NO SUBSOLO DA FARGO: artistas de rua refletem sobre ocupação em galeria

Algumas das produções mais potentes da arte contemporânea goiana estão lá

NO SUBSOLO DA FARGO artistas de rua refletem sobre ocupação em galeria

Existe algo simbólico no fato de muitos artistas independentes, coletivos urbanos e estudantes de artes visuais ocuparem justamente o subsolo da FARGO – Feira de Arte Goiás 2026 (@fargogoias). Não necessariamente como uma separação, mas como um retrato das camadas que ainda estruturam o circuito artístico brasileiro.

Enquanto os andares superiores concentram galerias consolidadas e artistas já legitimados pelo mercado, o subsolo pulsa como um território de experimentação, atravessado pela arte de rua, pela pesquisa independente e pelas trajetórias construídas fora dos espaços tradicionais das belas artes. Talvez a pergunta não seja apenas “o que muda quando a arte sai da rua e ocupa galerias?”, mas também o que muda na própria galeria quando esses artistas passam a ocupá-la.

A FARGO chega à sua oitava edição consolidada como uma das principais plataformas de circulação das artes visuais no Centro-Oeste. Desde 2017, a feira promove encontros entre galerias, coletivos, estúdios, instituições, artistas e público, fortalecendo o mercado de arte e ampliando os diálogos sobre produção contemporânea na região. Este ano, a programação acontece no Centro Cultural Oscar Niemeyer, no Espaço SESC e no Espaço MMarte.

No prédio principal, enquanto galerias de diferentes partes do país ocupam os andares superiores, o subsolo tornou-se um ponto de encontro da produção independente goiana. Ali estão coletivos e ateliês como Vertex, Renka, Muquifü, Ateliê Vila Boa, estudantes da Faculdade de Artes Visuais da UFG e artistas urbanos que há anos transformam muros, ruas e espaços públicos em suporte artístico.

Entre eles está o artista visual Renan Accioly (@renan.accioly), que desenvolve pesquisas ligadas à memória, ancestralidade e às relações entre o urbano e o rural. Na FARGO, ele apresenta obras multidisciplinares em gravura, metal, desenho e fotografia analógica, partindo de objetos coletados. Para Renan, ocupar uma feira como a FARGO significa alcançar públicos diferentes, galerias e feiras aproximam os artistas de colecionadores e do mercado de arte, além de criarem novas possibilidades de valorização da cultura urbana. Ainda assim, ele acredita que o espaço da rua continua essencial enquanto território de expressão e troca direta com a cidade.

Renan também observa que a arte urbana ainda enfrenta resistência por parte de uma visão conservadora sobre o que pode ou não ser reconhecido como arte. “ Eu acho que a gente tem uma herança cultural bizarra. A galera tem uma noção de arte só o que está na moldura na parede. É preciso as pessoas entenderem, estudarem que a arte urbana é uma forma de expressão real. É necessário também que as instituições se aproximem do artista urbano, de trazer o artista de rua para dentro das galerias, mas é um caminho bastante tortuoso”, comenta Accioly.

Quem também ocupa o subsolo da feira é Rogério Tio Arte (@tio.arte), artista conhecido em Goiânia pelo trabalho com lambe-lambe e stencil. Apesar de já ter uma trajetória consolidada nas ruas da capital, esta é sua estreia como expositor na FARGO, integrando o Ateliê Vila Boa ao lado de outros artistas urbanos.

Celebrando dez anos de trajetória, Tio Arte levou para a feira quatro telas que dialogam com memória afetiva, pertencimento e arquitetura da cidade. As obras fazem referência ao bairro Campinas e às próprias raízes do artista, utilizando uma paleta vibrante e a linguagem do stencil como marca estética.

Ao refletir sobre a presença da arte urbana dentro de galerias, Tio Arte afirma que a rua sempre foi um espaço de ocupação coletiva e deixa de pertencer apenas ao artista e passa a ser compartilhada com quem atravessa a cidade. A entrada nas galerias, portanto, não representa uma ruptura com a rua, mas uma continuidade dessa ocupação em outros territórios.

“Na minha concepção de artista de rua, essa transição para dentro de galerias também faz parte deste contexto de ocupação, é uma coisa que já vem dando certo há muito tempo e eu estou muito feliz de fazer parte desta história .”, comenta.

NO SUBSOLO DA FARGO: artistas de rua refletem sobre ocupação em galeria

A grafiteira Junger Thai (@jungerthai) também estreia na FARGO deste ano. Pintando profissionalmente desde 2018, Thai desenvolve uma pesquisa ligada à fauna e flora do Cerrado e utiliza a arte para abordar questões ambientais e a preservação de espécies ameaçadas. Na feira, a artista apresenta uma obra inspirada no peixe piau de três pintas, espécie típica da região e atualmente ameaçada de extinção.

Para ela, a chegada da arte urbana às galerias tem um significado especial justamente por ampliar possibilidades para artistas que não vieram de famílias ligadas ao circuito tradicional das artes. Thai acredita que muitos artistas de rua sequer imaginavam ocupar espaços como galerias e feiras de arte, o que torna essas oportunidades importantes ferramentas de reconhecimento e valorização profissional.

A também artista grafiteira Mury (@mury.oliveira_) apresenta na FARGO um lado mais íntimo de sua produção artística. Suas obras exibidas na feira se distancia das técnicas em muros e atravessam para as telas com cenas cotidianas e memória afetiva. Mury diferencia a experiência da rua da experiência da tela. Para ela, a rua possui uma energia própria, mas também pode ser um espaço de insegurança, especialmente para mulheres. “Eu acredito que a arte tem que estar em todos os lugares, as galerias são importantes porque a gente também precisa ser reconhecidos como artistas, é um sonho. A rua é massa, mas é um pouco ingrata porque gasta muito, se arrisca muito e não tem retorno”, desabafa a artista.

NO SUBSOLO DA FARGO: artistas de rua refletem sobre ocupação em galeria

Veterano no circuito de exposições, Bulacha (@bulacharte) participa da FARGO pela terceira vez. Com uma trajetória marcada pela multiplicidade de linguagens, o artista apresenta a série “Cabeça de Nego”, inspirada na música de Sabotage.

As obras surgem de gestos espontâneos e da sobreposição de camadas de cor, sem referências visuais pré-definidas. Utilizando spray, tinta acrílica, tinta serigráfica, giz de cera e pincel atômico, Bulacha constrói retratos carregados de textura e intensidade cromática. Para ele, artistas de rua pertencem naturalmente aos espaços institucionais da arte contemporânea.

“Tem gente que nunca esteve na rua e utiliza as mesmas técnicas com spray, com o pincel atômico e vende suas obras por milhões. Por que a gente não pode ocupar com nosso trabalho?” , questiona.

Embora reconheça que galerias de arte movimentam um mercado muitas vezes distante da realidade da cultura de rua, ele acredita que artistas periféricos e independentes têm direito de disputar esse espaço, inclusive financeiramente. Para ele, estar na FARGO não é apenas uma conquista individual, mas um sinal de que a presença do artista urbano se tornou importante dentro do circuito institucional da arte.

“Eu acredito que a gente tem que chegar, meter o pé e se desdobrar dentro desta máquina, porque a gente só está aqui porque a gente é necessário também” , afirma Bulacha.

No subsolo da FARGO, o que se vê não é apenas uma exposição paralela. É um território onde diferentes trajetórias urbanas, periféricas e independentes encontram espaço para existir sem abandonar suas origens. Se a rua continua sendo um lugar de criação, questionamentos e liberdade, a galeria passa a funcionar também como espaço de permanência, reconhecimento e disputa simbólica. E talvez seja justamente dessa tensão entre rua e instituição que surjam algumas das produções mais potentes da arte contemporânea goiana. Visite o subsolo da FARGO 2026.


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Autor: Mari Magalhães

Mari Magalhães é jornalista, roteirista, assessora de imprensa e fotodocumentarista com mais de 10 anos de atuação na cultura goiana Seu foco está voltado para novos talentos da música urbana contemporânea, cinema e atividades da cena underground. Contato:[email protected]

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