Circo Laheto transforma vida de crianças em situação de vulnerabilidade social por meio da arte em Goiânia

Projeto social criado há 30 anos já revelou talentos que atuam no Brasil e no exterior

Circo Laheto transforma crianças em situação de vulnerabilidade por meio da arte em Goiânia

Há 30 anos o Circo Laheto atua em Goiânia oferecendo atividades gratuitas de arte e educação para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Criado por Seluta Rodrigues e Mané, o projeto nasceu da própria vivência dos fundadores com as dificuldades financeiras e a falta de acesso à escola. Desde então, o espaço se tornou referência comunitária ao unir cultura, disciplina e fortalecimento emocional.

Ao portal Gazeta Culturismo, Seluta contou que o circo surgiu do desejo de transformar realidades próximas. “Eu e Mané nos encontramos ainda bem jovens, cheios de sonhos… de transformação, se não de uma sociedade, mas pelo menos do ambiente, do território em que a gente se encontra.” A iniciativa, segundo ela, foi pensada para oferecer às novas gerações oportunidades que eles não tiveram.

A fundadora começou a trabalhar aos 12 anos e só entrou na sala de aula aos 13. Mané trabalhou na roça e foi vaqueiro até os 25. “A gente não teve acesso à educação”, resume. A ausência da escola na infância influenciou diretamente o propósito do projeto, que passou a oferecer um espaço de criação artística e proteção para crianças e adolescentes da comunidade.

Para Seluta, o Circo Laheto representa também uma forma de educação não formal. “Um espaço de criação artística, de proteção da infância… que trouxesse alegria de viver, de criar, de sonhar.” A proposta vai além das apresentações e busca ampliar horizontes dentro da própria comunidade.

Circo Laheto: arte que muda destinos

Ao longo de três décadas, o projeto acumulou histórias que atravessaram fronteiras. Jovens formados no Circo Laheto atuam hoje no Reino Unido, em Paris e em diferentes estados brasileiros. A arte circense abriu caminhos profissionais para quem começou treinando em bairros periféricos da capital.

Um dos exemplos é Danilo Lúcio, morador do Jardim Goiás, região marcada por forte desigualdade social. “De um lado é só os ricos, do outro só os pobres”, relata Seluta ao descrever o contraste do bairro onde o projeto atua.

Danilo começou no circo aos nove anos. Filho de família ligada à coleta de recicláveis, ele passou em seleção para a Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro. “Ele aproveitou todas as oportunidades… e a partir daí ganhou o mundo”, afirma a fundadora. Hoje, mora em Campo Mourão, no Paraná, coordena projetos de arte e educação e mantém vínculo com a comunidade de origem.

Desafios e expansão

Manter a estrutura ativa por 30 anos exigiu persistência. A instituição não possui mantenedor fixo e depende de doações e editais para continuar funcionando. A instabilidade financeira é um dos principais desafios enfrentados pela equipe.

“Para sobreviver a gente não tem nenhum apoiador, nenhum mantenedor vive de doações e de correr atrás de editais”, explica Seluta. Segundo ela, essa incerteza dificulta manter uma equipe especializada de forma contínua.

Mesmo com as dificuldades, o projeto está em expansão. Atualmente, mantém três núcleos em funcionamento, dois voltados para crianças e adolescentes, nos bairros Jardim Curitiba e Jardim Cerrado, além de um núcleo destinado a idosos.

Circo Laheto como ensaio para a vida

No dia a dia dos treinos, a aprendizagem acontece de forma prática e silenciosa. Equilíbrio, concentração e persistência são exercitados a cada tentativa de manter três bolinhas no ar ou subir em equipamentos aéreos.

“Essas atividades impactam de uma maneira muito positiva a vida das crianças”, afirma Seluta. Para ela, o processo funciona como preparação para desafios maiores. “É um ensaio para a própria vida se você consegue aprender a andar de perna de pau ou fazer malabares, também consegue superar outros obstáculos.”

O fortalecimento emocional é parte central da proposta. “Quando você constrói alguma coisa pelas suas próprias mãos, vai se fortalecendo emocionalmente”, resume. É nesse movimento cotidiano de treino, queda e recomeço que o Circo Laheto segue transformando trajetórias na periferia de Goiânia.

Interessados em participar do projeto podem procurar diretamente a sede do Circo Laheto, localizada na Av. H, esquina com a Rua 72, no Parque da Criança, no Jardim Goiás, em Goiânia. Para realizar a inscrição, é necessário apresentar documentos pessoais do responsável e da criança ou adolescente, além de comprovante de endereço.

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Felipe Cordeiro
Autor: Felipe Cordeiro

Felipe Cordeiro é poeta, escritor e radialista com ampla experiência no universo da comunicação. Nordestino, carrega na voz e na escrita a força da cultura popular. Apaixonado por música, arte e pelas histórias que brotam do cotidiano, dedica-se aos estudos e vive intensamente o que a rua, a noite e a vida têm a ensinar.

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