Pesquisa internacional revela estabilidade cognitiva em todas as fases do mês e reacende debate sobre igualdade profissional
A ideia de que o ciclo menstrual interfere na capacidade intelectual das mulheres não encontra respaldo científico. Um estudo recente publicado na revista PLOS ONE aponta que não há relação consistente entre as fases hormonais e quedas no desempenho cognitivo. A descoberta surge em meio às discussões do Mês da Mulher e amplia o debate sobre barreiras invisíveis que ainda limitam a presença feminina em cargos de liderança e alta exigência.
A análise reuniu dados de 102 estudos anteriores, com cerca de 4.000 participantes. Os pesquisadores avaliaram habilidades como memória de trabalho, atenção visual e competências verbais e espaciais. Apesar de relatos subjetivos de cansaço ou dificuldade de concentração em determinados períodos, os testes objetivos indicaram desempenho estável ao longo de todo o ciclo menstrual.
Especialistas destacam que é necessário diferenciar sintomas físicos de capacidade intelectual. A ginecologista e obstetra Amanda Roepke Tiedje explica que alterações hormonais podem provocar desconfortos, mas não comprometem o funcionamento do cérebro. “A variação de estrogênio e progesterona pode causar desconfortos físicos, como cólicas ou alterações no sono, mas isso não anula a inteligência ou a competência técnica da pessoa. O cérebro feminino mantém sua funcionalidade plena, seja para operar um paciente, gerir uma equipe ou realizar cálculos complexos”, afirma.
A médica também ressalta que fatores como dor, alterações no sono ou quadros mais intensos de TPM podem afetar o bem-estar geral. Ainda assim, isso não interfere diretamente na capacidade cognitiva. “É preciso entender que o cansaço físico ou a dor podem afetar a disposição da mulher, da mesma forma que afetariam qualquer pessoa com um mal-estar pontual, mas o ‘processamento’ cerebral e a aptidão intelectual continuam intactos”, complementa.
O impacto desse entendimento ultrapassa o campo da saúde e alcança o mercado de trabalho. Dados do Global Gender Gap Report, do Fórum Econômico Mundial, mostram que mulheres ocupam menos de 30% dos cargos de liderança em áreas técnicas. Para especialistas, a persistência de crenças sobre limitações biológicas ainda influencia decisões e oportunidades.
Amanda defende que a ciência pode ajudar a mudar esse cenário ao eliminar dúvidas infundadas sobre desempenho feminino. “Meu foco, até como docente, é formar futuras médicas que atuarão em ambientes de extrema pressão. Desmistificar que a biologia é um limitador é essencial para que essas profissionais não se sintam inseguras em suas carreiras”, pontua.
A discussão também abre espaço para transformações em políticas corporativas e práticas institucionais. A especialista afirma que o avanço está em reconhecer as individualidades sem questionar a competência técnica. “Trata-se de uma mudança de paradigma: sair do foco no chamado “preconceito biológico” e avançar para uma abordagem centrada na saúde integral da mulher”, indica.
Para ela, o desempenho intelectual não segue ciclos hormonais. “Precisamos de ambientes de trabalho e de estudo que reconheçam e acolham as individualidades físicas, sem colocar em dúvida a capacidade intelectual das mulheres. Quando a ciência demonstra que o desempenho cognitivo se mantém estável, ela elimina um questionamento que jamais deveria ter existido”, finaliza a docente do Idomed.
Jornalista pós-graduada em Comunicação Organizacional e especialista em Cultura, Arte e Entretenimento. Com ampla experiência em assessoria de imprensa para eventos, também compôs redações de vários veículos de comunicação. Já atuou como agente de viagens e agora se aventura no cinema como roteirista de animação.
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