Mais do que um curso gratuito de música, a iniciativa é um mergulho coletivo na essência da cultura popular brasileira
Em meio ao avanço implacável da tecnologia, um sopro ancestral ecoa em Goiânia. Trata-se da Oficina de Pífano do projeto Pindorama – Ciclo de Oficinas, conduzida pelo multiartista pernambucano Damião Marcelo. Mais do que um curso gratuito de música, a iniciativa é um mergulho coletivo na essência da cultura popular brasileira, promovendo inclusão, criatividade e pertencimento por meio da arte.
Realizada com encontros presenciais e gratuitos no Circo Laheto, no Parque da Criança (Jardim Goiás), a oficina convida pessoas de todas as idades e experiências – incluindo idosos e pessoas com deficiência – a vivenciarem a tradição do pífano, flauta rústica de origem ancestral, amplamente usada em festas populares do Nordeste.
Um instrumento simples, um legado imenso. O pífano, apesar de sua aparência modesta, carrega séculos de história. Presente em cortejos, folguedos e celebrações do interior do Brasil, esse instrumento é símbolo de resistência e oralidade. Ensinar a fabricar um pífano com as próprias mãos – utilizando materiais como bambu, PVC e metal – é um ato político. É devolver à comunidade o direito de fazer música sem depender do mercado, é reafirmar que cultura se faz com afeto, coletividade e identidade.
Natural de Surubim e criado em Caruaru, Damião Marcelo é mais que um músico: é um guardião da tradição popular. Com mais de 20 anos dedicados às artes, já integrou grupos consagrados como a Banda de Pífanos Zé do Estado e o Sangue de Barro, que une o som ancestral às influências contemporâneas. Hoje em Goiânia, Damião atua como educador no Circo Basileu França e conduz oficinas onde música, consciência ecológica e artesanato caminham juntos.
Sua proposta é clara: ensinar, mas também escutar. Conduzir, mas também construir junto. A oficina de pífano em Goiânia é, portanto, mais do que uma experiência artística — é um espaço de escuta sensível e criação coletiva, onde o som é apenas o começo de um diálogo maior sobre ancestralidade, pertencimento e transformação.
Com encontros semanais às quintas-feiras, às 19h, a oficina promove o acesso à cultura como um direito. Financiado por meio da Política Nacional Aldir Blanc, com recursos operados pela Secretaria de Estado da Cultura de Goiás, o projeto reforça o papel fundamental do poder público na valorização da cultura de base comunitária. O Pindorama – Ciclo de Oficinas mostra que é possível democratizar o conhecimento e fortalecer os laços entre arte e território. Aprender a tocar um instrumento é sempre uma jornada pessoal. Mas aprender a construir esse instrumento com as próprias mãos, dentro de um processo coletivo, é algo revolucionário.
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Mari Magalhães é jornalista, roteirista, assessora de imprensa e fotodocumentarista com mais de 10 anos de atuação na cultura goiana Seu foco está voltado para novos talentos da música urbana contemporânea, cinema e atividades da cena underground. Contato:[email protected]
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