Endometriose cresce no Brasil e atendimentos no SUS disparam 76% em três anos

Campanha Março Amarelo alerta para sintomas ignorados por anos e destaca impacto da doença na fertilidade e na saúde mental das mulheres

Endometriose cresce no Brasil e atendimentos no SUS disparam 76% em três anos

A endometriose, doença inflamatória crônica que provoca dores intensas e pode comprometer a fertilidade, tem avançado silenciosamente entre mulheres brasileiras. Dados do Ministério da Saúde mostram que os atendimentos no Sistema Único de Saúde registraram aumento de 76,2% nos últimos três anos, um sinal claro da dimensão do problema que afeta milhões de pacientes.

No mundo, a condição atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, o equivalente a aproximadamente 190 milhões de pessoas. No Brasil, estima-se que cerca de 7 milhões convivam com a enfermidade. Apesar da alta incidência, o diagnóstico costuma levar anos, o que prolonga o sofrimento e dificulta o tratamento adequado.

Além das dores debilitantes, a doença aparece entre as principais causas de infertilidade feminina. O impacto vai além do físico e atinge também o cotidiano, o trabalho e a saúde emocional das pacientes, que muitas vezes passam anos sem entender a origem dos sintomas.

Dor menstrual ainda é ignorada

A demora para identificar a endometriose está ligada, em parte, à forma como a dor menstrual é tratada socialmente. Segundo a ginecologista Gabriela Freitas, da Clínica Vittá, o intervalo entre os primeiros sintomas e a confirmação do diagnóstico costuma variar entre 7 e 10 anos.

“O diagnóstico muitas vezes demora porque ainda existe uma normalização da dor menstrual. Muitas mulheres escutam por anos que cólica é normal, o que faz com que elas demorem a procurar ajuda ou a serem encaminhadas para investigação adequada”, explica a médica.

Para ampliar o debate público sobre o tema, foi criada a campanha internacional Março Amarelo, dedicada à conscientização sobre a endometriose. No Brasil, a mobilização ganhou força com o Dia Nacional de Luta contra a Endometriose, celebrado em 13 de março e instituído pela Lei nº 14.324, sancionada em abril de 2022.

Sem diagnóstico e tratamento adequados, a doença pode evoluir com agravamento das dores, comprometimento de órgãos próximos ao útero e forte impacto psicológico. Especialistas alertam que dor incapacitante durante o período menstrual não deve ser considerada parte natural da vida feminina.

Sintomas que acendem o alerta sobre a endometriose

Os sinais da doença podem aparecer de diferentes formas. Entre os sintomas mais frequentes estão cólicas intensas e progressivas, dor durante as relações sexuais e desconforto ao evacuar ou urinar durante o período menstrual.

Mesmo diante desses sintomas, muitas mulheres passam anos realizando exames ginecológicos de rotina sem receber um diagnóstico. Isso ocorre porque os testes comuns nem sempre conseguem identificar as lesões causadas pela endometriose.

“O ultrassom transvaginal de rotina muitas vezes não identifica a doença porque ele não é direcionado para essa investigação. O ideal é realizar um ultrassom transvaginal com preparo intestinal e protocolo específico para pesquisa de endometriose, além da ressonância magnética da pelve, que ajuda a avaliar a extensão e profundidade das lesões”.

A especialista também destaca que existem casos sem sintomas aparentes. Nessas situações, a confirmação definitiva pode ocorrer por meio de laparoscopia com biópsia, embora muitos diagnósticos atualmente sejam definidos pela combinação de exames de imagem e avaliação clínica.

Endometriose e infertilidade

Um dos principais receios entre pacientes diagnosticadas é a dificuldade para engravidar. A doença pode interferir na fertilidade de várias maneiras, afetando estruturas importantes do sistema reprodutor.

“A endometriose pode interferir na fertilidade por diferentes mecanismos: inflamação na pelve, alterações na anatomia das trompas e ovários, formação de aderências e, em alguns casos, impacto na qualidade dos óvulos”, detalha.

Apesar dos desafios, especialistas ressaltam que a gravidez natural ainda é possível em muitos casos. Quando necessário, a medicina reprodutiva oferece alternativas que aumentam as chances de gestação.

Entre os tratamentos disponíveis está a cirurgia por videolaparoscopia, indicada especialmente em quadros moderados ou graves. O procedimento remove lesões da doença, libera aderências e pode restaurar a anatomia da pelve, elevando as chances de gravidez natural para cerca de 40%.

Nem todas as pacientes precisam passar por cirurgia. Em muitos casos, o controle clínico com bloqueio hormonal é suficiente para reduzir a inflamação e aliviar os sintomas.

“A cirurgia não é necessária para todas as pacientes. Costuma ser indicada em casos de dor refratária ao tratamento clínico, presença de endometriomas ovarianos, comprometimento de órgãos como intestino ou quando há infertilidade associada e indicação específica”, afirma a especialista.

Tratamentos e reprodução assistida

Quando a gravidez não ocorre naturalmente, a Fertilização in Vitro (FIV) surge como a alternativa com melhores resultados, sobretudo para mulheres com mais de 35 anos, endometriose profunda ou obstrução das trompas.

O método permite coletar os óvulos diretamente dos ovários, realizar a fertilização em laboratório e transferir o embrião para o útero, contornando grande parte dos obstáculos provocados pela doença.

A Inseminação Artificial (IA) também pode ser utilizada em casos leves, geralmente associada à estimulação ovariana. Porém, sua eficácia tende a ser menor quando a endometriose está em estágio avançado.

Outra estratégia envolve o tratamento hormonal antes da FIV. Medicamentos podem induzir uma espécie de menopausa temporária por 3 a 6 meses, reduzindo a inflamação e melhorando as condições do endométrio para a implantação do embrião.

Em alguns casos, também é indicado o congelamento de óvulos ou embriões, alternativa considerada importante para preservar a fertilidade de pacientes jovens.

Causas da endometriose ainda não totalmente esclarecidas

A ciência ainda busca compreender completamente as origens da endometriose. A hipótese mais aceita atualmente é a chamada menstruação retrógrada, quando o sangue menstrual retorna pelas trompas e se deposita na cavidade abdominal, permitindo que células do endométrio cresçam fora do útero.

Embora esse fenômeno ocorra em muitas mulheres, apenas algumas desenvolvem a doença, o que indica influência de fatores individuais.

Entre os fatores associados estão predisposição genética, alterações imunológicas e influência hormonal. A doença depende do estrogênio para se desenvolver, o que explica sua maior incidência durante a idade reprodutiva.

Alguns aspectos também aumentam o risco de surgimento da enfermidade, como menarca antes dos 12 anos, ciclos menstruais curtos, fluxo intenso, menopausa tardia e ausência de gravidez ao longo da vida.

Especialistas apontam ainda a importância de um acompanhamento multidisciplinar. Estratégias como alimentação adequada, fisioterapia pélvica e acupuntura têm ganhado espaço no controle das dores e na melhora da qualidade de vida.

A endometriose costuma atingir principalmente mulheres entre 20 e 40 anos, fase marcada por intensa atividade hormonal e projetos de maternidade. Nesse cenário, ampliar o diagnóstico precoce e garantir acesso ao tratamento adequado torna-se fundamental para evitar anos de sofrimento silencioso.

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Autor: Pollyana Cicatelli

Jornalista pós-graduada em Comunicação Organizacional e especialista em Cultura, Arte e Entretenimento. Com ampla experiência em assessoria de imprensa para eventos, também compôs redações de vários veículos de comunicação. Já atuou como agente de viagens e agora se aventura no cinema como roteirista de animação.

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