Muito além do gás: Vaca Muerta revela paisagens, fósseis e experiências únicas no coração da Patagônia

Região desponta como destino turístico inusitado após aumento de exportação de gás

Salto de Arroyo Buta-Có em Vaca Muerta (Foto: Luis Alberto Reyes)

Nos últimos anos, o nome Vaca Muerta ganhou destaque nos principais noticiários econômicos do mundo. Localizada na província de Neuquén, na Patagônia argentina, a formação geológica abriga uma das maiores reservas de petróleo e gás de xisto (shale) do planeta, transformando a Argentina em um importante protagonista do mercado energético internacional. No entanto, reduzir Vaca Muerta à sua relevância econômica significa ignorar um território marcado por vulcões extintos, reservas naturais, importantes descobertas paleontológicas, vinícolas de excelência e tradições que ajudam a preservar a identidade cultural do interior argentino.

Entre desertos, cânions e estepes, a região reúne destinos capazes de surpreender tanto quem busca turismo de natureza quanto os apaixonados por ciência, história e gastronomia.

Añelo: a porta de entrada para Vaca Muerta

Conhecida como a capital operacional de Vaca Muerta, Añelo experimentou uma transformação sem precedentes nas últimas décadas. O pequeno município tornou-se o principal centro logístico da exploração de hidrocarbonetos não convencionais na Argentina, concentrando empresas, trabalhadores e infraestrutura ligada à indústria do petróleo e do gás.

Apesar do protagonismo econômico, Añelo também preserva importantes atrativos naturais e históricos. O município está cercado pela paisagem típica da estepe patagônica, marcada por planícies áridas, formações rochosas e extensos campos de vegetação rasteira. Próximo dali encontra-se a Área Natural Protegida Auca Mahuida, uma reserva criada para preservar a biodiversidade regional e uma das maiores populações de guanacos da província de Neuquén. O vulcão extinto que dá nome à reserva domina a paisagem e abriga um dos mais importantes sítios paleontológicos do planeta: Auca Mahuevo, onde foram encontrados milhares de ovos fossilizados de titanossauros contendo embriões preservados — uma descoberta considerada histórica pela paleontologia mundial.

Outro ponto de interesse é o Museu de Sítio Ana María Bizet, instalado sobre um antigo cemitério indígena, que ajuda a compreender a ocupação ancestral da região e a presença do povo mapuche. Todos os anos, em outubro, Añelo também realiza a tradicional Festa Provincial da Yerra y el Pial, celebração que reúne gastronomia típica, música folclórica, provas campeiras e demonstrações das tradições rurais da Patagônia.

Rincón de los Sauces: um paraíso para a paleontologia

Seguindo em direção ao norte, Rincón de los Sauces tornou-se referência internacional quando o assunto é patrimônio fossilífero. A cidade abriga o Museu Municipal de Paleontologia Argentino Urquiza, considerado um dos mais importantes do país na área de dinossauros da Patagônia.

Seu acervo reúne centenas de fósseis encontrados na região e diversas réplicas em tamanho real que ajudam o visitante a compreender a fauna que habitou o território há milhões de anos. Entre os destaques está um dos esqueletos de titanossauro mais completos já descobertos na América do Sul, além de diversos exemplares de grandes répteis que viveram durante o período Cretáceo.

Nos arredores da cidade, áreas como Auca Mahuida e Cerros Colorados oferecem trilhas para caminhada, mountain bike, observação de aves e contemplação das paisagens típicas da estepe patagônica. A cultura local também permanece viva por meio das tradicionais assadoras de Vaca Muerta, mulheres que preservam a técnica do churrasco em fogo de chão, uma das expressões gastronômicas mais emblemáticas da região.

San Patricio del Chañar: a terra dos vinhos patagônicos

A cerca de 55 quilômetros da capital Neuquén, San Patricio del Chañar consolidou-se como o principal polo vitivinícola da província. Beneficiada por dias ensolarados, noites frias e clima seco, a região produz vinhos de alta qualidade, especialmente das variedades Malbec, Pinot Noir, Merlot, Cabernet Sauvignon e Chardonnay.

Vinícolas reconhecidas internacionalmente, como Bodega del Fin del Mundo, Familia Schroeder, Malma e Patritti, oferecem visitas guiadas, degustações e experiências de enoturismo que unem tecnologia, arquitetura e gastronomia.

Além dos vinhedos, o município abriga o Centro Paleontológico Lago Barreales, onde visitantes podem acompanhar escavações científicas e conhecer de perto o trabalho dos pesquisadores responsáveis por importantes descobertas de fósseis de dinossauros. Durante o verão, o Lago Mari Menuco complementa o roteiro turístico ao atrair praticantes de windsurf, caiaque, vela, pesca esportiva e outras atividades náuticas.

Buta Ranquil: cenários vulcânicos e natureza preservada

Na porção norte de Vaca Muerta, Buta Ranquil impressiona pela geografia moldada por antigos processos vulcânicos. A cidade está situada aos pés do Parque Provincial Tromen, dominado pelo majestoso vulcão Tromen, um dos cartões-postais naturais de Neuquén.

Entre os atrativos mais curiosos está El Hoyo, uma enorme depressão circular com aproximadamente 300 metros de diâmetro cuja origem ainda desperta interesse entre pesquisadores. Outro destaque é o Salto del Arroyo Buta-Có, uma cachoeira com cerca de 60 metros de altura cercada por cânions e formações rochosas que proporcionam belas trilhas e mirantes naturais.

A região também abriga os Cráteres de Michicó, cavidades naturais de origem vulcânica que, em alguns períodos do ano, acumulam água formando pequenas lagoas de grande beleza cênica. Em contraste com a paisagem árida, cresce ali uma rara concentração de cactos colunares que podem ultrapassar três metros de altura, reforçando o aspecto quase extraterrestre da paisagem.

Octavio Pico: onde quatro províncias se encontram

Com pouco mais de 300 habitantes, Octavio Pico é um dos povoados mais peculiares da Argentina. O município está localizado nas proximidades do ponto onde convergem os limites das províncias de Neuquén, Mendoza, La Pampa e Río Negro, característica geográfica rara no país.

Fundada a partir dos assentamentos estabelecidos por colonizadores espanhóis durante a década de 1930, a pequena comunidade mantém um estilo de vida tranquilo e aposta no desenvolvimento do turismo científico, da valorização do patrimônio natural e das oportunidades geradas pela expansão do setor energético.

Um destino que vai muito além da energia

Embora seja reconhecida mundialmente por seu potencial na produção de petróleo e gás não convencional, Vaca Muerta revela uma faceta pouco conhecida pelos visitantes. Entre vulcões adormecidos, reservas naturais, sítios paleontológicos de importância internacional, vinhedos premiados e tradições culturais profundamente ligadas à vida rural da Patagônia, a região reúne experiências que vão muito além da exploração energética.

À medida que sua importância econômica cresce, também aumenta o interesse pelo turismo científico, paleontológico, enogastronômico e de natureza, consolidando Vaca Muerta como um destino capaz de unir desenvolvimento, patrimônio geológico e riqueza cultural em uma das paisagens mais singulares da Argentina.


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Autor: João Pedro Oliveira

Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.

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