Músico goiano transforma mais de cinco décadas de carreira ao lado de Beth Carvalho, Gal Costa e Milton Nascimento em encontros sobre ritmos, memória e formação musical
Depois de mais de cinco décadas entre palcos, estúdios e salas de aula, Bororó Felipe transforma parte dessa experiência no projeto “A Maestria da Música Brasileira”. O show-aula gratuito chega a Senador Canedo no próximo sábado, 17 de outubro, e, depois, segue para Hidrolândia em 31 de outubro. Durante os encontros, o músico combina execução ao vivo, histórias de carreira e explicações sobre ritmos que ajudaram a construir a música brasileira.
Natural de Goiânia, Bororó atravessou diferentes momentos da MPB e trabalhou com Beth Carvalho, Gal Costa, Ivan Lins, Edu Lobo, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso e Ney Matogrosso. Entre 1985 e 1992, por exemplo, atuou como contrabaixista de Beth Carvalho e participou de apresentações no Brasil e no exterior. Ao mesmo tempo, construiu uma trajetória própria como compositor, arranjador, produtor e educador.
➡️ Clique aqui e entre no canal do WhatsApp para receber notícias, de forma gratuita.
Em vez de seguir apenas o formato de um concerto, “A Maestria da Música Brasileira” intercala execução musical e explicações sobre o processo de criação. Assim, Bororó mostra como ritmo, harmonia e arranjo se relacionam dentro de gêneros diferentes. Ao mesmo tempo, apresenta as influências africanas, cubanas e latino-americanas presentes em diferentes momentos da música brasileira.
“Vem da necessidade de quebrar a barreira do palco tradicional e aproximar o público do fazer musical. Mostro como nasce um baião, como se constrói um samba, como a música cubana influencia esses ritmos e como os ritmos africanos se misturam à música brasileira”, explica Bororó Felipe.
Para ele, portanto, entender esses encontros também permite compreender como determinados gêneros se transformaram ao longo do tempo. O contrabaixo ocupa posição importante nessa trajetória, mas não resume a atuação do artista. Durante a carreira, Bororó também tocou contrabaixo acústico, violão, viola caipira, guitarra e bateria. Paralelamente, passou a desenvolver trabalhos de composição, arranjos e produção musical, enquanto mantinha atividades ligadas ao ensino.

As experiências acumuladas ao lado de outros artistas também entram no conteúdo do show-aula. Quando fala sobre Milton Nascimento, por exemplo, Bororó aproxima o público do universo do Clube da Esquina. Já as lembranças de Edu Lobo ajudam a discutir harmonia, composição e diferentes maneiras de estruturar uma canção.
A convivência com Sérgio Ricardo, por sua vez, acrescenta outra parte dessa trajetória. Os dois mantiveram amizade por mais de quatro décadas, enquanto Bororó também participou de projetos ligados ao compositor. Entre essas experiências está “Estória de João-Joana”, trabalho musical criado por Sérgio Ricardo a partir do texto de Carlos Drummond de Andrade.
Já o período ao lado de Beth Carvalho ampliou a circulação internacional do contrabaixista. Entre 1985 e 1992, Bororó passou por países como Portugal, Cuba, Alemanha, Bélgica, Holanda, Argentina e Suíça. Nesse período, por exemplo, participou do Festival Internacional de Varadero e também passou pelo Festival de Montreux.
A atuação como educador começou antes de “A Maestria da Música Brasileira”. Além das apresentações profissionais, Bororó participa há anos de oficinas, cursos e iniciativas voltadas ao ensino. Em Goiás, por exemplo, esse percurso também se aproximou da Universidade Federal de Goiás.
Desde 2019, a Escola de Música e Artes Cênicas da UFG mantém o Laboratório de Música Popular Bororó Felipe (LABORIS). O espaço desenvolve atividades de ensino, pesquisa, extensão e performance ligadas à música popular. Com o tempo, também passou a incorporar experiências de gravação e produção musical.
Essa relação com a educação aparece diretamente na proposta levada ao público. “A arte e a música carregam um poder gigantesco de transformação social e humana. Consequentemente, o artista tem um compromisso ético e político com a sociedade, com o seu território e especialmente com as novas gerações que querem aprender”, afirma.
Para Bororó, compartilhar conhecimento também significa devolver parte das experiências acumuladas durante a carreira. “A música não é apenas entretenimento, ela serve para emancipar. Para mim, entrar numa sala de aula ou oficina e compartilhar técnica, informação e vivências é devolver para o mundo o que recebi”, acrescenta.

A primeira apresentação acontece em Senador Canedo, no dia 17 de outubro, às 19h, no Auditório do Paço Municipal. Durante o encontro, estudantes, músicos e demais interessados poderão acompanhar demonstrações sobre ritmo, harmonia e construção de arranjos. A entrada será gratuita e, por isso, não será necessário comprar ingresso para participar.
Depois, Bororó segue para Hidrolândia, onde apresenta o projeto em 31 de outubro, às 19h30, no Centro Cultural Hidrolandense. Já nessa etapa, o formato permanece baseado na combinação entre música, conversa e demonstrações práticas. Assim como em Senador Canedo, o acesso ao público também será gratuito.
O projeto recebeu recursos do Edital de Música nº 11/2026, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Com esse apoio, a iniciativa consegue circular fora de Goiânia e alcançar públicos de outros municípios. Ao mesmo tempo, o formato mantém o caráter formativo previsto desde a criação da proposta.
Ao discutir formação musical, Bororó Felipe chama atenção para nomes ligados à história cultural de Goiás. Um deles é Tonico do Padre, como ficou conhecido Antônio da Costa Nascimento, nascido em Pirenópolis em 1837. Ao longo da vida, ele atuou como compositor, maestro, professor, flautista e clarinetista.
Tonico tornou-se mestre de capela da Matriz de Pirenópolis ainda no século XIX. Depois, participou da criação da Banda Euterpe e produziu repertório com música sacra, valsas, polcas e peças destinadas ao teatro. Entre suas composições conhecidas está o “Concerto dos Sapos”, criado em 1888.
Bororó também destaca Estércio Marquez Cunha, compositor ligado durante décadas à Universidade Federal de Goiás. Ao longo da carreira, Estércio escreveu obras para instrumentos solo, música de câmara, coro e orquestra. Ao mesmo tempo, desenvolveu experiências que aproximaram música, teatro e outras linguagens artísticas.
“Temos patrimônios da cultura goiana como Tonico do Padre, compositor de Pirenópolis que viveu no século XIX, e o maestro e professor Estércio Marquez Cunha, da Escola de Música da UFG. Suas carreiras precisam ser contadas”, exemplifica Bororó. Por isso, parte do show-aula também se volta à preservação de nomes que participaram da formação musical do estado.

Para Bororó, estudar a tradição não significa simplesmente reproduzir repertórios antigos. Pelo contrário, conhecer referências locais pode abrir caminhos para novas composições, arranjos e experimentações. Por isso, o músico defende que artistas mais jovens entendam também a história cultural do território onde produzem.
“Tocar por tocar ou compor sem propósito não sustenta uma trajetória consistente. O jovem músico precisa enxergar a dimensão do que está entregando para o outro e para a sua comunidade”, afirma. Nesse processo, portanto, o estudo da história musical aparece ao lado do domínio técnico dos instrumentos.
Essa preocupação também está presente na própria discografia do artista. Em “Fogaréu”, primeiro álbum solo de Bororó, lançado em 2003, referências da cultura goiana dialogam com diferentes vertentes da música brasileira. Já a composição instrumental “Caminho das Pedras” recebeu gravação do grupo Batacotô.
Outra frente da carreira aproxima Bororó das tradições do povo Kalunga. Há anos, o músico participa de projetos voltados ao registro de cantigas, histórias, danças e outros saberes das comunidades quilombolas de Goiás. Ao mesmo tempo, os trabalhos procuram manter os próprios moradores como protagonistas das manifestações apresentadas.
Mais recentemente, essa pesquisa ganhou continuidade no projeto “Brasil Kalunga”. A iniciativa reúne memória oral, produção musical, dança e outras expressões culturais do território. Nesse processo, o músico também chama atenção para questões sociais e estruturais enfrentadas pelas comunidades.
“Nosso objetivo é fazer o Brasil e o mundo tomarem consciência da grandeza histórica, social e humana do povo Kalunga, sempre dando protagonismo às suas manifestações e apontando também para as urgências estruturais dessa gente”, conta Bororó. Para o artista, portanto, a preservação cultural também depende de reconhecer quem produz e mantém esses saberes.
Ao longo da trajetória, Bororó Felipe recebeu diferentes reconhecimentos pela atuação cultural em Goiás. Em 1998, por exemplo, recebeu a Medalha Nhanhá do Couto, concedida pelo Conselho Estadual de Cultura. Atualmente, também integra a Academia Goianiense de Letras.
Em 2025, o músico recebeu o título de Doutor Honoris Causa por sua contribuição para as artes, a cultura e a formação humana. Antes disso, porém, já acumulava décadas de atuação como instrumentista, compositor, arranjador, produtor e professor. A carreira profissional começou ainda na adolescência, quando passou a tocar em conjuntos de baile aos 12 anos.
Mesmo depois desse percurso, Bororó mantém a identidade como parte essencial do processo criativo. “Se você quer fazer uma música brasileira universal, aquela que emociona em qualquer lugar do mundo, você tem que saber quem você é e de onde você veio. Identidade se conquista com estudo, pesquisa de campo e respeito à própria ancestralidade”, afirma.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.
Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.