Com um projeto ao lado de Roberto Menescal, a cantora se aproxima da tradição brasileira sem perder sua identidade pop
Luísa Sonza iniciou o ano com um movimento que foge do óbvio dentro de sua trajetória. Ao lançar um trabalho em diálogo direto com Roberto Menescal, um dos nomes fundadores da bossa nova, a artista se coloca em um território de risco, mas também de amadurecimento artístico. Não se trata de ruptura com o pop, mas de um deslocamento calculado em direção à memória musical brasileira.
A proposta é simples e, justamente por isso, delicada. A bossa nova exige escuta atenta, controle vocal e respeito ao espaço do silêncio. Nesse contexto, Sonza opta por uma interpretação mais contida, distante da intensidade performática que marca seus hits recentes. O resultado é uma cantora que soa mais próxima, menos expansiva, tentando compreender o ritmo interno do gênero antes de se impor sobre ele.
A presença de Roberto Menescal não é apenas simbólica. Sua participação confere legitimidade ao projeto e estabelece um diálogo real entre gerações. Menescal não aparece como figura decorativa, mas como elo entre a origem da bossa e sua atualização possível. É nesse ponto que o projeto ganha força, ao evitar a armadilha da nostalgia vazia.
O repertório revisita clássicos com arranjos econômicos e atmosfera orgânica. Nada soa excessivo. Violões, harmonias suaves e uma produção que prioriza o encontro entre voz e instrumento constroem um disco que pede atenção e tempo, duas coisas raras no consumo musical atual.
Há também uma faixa inédita que funciona como ponto de contato entre os mundos que Luísa Sonza habita. Nela, a cantora não tenta imitar a bossa tradicional, mas dialogar com ela, mantendo sua assinatura melódica e emocional. É nesse equilíbrio que o projeto se sustenta.
Naturalmente, o disco divide opiniões. Parte do público estranha ver uma artista pop em um gênero historicamente associado à sutileza extrema. Ainda assim, o mérito está justamente na tentativa. Em vez de repetir fórmulas, Sonza escolhe experimentar, ouvir e se reposicionar.
No fim, o projeto não pretende redefinir a bossa nova, mas reafirmar sua vitalidade. Ao se aproximar desse repertório com respeito e curiosidade, Luísa Sonza sinaliza um desejo de expansão artística que vai além do hit imediato. E isso, por si só, já diz muito sobre o momento que ela vive.
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Felipe Cordeiro é poeta, escritor e radialista com ampla experiência no universo da comunicação. Nordestino e estudante de Jornalismo na UFG, carrega na voz e na escrita a força da cultura popular. Apaixonado por música, arte e pelas histórias que brotam do cotidiano, dedica-se aos estudos e vive intensamente o que a rua, a noite e a vida têm a ensinar. Contato: [email protected]
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