Dirigido por Esmir Filho, “Carmen” será filmado no Brasil e nos Estados Unidos a partir de 2027 e pretende revisitar a mulher por trás dos turbantes, do rádio brasileiro, da Broadway e de Hollywood
A trajetória de Carmen Miranda, que saiu do rádio brasileiro para se tornar uma das artistas latino-americanas mais reconhecidas de Hollywood, ganhará uma nova cinebiografia. Intitulado “Carmen”, o filme terá Giovanna Lancellotti como protagonista e produtora, direção de Esmir Filho, de “Homem com H”, e orçamento estimado em R$ 61 milhões.
O projeto foi apresentado na quarta-feira, 7 de outubro, durante o RioMarket, área de negócios do Festival do Rio. As filmagens estão previstas para o segundo semestre de 2027, enquanto a estreia nos cinemas brasileiros deve ocorrer no segundo semestre de 2028. A produção será falada em português e inglês e pretende chegar posteriormente aos Estados Unidos, à Europa e à Ásia.
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O roteiro de “Carmen” está nas mãos de Mariana Bardan e Eduardo Melo, dupla de “Cangaço Novo”. A produção reúne Ananã Produções, Producing Partners e GL Filmes, empresa de Giovanna Lancellotti, com coprodução da H2O Produções e distribuição nacional da H2O Films.
Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, cerca de 80% do orçamento de R$ 61 milhões já foi captado por meio de mecanismos brasileiros de incentivo. As locações previstas incluem Nova York, Rio de Janeiro, Maricá e Petrópolis, acompanhando diferentes momentos da passagem de Carmen pelo Brasil e pelos Estados Unidos.
Nova York terá peso particular na produção porque foi ali que a carreira internacional da cantora ganhou impulso. Maricá, por sua vez, deve servir para a recriação de ambientes de Los Angeles, cidade onde Carmen viveu durante boa parte da fase norte-americana.
Giovanna começou a pesquisar Carmen Miranda anos antes do anúncio público do longa. A preparação atual inclui trabalho vocal, corporal, coreográfico e de interpretação, com acompanhamento de profissionais especializados. A atriz também estudou filmes, músicas e registros da artista para reproduzir características como a fala acelerada, os movimentos e a presença de palco.
A intenção, porém, não é reproduzir apenas a figura pública dos turbantes e balangandãs. “Quanto mais humana a gente conseguir retratá-la, maior ela fica”, afirmou Lancellotti ao comentar a proposta do filme.
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Antes de se transformar na Pequena Notável, Carmen se chamava Maria do Carmo Miranda da Cunha. Ela nasceu em 9 de fevereiro de 1909, em Marco de Canaveses, Portugal, e chegou ainda bebê ao Rio de Janeiro, onde cresceu e construiu praticamente toda a identidade artística que levaria posteriormente ao exterior.
A juventude esteve distante do glamour que marcaria sua carreira. Carmen deixou os estudos para ajudar a família e trabalhou em diferentes atividades, inclusive em uma casa de chapéus. A experiência com costura e moda também antecedeu a criação dos figurinos que, anos depois, se tornariam parte fundamental de sua imagem pública.
A entrada profissional na música começou no fim da década de 1920. Foi nesse período que conheceu o compositor Josué de Barros, responsável por apresentá-la a editoras, teatros e ambientes ligados ao mercado fonográfico. As primeiras gravações abriram caminho para uma mudança rápida de vida.

O ponto de virada aconteceu em 1930, quando Carmen gravou “Pra Você Gostar de Mim”, conhecida popularmente como “Taí”, composição de Joubert de Carvalho. A marcha transformou-se em um grande sucesso e ajudou a colocar a cantora entre as principais vozes do rádio brasileiro.
Nos anos seguintes, ela passou por emissoras como a Rádio Mayrink Veiga, participou de turnês pela América do Sul e dividiu apresentações com a irmã Aurora Miranda. Nessa fase também ganhou o apelido de Pequena Notável, associado à baixa estatura e à forte presença diante do público.
Durante a década de 1930, Carmen se tornou uma das principais vendedoras de discos do país. O repertório atravessava marchinhas e sambas, enquanto sua maneira veloz de cantar e movimentar o corpo ajudava a diferenciá-la de outras intérpretes do período.
Ao mesmo tempo, o cinema brasileiro passou a incorporar a artista. Carmen apareceu em produções musicais e carnavalescas antes que uma personagem criada às vésperas da viagem aos Estados Unidos mudasse definitivamente sua imagem.
Em 1939, Carmen apareceu no filme “Banana da Terra” interpretando “O Que É Que a Baiana Tem?”, de Dorival Caymmi. A apresentação marcou a consolidação de sua baiana estilizada, com turbante, plataformas, pulseiras e outros elementos que seriam ampliados ao longo da carreira internacional.
A imagem, contudo, carrega uma história mais complexa do que o figurino sugere. Os elementos utilizados por Carmen dialogavam com referências afro-brasileiras e baianas, posteriormente transformadas pela indústria do entretenimento em uma representação visual do Brasil. Décadas depois, essa construção passou a ser analisada tanto por sua força cultural quanto pelas simplificações e apropriações envolvidas.
Foi justamente nesse momento de enorme popularidade no Brasil que o empresário norte-americano Lee Shubert assistiu Carmen no Cassino da Urca e a convidou para trabalhar nos Estados Unidos. A cantora aceitou e levou consigo músicos do Bando da Lua.

Ainda em 1939, Carmen estreou na Broadway com o espetáculo “The Streets of Paris”. A combinação entre música brasileira, figurinos e uma performance incomum para o público norte-americano chamou atenção rapidamente e transformou a artista em atração também fora do Brasil.
Pouco depois, Hollywood entrou no caminho. Em 1940, ela fez sua estreia no cinema norte-americano em “Down Argentine Way”, produção da 20th Century-Fox. Suas cenas musicais foram filmadas em Nova York e inseridas no longa, no qual ela aparece interpretando números como “South American Way”.
O filme surgiu durante a expansão da chamada Política da Boa Vizinhança, estratégia dos Estados Unidos para estreitar relações com países latino-americanos durante aquele período. Hollywood passou a produzir musicais e histórias ambientadas na América Latina, embora frequentemente misturasse culturas diferentes em representações genéricas.
Nesse cenário, Carmen Miranda tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis dessa aproximação cultural. Sua projeção ajudou a popularizar ritmos brasileiros no exterior, mas também colocou a artista dentro de um sistema que frequentemente reduzia países latino-americanos a estereótipos semelhantes.
À medida que Carmen conquistava o público norte-americano, Hollywood passou a explorar cada vez mais sua imagem de mulher latina exuberante. Turbantes maiores, plataformas, frutas e figurinos coloridos ganharam espaço enquanto os papéis oferecidos à artista repetiam características semelhantes.
O Smithsonian observa que Carmen acabou frequentemente escalada para personagens construídas a partir de estereótipos latinos e que seus filmes misturavam culturas diferentes da América Latina. O sucesso comercial dessas representações nos Estados Unidos contrastava com críticas recebidas em países latino-americanos.
Essa tensão ficou evidente quando a cantora retornou ao Brasil em 1940. A chegada ao Rio mobilizou milhares de pessoas, mas uma apresentação posterior no Cassino da Urca teve recepção fria de parte do público, que a acusava de ter voltado “americanizada”.
Carmen respondeu como sabia: cantando. Ainda em 1940, gravou “Disseram que Eu Voltei Americanizada”, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva, transformando a crítica em música e reafirmando sua ligação com o Brasil.

De volta aos Estados Unidos, a artista manteve uma intensa carreira no cinema, nos palcos e no rádio. Filmes como “The Gang’s All Here”, lançado em 1943, ajudaram a eternizar a versão de Carmen associada aos enormes arranjos de frutas, enquanto outras produções repetiam sua presença como cantora e personagem cômica.
A força visual ultrapassou as próprias produções. Figurinos, turbantes, sapatos e gestos passaram a ser reproduzidos na moda e na cultura popular, enquanto Carmen se transformava em uma referência internacional imediatamente reconhecível.
Em 1941, ela deixou as marcas das mãos e dos sapatos no Chinese Theatre, em Hollywood, reconhecimento reservado a grandes nomes do entretenimento. A carreira internacional colocou uma artista formada no rádio brasileiro em um espaço que, até então, oferecia poucas oportunidades semelhantes a artistas sul-americanos.
Esse sucesso também explica parte do interesse da nova cinebiografia. A produtora Tatiana Issa descreveu Carmen como uma figura que ajudou a moldar a imagem internacional do Brasil antes mesmo de conceitos como “soft power” entrarem no vocabulário político e cultural contemporâneo.
A imagem pública alegre e acelerada escondia uma rotina intensa. Durante os anos de carreira internacional, Carmen manteve compromissos frequentes no cinema, em casas de espetáculo, programas de rádio e apresentações.
Em 1947, ela se casou com David Sebastian, seu único marido. Nos anos seguintes, continuou trabalhando nos Estados Unidos e fazendo temporadas fora do país, mesmo quando sua presença em grandes produções de Hollywood começou a diminuir.
A mudança também acompanhava o enfraquecimento da Política da Boa Vizinhança. Com outro cenário político e cultural depois da Segunda Guerra Mundial, o tipo de personagem latino que havia ajudado a impulsionar Carmen deixou de ocupar o mesmo espaço nos grandes estúdios. Ainda assim, sua carreira de palco continuou. Em 1954, ela retornou ao Brasil depois de anos de ausência e passou alguns meses no país antes de voltar aos Estados Unidos.

Na noite de 4 de agosto de 1955, Carmen participou da gravação de um programa de televisão apresentado pelo comediante Jimmy Durante. Durante a apresentação, teve um mal-estar, mas concluiu a participação. Horas depois, já em casa, sofreu um ataque cardíaco.
Carmen Miranda morreu em 5 de agosto de 1955, aos 46 anos, em Beverly Hills. Seu corpo foi levado ao Brasil, onde a despedida mobilizou milhares de admiradores e encerrou uma trajetória artística de pouco mais de duas décadas.
A preservação de sua memória ganhou uma instituição própria pouco depois. O Museu Carmen Miranda foi criado em 1956 e inaugurado em 1976, no Rio de Janeiro. Atualmente, o acervo reúne cerca de 3,5 mil itens, entre figurinos, fotografias, discos, filmes, partituras, cartazes e objetos pessoais. Entre as peças preservadas estão uma saia usada na estreia na Broadway em 1939, trajes de apresentações, balangandãs e o figurino utilizado no show realizado na véspera de sua morte.
A história que chega ao cinema em “Carmen” encontra justamente uma personagem marcada por contradições. Carmen nasceu em Portugal, cresceu no Brasil, ajudou a projetar internacionalmente elementos da cultura brasileira e, ao mesmo tempo, teve sua imagem transformada por Hollywood em um tipo latino que não representava a diversidade do continente.
Essa complexidade deverá orientar a interpretação de Giovanna Lancellotti. O projeto surgiu do interesse da atriz em produzir histórias que gostaria de ver na tela e avançou durante cerca de quatro anos antes do anúncio público.
Por enquanto, a produção ainda não revelou todo o elenco nem uma data específica de estreia. As filmagens começam no segundo semestre de 2027, e a H2O Films trabalha com o lançamento de “Carmen” nos cinemas no segundo semestre de 2028.
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Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.
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