Projeto reúne obras da trajetória do multiartista urbano Allan Silva
Por muito tempo, a produção artística das periferias foi ignorada ou reduzida a estereótipos. Mas basta uma atenção maior aos artistas de Aparecida de Goiânia para perceber que a arte sempre esteve ali – viva, pulsante, contestadora. A exposição itinerante “A Arte Pulsante da Periferia”, idealizada por Allan Silva, que chega a sua 3ª etapa entre os dias 14 e 28 de junho, no Pontão de Cultura Cidade Livre, é mais do que um evento cultural: é uma declaração política e estética sobre o poder criativo das quebradas.
Allan, que não apenas assina as obras, mas também vive o cotidiano periférico que inspira sua criação, convida o público a enxergar a arte urbana como algo maior do que pinturas em muros. Grafite, stencil, colagens, instalações, fotografias, intervenções e até artesanato: tudo é parte de um vocabulário visual que comunica experiências reais, marcadas por resistência, identidade e ancestralidade.
Num país em que a cultura popular ainda precisa disputar espaço e reconhecimento, Allan transforma a exposição em território de afirmação ao ocupar escolas, ruas e centros culturais de Aparecida. E não é só pelas obras estáticas que essa exposição ganha vida. A curadoria inclui shows de rap, discotecagens e batalhas de rima – expressões culturais igualmente legítimas e fundamentais para entender a potência simbólica das periferias. Grupos como Matilha, Conexão da Sul e Caseiro Rap não são apenas atrações musicais: são cronistas da vida nas bordas da cidade, rimando o que muitos preferem calar.
É emblemático que esse projeto tenha sido viabilizado por um edital voltado à cultura Hip Hop. Afinal, é esse movimento que, historicamente, formou gerações inteiras de artistas, pensadores e agentes culturais das favelas e das vilas. O Hip Hop ensina que a arte é uma arma, mas também é cura. E Allan Silva domina essa lição.
Ao nomear sua exposição como “A Arte Pulsante da Periferia”, o artista não está apenas descrevendo sua própria produção – ele está nomeando um fenômeno mais amplo, que diz respeito a milhares de artistas invisibilizados pelo centro. Por isso, mais do que visitar a exposição, é urgente repensar nossas estruturas de valorização cultural. A arte periférica não deve ser consumida como exceção ou como exotismo. Ela deve ser reconhecida como aquilo que é: expressão legítima, complexa e necessária da cultura brasileira contemporânea.
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Mari Magalhães é jornalista, roteirista, assessora de imprensa e fotodocumentarista com mais de 10 anos de atuação na cultura goiana Seu foco está voltado para novos talentos da música urbana contemporânea, cinema e atividades da cena underground. Contato:[email protected]
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