Vida preservada sob geleiras, ancestrais humanos sem fósseis conhecidos, cidades escondidas pela floresta e até um planeta encontrado pela química mostram quanto ainda permanece desconhecido
Mesmo com satélites, telescópios e sequenciamento genético, parte do planeta e do Universo continua praticamente invisível para a ciência. Algumas das descobertas da ciência mais recentes estão surgindo justamente em lugares difíceis de observar, quilômetros abaixo da superfície terrestre, sob o gelo da Antártida, dentro do DNA humano ou escondidos por florestas que cobriram antigas ocupações por séculos.
E nem todas essas descobertas trazem respostas prontas. Enquanto algumas revelam estruturas e organismos que realmente permaneceram ocultos, outras abrem novas perguntas sobre a origem da vida, a história humana e a formação dos planetas.
➡️ Clique aqui e entre no canal do WhatsApp para receber notícias, de forma gratuita.

A Blood Falls, ou Cachoeira de Sangue, já era uma das formações mais estranhas da Antártida. A água avermelhada sai do Glaciar Taylor porque uma salmoura rica em ferro permanece presa sob o gelo e, quando entra em contato com o oxigênio, ganha a coloração característica. Agora, porém, cientistas encontraram algo ainda mais incomum naquele ambiente.
Em 2026, pesquisadores analisaram 167 amostras de água, sedimentos e gelo dos Vales Secos de McMurdo. Como resultado, identificaram uma comunidade distinta de microrganismos eucarióticos com características marinhas próxima ao glaciar. A hipótese é que a água salgada tenha entrado no vale durante períodos mais quentes e, depois, ficado isolada sob o avanço do gelo.
A descoberta não significa que organismos complexos passaram milhões de anos intactos embaixo da geleira. No entanto, indica que descendentes ou vestígios biológicos de uma antiga comunidade marinha podem ter persistido em um ambiente extremo e isolado. Por isso, Blood Falls passou a oferecer pistas não apenas sobre a história climática da Antártida, mas também sobre os limites da sobrevivência microbiana.
>> Leia também: 5 curiosidades sobre a história do Brasil que quase ninguém aprendeu na escola

Quando pensamos na água do planeta, normalmente lembramos de oceanos, rios, geleiras e aquíferos. Entretanto, experimentos publicados em setembro de 2026 mostraram que certos minerais podem armazenar hidrogênio em condições semelhantes às encontradas próximo ao limite entre o manto e o núcleo da Terra.
Os pesquisadores produziram em laboratório dois tipos de oxi-hidróxidos de ferro sob pressões e temperaturas extremas. Essas estruturas conseguiram incorporar hidrogênio e apresentaram densidade suficiente para permanecer em regiões muito profundas. Assim, elas podem ajudar a explicar como parte da água primordial e daquela carregada pelas placas tectônicas permanece armazenada no interior terrestre.
Isso não significa que exista um oceano líquido escondido perto do núcleo. Na realidade, a água estaria incorporada à estrutura química dos minerais. Ainda assim, a descoberta oferece um novo mecanismo para explicar a circulação de água entre superfície, manto profundo e regiões próximas ao núcleo ao longo de bilhões de anos.

A produção de oxigênio costuma estar associada à fotossíntese e, portanto, à presença de luz. Porém, medições realizadas nas profundezas do Pacífico indicaram um fenômeno estranho: o aumento da concentração de oxigênio em áreas onde a luz solar não chega. O fenômeno ficou conhecido como “oxigênio escuro”.
A primeira interpretação ganhou repercussão em 2024, quando pesquisadores sugeriram que nódulos metálicos existentes no fundo marinho poderiam participar do processo. No entanto, os resultados provocaram debate científico e pedidos de novas medições. Por isso, em 2026, uma nova investigação com equipamentos robóticos começou a buscar a origem do fenômeno diretamente no leito do Pacífico.
Ainda não existe consenso sobre o mecanismo. Nesse caso, a curiosidade está justamente no fato de a ciência não ter encerrado a discussão, as novas missões precisam determinar se o oxigênio realmente está sendo produzido no fundo do oceano, quais processos poderiam gerá-lo e se falhas metodológicas explicam parte das observações anteriores.

Durante décadas, geólogos encontraram hidrogênio em perfurações, mas raramente procuravam por ele como um recurso próprio. Agora, esse cenário mudou. O chamado hidrogênio geológico ocorre naturalmente no subsolo e pode se acumular em determinadas formações rochosas, de maneira semelhante ao petróleo e ao gás natural.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos já desenvolveu mapas para localizar regiões com condições favoráveis à geração e retenção desse gás. Ao mesmo tempo, empresas e grupos de pesquisa passaram a procurar depósitos em países como Austrália, Canadá, França, Espanha, Finlândia, Colômbia e Estados Unidos. Descobertas anteriores em lugares como Mali e Albânia ajudaram a mudar a percepção de que concentrações relevantes não poderiam permanecer armazenadas no subsolo.
No entanto, ainda existe uma diferença enorme entre estimar a presença de hidrogênio e conseguir explorá-lo comercialmente. Estudos recentes alertam que muitas acumulações podem estar profundas demais, ser pequenas ou ficar em locais de difícil acesso. Por isso, a corrida atual não é apenas para descobrir quanto hidrogênio existe, mas para saber quanto dele poderia realmente ser utilizado.

Na Antártida Oriental, pesquisadores conseguiram extrair um cilindro contínuo de gelo com cerca de 2,8 quilômetros de comprimento. As camadas mais antigas registram pelo menos 1,2 milhão de anos da história climática da Terra, superando o antigo registro contínuo de aproximadamente 800 mil anos.
O segredo está nas pequenas bolhas aprisionadas no gelo. Quando a neve se acumulou e foi comprimida, porções da atmosfera daquele período ficaram preservadas dentro das camadas. Por isso, cientistas conseguem medir diretamente concentrações antigas de gases e comparar essas informações com temperaturas e ciclos climáticos.
Agora, laboratórios europeus analisam o material para investigar uma mudança que ocorreu aproximadamente há um milhão de anos. Antes, os ciclos glaciais tinham periodicidade próxima de 41 mil anos; depois, passaram a ocorrer em intervalos próximos de 100 mil anos. Assim, o gelo pode ajudar a explicar uma das grandes transições climáticas do Pleistoceno.

Neandertais e denisovanos não foram os únicos grupos humanos antigos que deixaram material genético nos seres humanos modernos. Em 2026, pesquisadores desenvolveram uma técnica capaz de procurar assinaturas genéticas de populações arcaicas sem precisar do DNA de um fóssil conhecido.
Ao analisar genomas contemporâneos, o método encontrou sinais compatíveis com contribuições de grupos humanos ainda não identificados diretamente pela arqueologia. Em outras palavras, partes do nosso DNA podem ter vindo de populações que desapareceram sem deixar, até agora, genomas antigos sequenciados que permitam dar um nome a elas.
Os pesquisadores chamam essas contribuições de ancestralidade “fantasma”. Além de pistas sobre cruzamentos antigos, a análise encontrou trechos especialmente interessantes em populações da Oceania, incluindo regiões relacionadas ao sistema imunológico e ao metabolismo da vitamina D. Agora, o desafio é descobrir quando e onde esses encontros aconteceram.

Durante muito tempo, parte da Amazônia pré-colonial foi retratada como pouco ocupada por sociedades complexas. Entretanto, levantamentos feitos com LiDAR, tecnologia que usa pulsos de laser para mapear o relevo mesmo sob a vegetação, continuam mudando essa interpretação.
Em 2026, uma pesquisa ampliou para cerca de 183 mil quilômetros quadrados a área associada à chamada civilização Aquiry, no sudoeste da Amazônia. Ao analisar sistematicamente 2.380 quilômetros quadrados, os pesquisadores identificaram centenas de estruturas de terra e estimaram que toda a região poderia conter entre 24 mil e 30 mil obras desse tipo, sendo aproximadamente dois terços associados à Aquiry.
Essas estruturas incluem grandes recintos geométricos construídos no solo e áreas ligadas a práticas cerimoniais e sociais. Além disso, as evidências mostram manejo prolongado da paisagem, da água e da vegetação. Dessa maneira, a pesquisa amplia o entendimento sobre a escala das sociedades que viveram na Amazônia antes da colonização europeia.

Mesmo uma das regiões arqueológicas mais conhecidas do planeta ainda possui estruturas que nunca haviam sido documentadas. Em 2026, uma equipe polonesa e peruana identificou mais de 2,5 quilômetros de estradas pré-colombianas em uma área próxima a Machu Picchu.
As vias estavam praticamente invisíveis porque a floresta tropical cobria o terreno. Primeiro, pesquisadores utilizaram LiDAR instalado em drones para enxergar as formas escondidas sob as árvores. Depois, o trabalho de campo confirmou caminhos e indicou ainda a presença de plataformas, terraços e estruturas circulares na região do muro de Mandor e da montanha Yanantin.
As estradas ficam do outro lado do vale do rio Urubamba em relação ao núcleo famoso de Machu Picchu. Por isso, a descoberta pode ajudar os arqueólogos a compreender melhor como diferentes áreas do território inca estavam conectadas e utilizadas antes da chegada dos espanhóis.

O sistema de Beta Pictoris, localizado a cerca de 63 anos-luz da Terra, é observado por astrônomos há décadas. Dois planetas gigantes já eram conhecidos ali. Mesmo assim, um terceiro mundo conseguiu permanecer despercebido até as observações do telescópio espacial James Webb realizadas em 2026.
A descoberta de Beta Pictoris d aconteceu de uma forma incomum. Em vez de localizar primeiro um simples ponto luminoso, os pesquisadores encontraram a assinatura química esperada na atmosfera de um planeta, principalmente linhas de absorção de monóxido de carbono. Depois, outras observações identificaram também vapor d’água e metano.
Os modelos indicam que o planeta tem pelo menos aproximadamente duas vezes a massa de Júpiter e orbita a estrela a uma distância comparável à região de Netuno em nosso Sistema Solar. Mais importante, porém, é a técnica: astrônomos podem usar a química para localizar planetas difíceis de separar da luz e dos discos de poeira ao redor das estrelas.

O 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar confirmado a atravessar nosso Sistema Solar. Descoberto em 2025, ele já era especial por ter se formado ao redor de outra estrela. Porém, estudos publicados em 2026 indicaram que sua história pode ser muito mais antiga do que se imaginava.
Observações feitas com o James Webb, o observatório ALMA e o Very Large Telescope permitiram analisar sua composição. A água do objeto apresentou uma proporção de deutério muito acima daquela encontrada nos cometas conhecidos do Sistema Solar. Ao mesmo tempo, as proporções dos isótopos de carbono apontaram para uma formação em um ambiente extremamente frio e antigo.
A interpretação dos pesquisadores indica que o 3I/ATLAS pode ter se formado há até cerca de 12 bilhões de anos, embora essa idade derive de modelos e da composição isotópica, e não de uma datação direta. Se a hipótese se confirmar, o objeto será uma espécie de fóssil de um sistema planetário formado bilhões de anos antes do nosso Sol.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.
Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.