Reparação e Bem Viver: o Brasil que as mulheres negras estão construindo

Marcha das Mulheres Negras 2025 apresenta Manifesto que denuncia desigualdades e aponta caminhos concretos para justiça histórica

Reparação e Bem Viver o Brasil que as mulheres negras estão construindo (Foto Mari Magalhães)

Na última terça-feira, 25 de novembro de 2025, Brasília foi tomada por cerca de 300 mil mulheres negras vindas de diversas partes do mundo. Elas chegaram em marcha — quilombolas, ribeirinhas, mulheres do campo, urbanas, periféricas, acadêmicas, artistas, trabalhadoras, meninas, mães, jovens, idosas e mulheres com deficiência — unidas pela força de uma ancestralidade que nunca deixou de resistir. A Marcha das Mulheres Negras Por Reparação e Bem Viver não foi apenas uma mobilização: foi uma afirmação contundente de que o Brasil precisa finalmente lidar com sua história e com as desigualdades que insiste em perpetuar.

O dia 25 de novembro, além de marcar a Marcha, é também o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. E foi justamente sobre esse ponto que a jovem ativista Marta Melo (@soumartamelo), de apenas 22 anos, representando o Comitê de Enfrentamento à Violência de Gênero e Raça chamou a atenção logo na abertura do evento.

Para ela, é impossível debater violência de gênero e raça sem falar de interseccionalidade. “É extremamente importante que compreendamos e analisemos a violência considerando o território, os corpos e a estrutura racial, porque isso é essencial para o fortalecimento das políticas públicas. Nós, mulheres negras, precisamos de acolhimento e autocuidado. Chega de olhar pra gente como se fossemos uma garganta que aguenta tudo, calada. A gente precisa também pautar o acolhimento, que tenham espaços que pautem nossa saúde mental e físico e é por isso que marchamos hoje em Brasília”, pontua a ativista.

A Marcha deste ano apresentou um Manifesto robusto, que não só denuncia desigualdades e violência, mas aponta caminhos concretos para a justiça econômica. O documento se organiza em sete eixos estratégicos: Reparação Econômica, Trabalho e Renda, Política Macroeconômica, Dignidade, Investimento Público, Investimento Privado e Economia Internacional. Trata-se de uma agenda que entende que a desigualdade não será superada com intenções genéricas, mas com políticas públicas precisas, orçamento dedicado e compromisso institucional. Por isso, o movimento entregará o manifesto ao Ministério da Fazenda e iniciará uma articulação intercontinental para que essas diretrizes ganhem força política.

O Manifesto também faz um ponto que muitos setores da sociedade ainda insistem em ignorar: por quase 400 anos, a economia brasileira se sustentou na escravidão. E, no pós-abolição, o país não ofereceu qualquer política de amparo às pessoas negras. Nesse contexto, a Reparação — eixo central da Marcha Global das Mulheres Negras — não é benefício. É justiça histórica! É o reconhecimento de que o Estado deve implementar ações políticas e materiais para enfrentar desigualdades que permanecem vivas na lógica colonial que organiza as relações sociais no país.

>> Clique aqui e leia o Manifesto Por Reparação e Bem Viver.

Defender reparação é defender a redistribuição de riquezas, a compensação por injustiças estruturais e o direito de todas as pessoas viverem com liberdade, educação de qualidade, seguridade social, justiça racial, cultura, memória e território. É assumir que o Brasil só será um país democrático quando mulheres negras — que sustentam este país há séculos — puderem viver com dignidade e plenitude.

A Marcha das Mulheres Negras 2025 deixa, portanto, um recado claro: não há Bem Viver sem Reparação. E não há justiça possível enquanto o Estado não enfrentar os alicerces do racismo que o estrutura. O Brasil que as mulheres negras marcharam para construir existe — e está cada vez mais próximo. Mas depende da coragem política de reconhecer a dívida histórica e de, finalmente, começar a quitá-la. E eles sabem muito bem como fazer isso.


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Autor: Mari Magalhães

Mari Magalhães é jornalista, roteirista, assessora de imprensa e fotodocumentarista com mais de 10 anos de atuação na cultura goiana Seu foco está voltado para novos talentos da música urbana contemporânea, cinema e atividades da cena underground. Contato:[email protected]

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