Mercado de games em Goiás avança, mas falta financiamento para transformar projetos em negócios; leia a entrevista

Presidente da GAMEGO, afirma que setor deixou período de produção isolada, ampliou articulação institucional e chegou a eventos internacionais

Mercado de games em Goiás

O mercado de games em Goiás vive uma fase de transição entre uma comunidade formada inicialmente por desenvolvedores independentes e a construção de um setor capaz de gerar empresas, empregos e produtos voltados ao mercado internacional.

Na avaliação de Michelle Santos, presidente da Associação dos Criadores de Jogos de Goiás (GAMEGO), a organização dos profissionais e a aproximação com instituições públicas avançaram nos últimos anos, mas a falta de financiamento contínuo ainda limita a transformação de projetos em negócios duradouros.

“Avalio o momento atual como de transição e maturidade. Saímos de uma fase em que a produção de jogos em Goiás era feita de maneira isolada por entusiastas e passamos a ter uma comunidade organizada, consciente do seu papel e em diálogo direto com o cenário nacional”, afirma Michelle Santos.

Nesse período, a entidade também ampliou as conexões com organizações nacionais e espaços voltados à inovação.

“A partir disso marcamos presença nas principais feiras de negócios (como a gamescom latam, gamescom Alemanha, PAX West, Bitsummit), articulamos com a ABRAGAMES e o Fórum Nacional de Associações Regionais, realizamos mostras em grandes eventos locais e pautamos a importância da cultura digital junto ao poder público e a redes de inovação, como o HUB Goiás”, detalha Michelle.

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Falta de financiamento ainda interrompe projetos antes que jogos cheguem ao mercado

Mercado de games em Goiás

Apesar da organização crescente do setor, o acesso a recursos aparece como uma das principais dificuldades para os desenvolvedores goianos. Segundo Michelle, o desafio não está apenas em financiar a criação de um protótipo, mas em permitir que o projeto avance até o lançamento comercial e consiga gerar receita para sustentar novas produções.

“Para nos consolidarmos como um polo relevante, falta principalmente continuidade e volume de financiamento”, aponta a presidente da GAMEGO.

A dificuldade ocorre em um cenário no qual os jogos eletrônicos passaram a contar com uma legislação específica no Brasil. Sancionada em maio de 2024, a Lei nº 14.852 instituiu o Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos e reconheceu o desenvolvimento de games como atividade elegível para mecanismos de fomento em inovação, formação de profissionais e cultura.

A legislação também enquadrou o desenvolvimento de jogos como segmento cultural para fins da Lei Rouanet. Para Michelle, porém, políticas permanentes são necessárias para que esse reconhecimento alcance efetivamente os estúdios e profissionais que trabalham em Goiás.

“Precisamos de mecanismos permanentes de fomento que garantam que os projetos não morram na fase de protótipo, mas consigam ser lançados, comercializados e reinvestidos no próprio estado”, defende Michelle.

A formação de novos profissionais também entra nessa discussão. “E esse financiamento deve alcançar também iniciativas formativas, para o incentivo do surgimento de novos talentos”, acrescenta a presidente.

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Games movimentam programação, arte, música, roteiro e outras áreas da economia criativa

A cadeia dos jogos eletrônicos não se limita aos profissionais de programação. A produção de um título pode envolver artistas visuais, roteiristas, músicos, animadores, designers e trabalhadores ligados à administração e comercialização dos projetos.

Por isso, Michelle considera que o fortalecimento do mercado de games em Goiás pode produzir efeitos em outros segmentos da economia criativa e tecnológica do Estado.

“Em Goiás, o ecossistema tem se estruturado como uma rede multidisciplinar. A criação de um jogo exige artes visuais, roteiro, música, animação, programação, game design e gestão de negócios”, explica Michelle.

A presidente da GAMEGO observa que essa característica amplia o potencial econômico da atividade. “Por isso, quando fortalecemos o setor de jogos, injetamos valor em toda a cadeia da economia criativa e da tecnologia do estado”, destaca.

Além dos games voltados ao entretenimento, desenvolvedores locais trabalham com projetos relacionados a outras áreas.

“Temos hoje arranjos produtivos criando jogos de entretenimento, jogos para educação e publicidade e também estudiosos discutindo o uso de jogos em sala de aula”, relata a dirigente.

Um jogo produzido em Goiânia pode chegar ao mercado internacional desde o lançamento

Mercado de games em Goiás

Outra característica destacada pela presidente da GAMEGO é a possibilidade de comercialização internacional dos produtos digitais. Ao contrário de negócios que dependem de estruturas físicas de distribuição, um jogo produzido por um estúdio goiano pode chegar a consumidores de diferentes países pelas plataformas digitais.

“Jogos são bens culturais digitais exportáveis por natureza. Um jogo feito em Goiânia pode ser vendido na Europa ou Ásia desde o primeiro dia de lançamento”, observa Michelle.

Essa possibilidade coloca a internacionalização entre os caminhos para geração de receita dos estúdios locais. Ao mesmo tempo, universidades e ambientes de inovação podem participar da preparação dos profissionais que entrarão na área.

“Além disso, podem gerar parcerias com instituições de ensino e centros de inovação para formar jovens profissionais na cultura digital contemporânea”, ressalta a presidente da associação.

Editais esporádicos e distância de investidores dificultam crescimento dos estúdios goianos

Quando questionada sobre os principais obstáculos enfrentados por quem tenta trabalhar ou empreender no setor, Michelle evita atribuir a dificuldade a um único fator. Para ela, o problema está na capacidade de manter os projetos economicamente ativos ao longo do tempo.

“O obstáculo não é único, mas sim um gargalo de sustentabilidade”, define Michelle.

Entre os problemas apontados estão editais que não acompanham o tempo necessário para desenvolvimento de um jogo, poucas conexões comerciais e dificuldades na transformação de projetos criativos em empresas estruturadas.

“Editais de cultura e inovação ainda são esporádicos e muitas vezes não compreendem as especificidades e os ciclos de produção de um jogo digital”, afirma a presidente da GAMEGO.

Além disso, os estúdios independentes precisam se aproximar de empresas capazes de financiar, publicar e distribuir seus produtos.

“Faltam pontes estruturadas para aproximar os estúdios indies locais de publicadoras (publishers), fundos de investimento e mercados globais”, pontua Michelle.

A profissionalização da gestão aparece como outro desafio. “Transicionar de um coletivo/projeto de game jam para uma empresa sustentável exige capacitação contínua em gestão, pitching e estratégia de mercado”, explica.

Manter profissionais em Goiás depende de condições para transformar projetos em empresas

A formação de profissionais, isoladamente, não garante que eles permaneçam trabalhando no Estado. Para Michelle, o mercado de games em Goiás precisa oferecer perspectivas econômicas que permitam aos desenvolvedores construir carreiras e empresas sem depender da mudança para outras regiões.

Uma das propostas defendidas pela GAMEGO é a criação de instrumentos específicos para diferentes etapas do desenvolvimento dos projetos.

“Editais públicos e linhas de crédito estaduais voltados especificamente para prototipagem, incubação e aceleração de estúdios de jogos”, enumera Michelle ao tratar das medidas necessárias.

Além dos recursos financeiros, os desenvolvedores precisam de apoio em áreas que nem sempre estão diretamente relacionadas à criação do jogo.

“Ambientes de incubação que ofereçam suporte jurídico, contábil e de negócios para que desenvolvedores transformem projetos em empresas de fato”, acrescenta a dirigente.

Outra frente envolve aproximar os criadores locais de possíveis clientes e parceiros. “Articulação entre o setor privado local, universidades e órgãos públicos para contratar e utilizar soluções interativas e games desenvolvidos por estúdios goianos”, aponta Michelle.

Para ela, a possibilidade de construir uma carreira financeiramente sustentável influencia diretamente a permanência dos profissionais no Estado.

“Quando o profissional enxerga um horizonte de sustentabilidade financeira sem precisar sair do estado, ele permanece, contrata localmente e fortalece o ecossistema”, considera.

GAMEGO busca aproximar desenvolvedores de universidades, poder público e mercado

Nesse cenário, a GAMEGO atua na articulação entre diferentes agentes do setor. Segundo Michelle, a associação trabalha tanto na representação institucional dos desenvolvedores quanto na criação de espaços para formação, exposição dos jogos e construção de contatos profissionais.

“A GAMEGO atua como o núcleo articulador da comunidade. Nosso papel é conectar as pontas, dar visibilidade ao setor e garantir representatividade política e institucional”, explica a presidente.

A associação participou de debates nacionais relacionados às políticas para o segmento.

“Para isso, participação em debates nacionais com MinC, Sebrae Nacional e ABRAGAMES (como na construção de acordos de cooperação técnica e debates sobre o Marco Legal dos Games)”, relata Michelle.

Também fazem parte das ações encontros e mostras realizadas em Goiás. “Organizamos mostras e painéis em grandes eventos (como a Campus Party Goiás, Estação da Inovação no HUB Goiás e Community SummitGO)”, cita a presidente.

A atuação envolve ainda projetos voltados à formação da própria comunidade. “E realizamos maratonas criativas, residências artisticas, encontros mensais contínuos e fomento a comitês temáticos como o Mulheres nos Jogos Goiás para ampliação da diversidade no setor”, destaca.

Game jams funcionam como laboratório para quem quer entrar na indústria

Game jams

Eventos de desenvolvimento rápido aparecem como uma das portas de entrada para novos profissionais. Nas game jams, equipes formadas por pessoas de áreas diferentes precisam desenvolver um projeto jogável dentro de um período limitado.

“Iniciativas como as Game Jams e mostras locais são laboratórios práticos de formação e redes de contato”, afirma Michelle.

Segundo a presidente da GAMEGO, o formato permite que os participantes experimentem em poucos dias etapas que fazem parte da rotina de um estúdio profissional.

“Em uma maratona de 48 horas, o participante vivencia todo o ciclo de vida de um produto: formação de equipe multidisciplinar, gestão de tempo, resolução de problemas e entrega do protótipo”, detalha.

Esses encontros também podem dar origem a relações profissionais que continuam depois dos eventos. “Muitos dos estúdios e parcerias existentes hoje em Goiás nasceram dentro de uma game jam”, revela Michelle.

As mostras, por sua vez, permitem testar diretamente a recepção dos projetos. “Além disso, ao colocarmos os jogos criados pela comunidade em estandes de grandes eventos, proporcionamos aos criadores o primeiro contato direto com o público leigo, colhendo feedbacks reais e aprendendo sobre comunicação e validação de produto”, comenta a presidente.

Segundo ela, o contato com os desenvolvedores também ajuda pessoas interessadas na área a entender que existem caminhos profissionais dentro do setor. “Além é claro de uma construção de legado que incentiva que novos profissionais vejam uma perspectiva da área através do contato com os criadores nesses eventos”, completa.

Próximos cinco anos podem definir se Goiás terá estúdios capazes de lançar jogos globalmente

O cenário projetado pela GAMEGO para os próximos anos envolve a criação de empresas formalizadas, lançamentos comerciais e geração de empregos dentro do Estado.

“Nos próximos cinco anos, vislumbro Goiás consolidado como uma referência em jogos independentes, diversidade e inovação no Centro-Oeste, com estúdios formalizados lançando títulos no mercado internacional e gerando empregos locais”, projeta Michelle.

Para alcançar esse cenário, a presidente volta a colocar o financiamento permanente entre as prioridades. “Criação de linhas permanentes de fomento à cultura digital e jogos eletrônicos no orçamento estadual e municipal”, defende.

Também seria necessário aproximar diferentes instituições envolvidas na formação e estruturação das empresas. “Criação de programas focados no setor de games em parceria com universidades, redes de inovação e o Sebrae”, acrescenta Michelle.

Por fim, a própria organização dos desenvolvedores continuará determinante para ampliar a presença do setor nas decisões que afetam a atividade.

“Manutenção e expansão da organização comunitária da GAMEGO, garantindo transparência, inclusão, diversidade e presença ativa nos espaços de decisão política”, conclui a presidente da associação.


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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