma espécie de acerto de contas, embora eu não saiba ao certo com quem ou com o quê”, complementa.
A diretora aprofunda o conflito central ao afirmar: “A felicidade prometida não se materializa com o nascimento da criança. Em vez disso, é o início de um pesadelo. Nada é como era. E o que era, inexoravelmente, se desfaz e não pode mais ser contido”.
Ela ainda acrescenta: “A realidade por trás da fachada perfeita de famílias felizes raramente é mostrada ou reconhecida. Trata-se do desafio de lidar com as expectativas da maternidade e de encontrar a si mesma. É uma história sobre o lado oculto da maternidade”.
A escolha pelo suspense foi deliberada. “Optei deliberadamente por contar esta história como um suspense psicológico, em vez de um drama”, explica a diretora. “O filme brinca com a escuridão visual e a justaposição de beleza e dor. O mundo de Julia se torna nebuloso, mas a questão da realidade permanece”, acrescenta.
Além da Berlinale, “Mother’s Baby” passou pelo Festival de Cinema da Índia, Talinn Black Nights, na Estônia, e Sitges, na Espanha, além de dezenas de mostras ao redor do mundo. A recepção crítica destacou o impacto emocional da obra. A publicação Hollywood Reporter definiu o filme como “envolvente, perturbador e repleto de humor negro”.
O Deadline comparou o longa a “Eraserhead”, de David Lynch, em sua “evocação visceral da maternidade”. Já o Hollywood News descreveu a produção como “poderoso, bem dirigido e interpretado, com elementos de terror sugeridos ao longo da trama”.
Com 108 minutos de duração e classificação indicativa a ser verificada, o filme se insere na recente onda de obras dirigidas por mulheres que abordam a maternidade sob perspectiva inquietante, como “Canina”, de Marielle Heller, e “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, de Mary Bronstein.
O filme “Mother’s Baby” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 5 de março.
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Felipe Cordeiro é poeta, escritor e radialista com ampla experiência no universo da comunicação. Nordestino, carrega na voz e na escrita a força da cultura popular. Apaixonado por música, arte e pelas histórias que brotam do cotidiano, dedica-se aos estudos e vive intensamente o que a rua, a noite e a vida têm a ensinar.
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