Hanseníase: saiba tudo sobre a doença e veja como o diagnóstico precoce auxilia na cura plena

Conheça sintomas, números atuais, falhas no diagnóstico, impacto econômico e novas estratégias que podem mudar o enfrentamento da doença no país

Hanseníase saiba tudo sobre a doença e veja como o diagnóstico precoce auxilia na cura plena

A hanseníase segue como um desafio silencioso no Brasil, apesar de ter cura e tratamento gratuito pelo SUS. A doença infecciosa, causada pelo bacilo de Hansen, ainda provoca sofrimento evitável, incapacidades físicas e forte preconceito social.

Transmitida de pessoa para pessoa, a hanseníase afeta principalmente os nervos periféricos. Por isso, especialistas a classificam como uma enfermidade essencialmente neural, com maiores chances de cura plena quando identificada precocemente.

O diagnóstico é clínico e depende da avaliação médica de sinais e sintomas. Quanto mais cedo ocorre a identificação, menor o risco de sequelas permanentes e maior a preservação da sensibilidade e da função motora. No Brasil, o tratamento padrão é feito com a Poliquimioterapia, um conjunto de antibióticos distribuídos gratuitamente pelo SUS. A estratégia é adotada há décadas e segue como base do controle da doença.

Como a hanseníase manifesta no corpo

Com a progressão da hanseníase, surgem alterações na pele e nos nervos. Manchas claras ou avermelhadas, redução de pelos e perda de sensibilidade são sinais frequentes nas áreas afetadas. Em fases avançadas, podem ocorrer deformidades nas mãos e nos pés, como a curvatura dos dedos conhecida como mão em garra. Dores, formigamentos e áreas dormentes costumam acompanhar o quadro.

Lesões inflamadas e nódulos também podem aparecer ao longo do tempo. Esses sinais costumam ser confundidos com outras doenças neurológicas ou reumatológicas, atrasando o diagnóstico correto. A Organização Mundial da Saúde distribui gratuitamente a Poliquimioterapia aos países onde a hanseníase permanece como problema de saúde pública. Casos com poucos bacilos são tratados por seis meses; quadros mais extensos exigem 12 meses.

Limitações do tratamento e alerta científico

Os antibióticos usados atualmente estão em uso há cerca de 40 anos. Pesquisadores já identificaram cepas resistentes, o que acende um alerta sobre falhas terapêuticas e retorno da doença após a alta.

Há casos em que o paciente conclui o tratamento, mas ainda mantém bacilos vivos no organismo. Também são registrados episódios de recidiva, quando a hanseníase reaparece após um período de aparente cura.

No Brasil, a Lei nº 9.010, de 1995, proibiu oficialmente o uso do termo “lepra” em documentos públicos. A legislação substituiu a expressão por hanseníase, em uma tentativa de reduzir o estigma histórico. Mesmo com avanços legais, o preconceito segue como barreira relevante ao diagnóstico precoce e à adesão ao tratamento, especialmente em regiões periféricas e populações vulneráveis.

Avaliação clínica e exames utilizados para hanseníase

A investigação médica para a detecção de hanseníase inclui avaliação dermatológica e neurológica detalhada. O profissional observa lesões cutâneas, alterações de sensibilidade e possíveis danos aos nervos periféricos. Durante a consulta, são realizados testes simples para identificar perda de percepção ao toque, à dor, ao frio e ao calor. A palpação de nervos em joelhos, tornozelos, cotovelos e punhos também é essencial.

A força muscular das mãos, pés e joelhos é avaliada para detectar comprometimentos funcionais. Quando necessário, o médico solicita exames complementares para confirmar o diagnóstico. Entre eles estão a baciloscopia, testes moleculares para identificar o DNA do bacilo, ultrassom de nervos e eletroneuromiografia, que avalia a condução nervosa.

Testes de sensibilidade e rastreamento familiar

Um dos exames mais importantes utiliza monofilamentos de náilon. São seis fios, com pesos entre 0,007 g e 300 g, aplicados sobre a pele para medir o grau de perda sensorial. A redução da sensibilidade ocorre de forma gradual e pode se tornar total em determinadas áreas. Esse acompanhamento ajuda a definir a gravidade e a evolução da doença.

Por determinação sanitária, todos os contatos familiares de pessoas diagnosticadas devem ser avaliados. A medida é fundamental para interromper a cadeia de transmissão. Mesmo assim, a hanseníase ainda é confundida com condições como artrite, artrose, fibromialgia, síndrome do túnel do carpo e outras neuropatias, o que dificulta o controle.

Hanseníase: eliminação como problema de saúde pública

Embora não possa ser erradicada, já que o bacilo permanece na natureza, a hanseníase pode ser eliminada como problema de saúde pública. Isso depende da ampliação do diagnóstico e do tratamento oportuno. O impacto econômico da doença é expressivo. Um estudo da USP analisou gastos do INSS com benefícios relacionados à hanseníase entre 2006 e 2019.

Nesse período, os pagamentos somaram R$ 5 bilhões, valor considerado elevado para uma enfermidade prevenível, tratável e curável quando identificada precocemente. Além do custo financeiro, há perdas sociais, afastamentos do trabalho e impacto direto na qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias.

Doença negligenciada e cenário global

A hanseníase integra a lista das 20 doenças negligenciadas reconhecidas pela OMS. São enfermidades que afetam populações pobres, isoladas e com acesso limitado a serviços básicos. Essas doenças atingem mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, principalmente em regiões com precariedade de saneamento, alimentação, educação e assistência em saúde.

O Brasil ocupa posição preocupante nesse cenário. Com população de 211,1 milhões, é o segundo país com mais casos registrados, atrás apenas da Índia, que tem 1,4 bilhão de habitantes. O país lidera a taxa mundial de detecção, que mede novos diagnósticos a cada 100 mil habitantes, indicador que revela transmissão ativa da doença.

Queda nos diagnósticos de hanseníase

Antes da pandemia, o Brasil registrava cerca de 30 mil novos casos por ano, número semelhante ao de diagnósticos de HIV e AIDS. Após esse período, houve queda superior a 35%. Especialistas alertam que essa redução não indica menos infecções, mas falhas na identificação. Em 2023, foram notificados 22.773 novos casos, aumento de 4% em relação a 2022.

A Sociedade Brasileira de Hansenologia aponta a existência de uma endemia oculta. Estima-se que haja de 3 a 5 vezes mais casos sem diagnóstico nem tratamento. Em regiões onde profissionais recebem capacitação adequada, o número de diagnósticos cresce rapidamente. O problema central é a falta de treinamento nos serviços de saúde.

Preconceito e violações de direitos

Em 2019, a SBH entregou à relatora da ONU para a “Eliminação do Preconceito contra Pessoas Afetadas pela Hanseníase e seus Familiares”, Alice Cruz, um relatório com 40 páginas. O documento descreve discriminações graves no Brasil. Muitos pacientes escondem o tratamento da família, crianças são afastadas da escola e adultos perdem o emprego.

Há relatos de exclusão social, inclusive em ambientes familiares. O relatório cita editais de contratação que impedem a participação de pessoas afetadas, mesmo em tratamento. Essas práticas violam direitos humanos e perpetuam o medo, dificultando a busca por diagnóstico e cuidado médico adequado.

Novo esquema terapêutico em avaliação para hanseníase

Uma pesquisa liderada pelo dermatologista Marco Andrey Cipriani Frade, de Ribeirão Preto, apresentou resultados promissores para o tratamento da hanseníase. O estudo, publicado em 2025 na Revista Brasileira de Doenças Infecciosas, acompanhou 66 pacientes entre 2015 e 2023. Houve melhora neurológica já no terceiro mês.

O novo esquema combina rifampicina, moxifloxacino, claritromicina e minociclina. A proposta busca maior eficácia e menos reações adversas que a terapia atual. A estratégia também tem como foco a recuperação da sensibilidade da pele e dos nervos, reduzindo o risco de incapacidades físicas permanentes. A CONITEC avalia sua incorporação ao SUS.

Raízes históricas e estigma secular

Registros sobre a hanseníase existem há mais de 6.000 anos. Em períodos antigos, doenças de pele eram agrupadas sob o termo “lepra”, sem distinções clínicas. A palavra “lepra” vem do grego antigo λέπρα, associada a escamas na pele. Textos bíblicos reforçaram a ideia de impureza, estigma que atravessou séculos.

No Brasil, uma lei de 1940 determinou a internação compulsória de pacientes em colônias, os leprosários. Filhos de pessoas afetadas também eram isolados em preventórios. O confinamento só terminou nos anos 1980. Muitos ex internos relatam que o preconceito fora dessas instituições era ainda mais cruel que o isolamento.

Questionamentos sobre dados e novas ferramentas

Em fevereiro de 2018, a revista The Lancet Infectious Diseases publicou o artigo “Os números dos casos de hanseníase são confiáveis?”. O texto foi assinado por hansenologistas da SBH. Os autores questionaram a baixa notificação em países com condições sanitárias piores que as do Brasil. Eles alertaram para as chamadas regiões silenciosas.

Para enfrentar o subdiagnóstico, a USP desenvolveu o Questionário de Suspeição de Hanseníase, com 14 perguntas de respostas simples. O instrumento foi adotado pelo SUS. Qualquer pessoa alfabetizada pode responder ao questionário e levá-lo ao médico. A ferramenta já recebeu prêmios por sua contribuição ao sistema público de saúde.

Inteligência artificial e mobilização social

A triagem manual dos questionários agora pode ser feita por inteligência artificial. O sistema MaLeSQs analisa milhares de respostas por hora com alta precisão. Desenvolvido na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o recurso acelera a identificação de casos suspeitos e otimiza o trabalho das equipes de saúde.

Desde 2015, a campanha Todos contra a Hanseníase atua na conscientização, com destaque para o mês de janeiro, conhecido como Janeiro Roxo. A iniciativa está presente em unidades de saúde, rodovias e na televisão. Mantida por parcerias, tornou-se modelo replicável em outros países.

Brasil no centro do debate mundial sobre a hanseníase

Em 9 de julho de 2025, durante o Congresso Mundial de Hanseníase em Bali, o Brasil foi escolhido como sede da edição de 2028. O evento será realizado no Rio de Janeiro e organizado pela International Leprosy Association. A escolha reconhece a experiência brasileira no enfrentamento da doença.

Entre as ações destacadas estão a capacitação de agentes comunitários, a criação do curso de especialização em Hansenologia e o sistema de notificação SINAN. Ferramentas como o QSH, o MaLeSQs e campanhas educativas seguem como exemplos de estratégias acessíveis e eficazes no combate à hanseníase.

Receba as principais notícias diariamente em seu celular. Entre no canal de WhatsApp do portal Gazeta Culturismo clicando aqui.


Leia Mais Sobre
Pollyana Cicatelli
Autor: Pollyana Cicatelli

Jornalista pós-graduada em Comunicação Organizacional e especialista em Cultura, Arte e Entretenimento. Com ampla experiência em assessoria de imprensa para eventos, também compôs redações de vários veículos de comunicação. Já atuou como agente de viagens e agora se aventura no cinema como roteirista de animação.

Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.