‘São Paulo, Sociedade Anônima’ capta com maestria a náusea na capital paulista

Clássico do Cinema Novo paulista retorna restaurado em 4k em cinemas selecionados no país

Walmor Chagas (1930-2013) como Carlos (Foto Divulgação Cinemateca Brasileira)

Prédios imponentes, carros dando som à cidade rodeada de grandes multidões solitárias e estranhas entre si e com o ambiente que habitam. Essas características amargas são marcantes nas metrópoles pós-modernas e, dentre as metrópoles brasileiras, São Paulo é a que gabarita esses sintomas da modernidade.

São nesses moldes que o filme “São Paulo, Sociedade Anônima” (1965), dirigido pelo paulistano Luiz Sérgio Person, trabalha suas ideias. Marcado pelo domínio pleno da linguagem cinematográfica (algo surpreendente para a época), o longa é um clássico do Cinema Novo, e capta muito bem a náusea que as
grandes metrópoles causam em sua população.

A náusea aqui citada é a mesma descrita pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), como a experiência visceral da existência moderna, em que o indivíduo se sente perdido no mundo e sente enjoo ao perceber não ser capaz de mudar a condição do mundo ao seu redor. É como se sentir pequeno e à parte em uma grande multidão, ideia muito presente no subtexto do filme.

Uma São Paulo nua e crua

Os eventos do filme, marcados pela não-linearidade característica da experimentação da vanguarda, se passam entre o fim dos anos 50 e o início dos anos 60, em uma São Paulo marcada pelo desenvolvimentismo e industrialização, tanto de multinacionais quanto de empresas nacionais. O ideal
positivista (“Ordem e Progresso”) é um dos principais objetos de crítica do filme.

Nessa ótica, a capital paulista se desenvolve apoiada em um ideal de progresso e modernidade, mas em paralelo às relações humanas e o senso de comunidade se dissolvem, e a cidade industrializada e seus desdobramentos se tornam estranhos aos próprios habitantes e participantes dessa grande “engrenagem”, sendo um verdadeiro retrocesso à essência social do ser humano. Essa alienação
não afeta apenas a maneira como as pessoas interagem com os seus trabalhos, mas sim toda a subjetividade e formação estrutural dessa sociedade.

Carlos (Walmor Chagas, 1930-2013) é o protagonista da obra, e um reflexo da náusea presente durante o processo de industrialização paulista. Ele é um trabalhador da indústria de automobilismo, que inicialmente é vista com muito otimismo pelo personagem, que aos poucos começa a se perder e perceber-se alienado ao seu próprio trabalho. Carlos é instrumentalizado assim como as engrenagens que ele produz, e se torna apenas parte de algo maior, que nem ele mesmo sabe dar nome.

Eva Wilma (1933-2021) e Walmor Chagas (1930-2013) dialogando em meio à multidão (Foto: Divulgação/Cinemateca Brasileira)
Eva Wilma (1933-2021) e Walmor Chagas (1930-2013) dialogando em meio à multidão (Foto: Divulgação/Cinemateca Brasileira)

O protagonista é um homem frio e inconformado, descrente do mundo à sua volta e, por muitas vezes, problemático, por ser afetado por essa grande conectividade técnica e racional característica do positivismo, que em troca desconecta as pessoas do mundo ao seu redor. Carlos entra em diversos
relacionamentos, mas não sabe se relacionar, não saber ser íntimo, a pós-modernidade não tem espaço para desenvolver isso, e o que antes era humano, se torna benefício pelo “trabalho duro”. Isso o transforma em uma pessoa solitária, que está cheio de um vazio.

Já Luciana (Eva Wilma, 1933-2021) representa o contrário. Ela é conformada com o American Way of Life, um soft power que estava começando a ganhar força no Brasil juntamente com a presença das multinacionais, e por isso acaba largando a sua autonomia, vivendo um relacionamento tóxico com Carlos, em que perde a sua individualidade e motivação. São Paulo, ao final das contas, também se torna estranho a ela, resultando em seu adoecimento psíquico e em suicídio, por não conseguir enxergar fora das metrópoles.

A belíssima fotografia do filme tem papel vital em sustentar esse distanciamento, e muitas vezes aposta em planos gerais que mostram a cidade enquanto os personagens principais estão caminhando, fazendo com que eles sumam na multidão e fortalecendo a noção de que aquela é uma sociedade anônima. Essa história e muitas outras se repetem diariamente, mas passam depressa e desapercebidas, assim como tudo que se passa em São Paulo.

“Porque a cidade tem ódio, mas sempre amou te dizer
Você não odeia a cidade, ela que odeia você”
— Shawlin, Afirmação da Vida.

O clássico na tela grande

“São Paulo, Sociedade Anônima” retornou aos cinemas após o seu aniversário de 60 anos, mais atual e relevante do que nunca, com uma belíssima nova restauração em 4k do clássico. Em Goiânia, o filme pode ser assistido no Cine Cultura durante as próximas semanas.


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Autor: Gabriel Dias

Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.

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