Câncer de mama: diagnóstico precoce reduz cirurgias invasivas e muda tratamento

Goiás deve registrar cerca de 2,1 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028; exames mais precisos, testes genéticos e novas terapias permitem tratamentos cada vez mais individualizados

Câncer de mama

O câncer de mama deve atingir cerca de 2.150 mulheres por ano em Goiás entre 2026 e 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). No Brasil, a projeção se aproxima de 80 mil novos diagnósticos anuais no mesmo período. Ao mesmo tempo, a forma de identificar e tratar a doença mudou nas últimas décadas, principalmente com a detecção de tumores menores e a definição mais precisa das características biológicas de cada caso.

Hoje, mamografia, ultrassonografia, ressonância magnética e testes moleculares ajudam a escolher tratamentos de maneira mais individualizada. Com isso, algumas pacientes podem evitar cirurgias extensas ou quimioterapia sem perder eficácia terapêutica. Já em outros casos, o diagnóstico precoce permite iniciar o tratamento antes que a doença alcance estruturas próximas ou outros órgãos.

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Diagnóstico precoce de câncer de mama pode reduzir extensão da cirurgia

Segundo Ruffo de Freitas Junior, mastologista cooperado da Unimed Goiânia e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), a mudança começa justamente na identificação precoce das alterações.

“Hoje tratamos lesões muito menores do que há duas décadas, principalmente dentro do sistema Unimed, onde equipamentos como mamografia, ultrassonografia e ressonância magnética das mamas mudaram por completo esse cenário”, explica.

O médico também destaca o papel da investigação genética na definição do acompanhamento. “O entendimento das alterações genéticas também permite identificar mulheres com maior risco, que precisam de um rastreamento mais frequente, separando-as daquelas que podem fazer mamografia a cada dois anos”, acrescenta.

Encontrar o câncer de mama nos estágios iniciais pode mudar diretamente o tipo de cirurgia indicada. Em determinadas situações, a equipe consegue retirar apenas o tumor e uma margem de tecido saudável, preservando a maior parte da mama. Já quando a doença apresenta maior extensão, outras abordagens podem continuar necessárias.

A escolha depende de fatores como tamanho do tumor, localização, comprometimento de estruturas próximas e características biológicas. Por isso, duas pacientes com tumores de dimensões semelhantes podem receber tratamentos diferentes. O estágio da doença e a resposta às terapias realizadas antes da cirurgia também interferem nessa decisão.

Ruffo destaca que a abordagem dos linfonodos da axila também ficou menos invasiva em vários casos. “Estudos conduzidos ao longo de mais de 25 anos mostraram que a retirada completa da mama não traz benefício adicional em relação a cirurgias mais conservadoras associadas à radioterapia”, afirma.

>> Leia também: Outubro Rosa em Goiás terá ampliação no rastreamento e testes genéticos pelo SUS

Reconstrução e oncoplastia mudaram resultado cirúrgico

A evolução cirúrgica também alcançou a reconstrução da mama. Técnicas de oncoplastia passaram a combinar a retirada do tumor com procedimentos que buscam preservar ou reconstruir o formato mamário. Nesse cenário, a equipe considera tanto o controle oncológico quanto os impactos físicos do procedimento.

Quando a mastectomia continua necessária, a reconstrução pode ocorrer imediatamente ou em outro momento, conforme as condições clínicas e o tratamento planejado. Por outro lado, nem toda paciente terá a mesma indicação, já que radioterapia, localização do tumor e condições de saúde interferem no planejamento.

Para Ruffo, essa mudança também influencia a percepção da mulher sobre o tratamento. “Além do tratamento do câncer, [as técnicas permitem] entregar à mulher um resultado estético muito mais adequado, reduzindo o estigma associado à doença”, destaca.

Nem toda paciente de câncer de mama precisa de quimioterapia

A quimioterapia continua fundamental no tratamento de vários tipos de câncer de mama. Porém, os médicos já conseguem identificar grupos em que o benefício do procedimento é menor e, dessa maneira, evitar efeitos colaterais desnecessários.

Testes genômicos como Oncotype DX e MammaPrint analisam características do tumor e ajudam a estimar o risco de recorrência em situações específicas. Assim, essas ferramentas podem contribuir para decidir se determinada paciente precisa realmente acrescentar quimioterapia ao tratamento.

“Certamente a quimioterapia é o tratamento que mais causa efeitos colaterais, e é extremamente importante em vários casos”, afirma Ruffo. O especialista ressalta, no entanto, que a indicação deixou de seguir uma lógica única para todas as pacientes.

“Existem plataformas genéticas, como o Oncotype DX e o Mammaprint, que permitem, com segurança, deixar de fazer quimioterapia em aproximadamente 40% das pacientes, evitando efeitos colaterais sem reduzir a eficácia do tratamento”, explica.

Esse percentual citado pelo mastologista não se aplica automaticamente a todos os diagnósticos. A utilidade dos testes depende, por exemplo, do estágio, dos receptores hormonais, da expressão de HER2 e do comprometimento dos linfonodos. Por isso, a análise permanece individual.

Terapias-alvo ampliaram opções contra tumores agressivos

Câncer de mama

Outra mudança importante ocorreu com a identificação de características específicas das células tumorais. Em vez de tratar todos os cânceres de mama da mesma maneira, os médicos passaram a separar a doença em diferentes subtipos e escolher medicamentos conforme os alvos presentes no tumor.

Nos casos HER2 positivos, por exemplo, terapias direcionadas contra a proteína HER2 mudaram o prognóstico de muitas pacientes. Já outros tumores podem responder melhor à hormonioterapia, à imunoterapia ou a combinações específicas de medicamentos.

Também ganharam espaço os conjugados anticorpo-droga, que unem um anticorpo a uma substância antitumoral. Dessa maneira, o medicamento busca atingir células que apresentam determinado alvo molecular e liberar o tratamento de forma mais direcionada.

“Isso mudou o prognóstico até de tumores antes considerados mais agressivos, como os casos HER2 positivo e triplo-negativo. Hoje conseguimos uma taxa de cura altíssima para uma doença que, no passado, era difícil de controlar”, avalia Ruffo.

A possibilidade de cura, porém, continua ligada ao estágio da doença e às características de cada tumor. Em quadros iniciais, as chances são maiores. Já na doença metastática, o tratamento busca principalmente controlar a evolução, prolongar a sobrevida e preservar a qualidade de vida.

Rastreamento continua no foco do Outubro Rosa

O Outubro Rosa chama atenção para o rastreamento antes do surgimento de sintomas. Nesse contexto, a mamografia continua sendo o principal exame utilizado para encontrar alterações suspeitas em mulheres sem sinais aparentes da doença.

Ruffo defende a realização anual da mamografia a partir dos 40 anos. “As pessoas acham que câncer de mama só acontece em quem tem história familiar. Na verdade, aproximadamente 70% dos casos acontecem em mulheres que nunca tiveram ninguém na família com a doença”, afirma.

As recomendações, entretanto, não são idênticas entre todas as entidades. Sociedades médicas brasileiras defendem o exame anual a partir dos 40 anos para mulheres de risco habitual. Já o Ministério da Saúde prioriza o rastreamento bienal entre 50 e 74 anos, embora mulheres de outras faixas possam realizar o exame após avaliação e decisão compartilhada.

Essa diferença envolve a análise de benefícios e possíveis efeitos do rastreamento, como falsos positivos e exames adicionais. Por isso, idade, histórico familiar, densidade mamária e outros fatores devem entrar na conversa com o profissional de saúde.

Histórico familiar não explica a maioria dos casos

Embora a hereditariedade tenha importância, apenas uma parcela dos tumores apresenta relação direta com mutações transmitidas entre gerações. O INCA estima que entre 5% e 10% dos casos de câncer de mama tenham caráter hereditário.

Os genes BRCA1 e BRCA2 estão entre os mais conhecidos. Uma mutação nesses genes não significa que a mulher desenvolverá necessariamente a doença, mas aumenta o risco e pode justificar um acompanhamento diferente daquele indicado à população em geral.

Em Goiás, o programa Goiás Todo Rosa passou a oferecer testes genéticos pelo SUS para pessoas que atendem a critérios de risco hereditário. A iniciativa busca identificar pacientes e familiares que podem precisar de estratégias específicas de rastreamento e prevenção.

Alimentação, exercício e álcool interferem no risco

Nem todos os fatores relacionados ao câncer de mama podem ser modificados. Idade, características hormonais e determinadas alterações genéticas independem de escolhas individuais. Porém, hábitos de vida também aparecem entre os elementos associados ao risco.

Ruffo cita um estudo realizado pela UFG com mulheres goianas e destaca a alimentação como um dos fatores modificáveis avaliados. A dieta tradicional, com arroz, feijão, frutas, verduras e carnes magras, aparece entre os padrões alimentares analisados.

A atividade física também tem papel importante. “Mulheres que fazem exercício físico tendem a ter uma chance menor de desenvolver câncer de mama do que as sedentárias. O controle do peso também é um fator importante, assim como o acompanhamento adequado para quem faz terapia hormonal na menopausa”, acrescenta.

O consumo de bebidas alcoólicas também entra nessa discussão. Quanto maior o consumo, maior tende a ser o risco associado a diferentes tipos de câncer. Por isso, limitar ou evitar bebidas alcoólicas faz parte das recomendações gerais de prevenção.

Radioterapia ficou mais curta para algumas pacientes

A radioterapia também mudou ao longo dos últimos anos. Esquemas que anteriormente exigiam cinco ou seis semanas podem, em alguns casos, ser concluídos em períodos consideravelmente menores.

Essa redução não acontece para todas as pacientes. O planejamento depende do tipo de cirurgia realizada, do estágio da doença, da região que precisa receber radiação e das características clínicas individuais.

Ao mesmo tempo, equipamentos atuais permitem direcionar melhor as doses para a área escolhida. O planejamento busca atingir o tecido necessário enquanto reduz, dentro do possível, a exposição de estruturas próximas, como pulmão e coração.

Sintomas exigem avaliação mesmo fora da faixa de rastreamento

O rastreamento atende mulheres sem sintomas. Já quem percebe alterações na mama precisa procurar avaliação médica, independentemente da idade ou da data do último exame. Nódulo persistente, retração da pele ou do mamilo, mudança no formato da mama e secreção sanguinolenta estão entre os sinais que merecem investigação. Embora essas alterações não indiquem necessariamente câncer, não devem ser ignoradas.

Neste ano, a Unimed Goiânia reuniu as campanhas de Outubro Rosa e Novembro Azul sob a proposta de manter o cuidado durante todo o calendário. A mensagem parte justamente da diferença entre esperar um sinal e acompanhar a saúde antes que ele apareça.


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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