‘À Paisana’ e a repressão sexual velada nos anos 90

Filme premiado no Festival de Sundance apresenta um duro retrato das consequências da homofobia em Nova York

'À Paisana' e a repressão sexual velada nos anos 90

A convite da Atômica Lab, a Gazeta Culturismo teve oportunidade de participar de uma cabine de imprensa do filme “À Paisana”, vencedor do prêmio especial do júri no Festival de Sundance de 2025.

Por mais absurda que essa informação soe, ela, infelizmente, é real e muito recente: até o ano de 1995 a OMS considerava a homossexualidade como uma doença, uma ferida ainda muito recente e causadora de muitos problemas estruturais que naturalizam a homofobia.

Nesse cenário, “À Paisana”, dirigido por Carmen Emmi, veio pra lembrar que a homofobia estrutural é um problema grave da sociedade contemporânea, e faz isso com um ótimo thriller policial que acompanha o jovem policial Lucas (Tom Blyth), que trabalhava disfarçado seduzindo homens gays para detê-los, em uma Nova York muito afetada pela Homofobia Científica, que tentava justificar preconceitos e discriminações contra essa minoria.

Durante uma de suas abordagens, Lucas se apaixona por Andrew (Russell Tovey), e a trama segue essa relação entre os dois que, dados os contextos da época, escondem sua sexualidade e vivem uma espécie de vida dupla. Lucas é policial por influência de seu avô, e Andrew é casado, tem filhos e é presente na igreja católica.

A repressão sexual no filme “À Paisana”

A repressão sofrida pelos dois personagens não é um fenômeno isolado, mas o retrato de aparatos legais da época. As chamadas “leis anti-sodomia” existiram nos Estados Unidos desde sua colonização e foram extintas somente em 2003, legitimando uma rotina policial bastante comum, como a invasão de bares gays — realidade que culminou na Revolta de Stonewall em 1969, marco mundial na busca por direitos LGBTQ+.

O que o filme faz com inteligência é mostrar como essa intensa busca por direitos não deu cabo à homofobia, estruturalmente presente na sociedade norte-americana — cenário que, lamentavelmente, enfrenta ainda mais regressos atualmente. Em vez das invasões a bares, os anos 90 trouxeram uma nova forma de repressão: policiais à paisana que seduziam homens gays para detê-los, reflexo direto da lei anti-sodomia.

É nessa dura realidade que o filme se passa, mostrando que a homofobia não é apenas uma questão individual, mas um preconceito enraizado nas instituições — como a Igreja, onde Andrew ocupa cargo importante, e a Segurança Pública, onde Lucas trabalha. Ambos sofrem com essa repressão mas, ao mesmo tempo, são agentes alienados para a manutenção dela.

Lucas e Andrew, protagonistas do filme "À Paisana" (Foto: Divulgação)
Lucas e Andrew, protagonistas do filme “À Paisana” (Foto: Divulgação)

Fortalecendo sua auto-repressão, Lucas trocava cartas com Andrew usando o nome de seu falecido pai, e se vê na necessidade de escondê-las durante uma festa de ano novo. A narrativa é não linear, alternando entre essa festa no presente e o envolvimento emocional do passado, culminando em uma tomada de decisão importante ao final.
Com narrativa bem contada, direção autoral e autoconfiante, “À Paisana” é um filme atual, de ótima qualidade — e que sabe muito bem o que quer dizer.

O filme estreou nacionalmente dia 2 de abril e está disponível, com exclusividade, no Filmelier+.


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Autor: Gabriel Dias

Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.

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