Café faz bem à saúde? Benefícios, limites e o que dizem as evidências

Dados do IBGE revelam que cada pessoa consome, em média, de 3 a 4 xícaras por dia

Conheça os benefícios do café (Foto: Canva)

O café segue entre as bebidas mais presentes na rotina dos brasileiros. Em 2025, o país consumiu 21,409 milhões de sacas de 60 quilos, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café, a ABIC. A entidade também estima, separadamente, que cada brasileiro consome em média 1.400 xícaras por ano, o equivalente a cerca de 3,8 xícaras por dia. Além do peso cultural e econômico da bebida no Brasil, o interesse pelo café passa por seus possíveis efeitos sobre disposição, atenção, desempenho físico e saúde no longo prazo. As evidências disponíveis, no entanto, indicam que os resultados dependem da quantidade consumida, do organismo de cada pessoa e de outros hábitos de vida.

Os números mais recentes ajudam a dimensionar essa relação. O consumo nacional caiu 2,31% em 2025 na comparação com o período anterior e ficou em 21,409 milhões de sacas. Mesmo com a retração, o Brasil permanece como o segundo maior consumidor mundial de café, além de ocupar a liderança global na produção e na exportação, segundo a ABIC.

Café está presente na rotina de grande parte dos brasileiros

A presença da bebida no cotidiano também aparece na Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017 e 2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. No levantamento, 78,1% das pessoas pesquisadas haviam consumido café nas 24 horas anteriores à entrevista. A bebida apresentou a maior frequência de consumo entre os itens avaliados, à frente de alimentos tradicionais como arroz e feijão.

É importante diferenciar os indicadores. O levantamento do IBGE avaliou o consumo alimentar da população no período pesquisado. Já os números mais recentes sobre o mercado brasileiro são divulgados pela ABIC. A estimativa de 1.400 xícaras anuais por brasileiro, portanto, deve ser atribuída à associação.

Cafeína aumenta o estado de alerta e pode favorecer o desempenho

Entre os componentes do café, a cafeína é o mais conhecido. Ela atua no sistema nervoso central e pode aumentar temporariamente o estado de alerta e reduzir a sensação de sonolência.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, a EFSA, considera que doses únicas de até 200 miligramas de cafeína não representam preocupação de segurança para a população adulta saudável. Para o consumo distribuído ao longo do dia, ingestões de até 400 miligramas também não levantam preocupação para adultos saudáveis, com exceção das gestantes.

A quantidade de cafeína presente em uma xícara, entretanto, varia consideravelmente. Tipo de grão, método de preparo, quantidade de pó, volume de água e tamanho da porção interferem na concentração final. Por isso, contar apenas o número de xícaras não é uma maneira precisa de calcular a ingestão diária.

No exercício físico, há evidências de que a cafeína pode favorecer diferentes aspectos do desempenho, especialmente em atividades de resistência. Estudos também apontam redução da percepção de esforço em determinadas condições.

Isso não significa que todo praticante de atividade física precise consumir cafeína ou recorrer a suplementos. A resposta é individual, e pessoas que apresentam ansiedade, palpitações, desconforto gastrointestinal ou prejuízo do sono podem experimentar mais efeitos indesejados do que benefícios.

Benefícios do café vão além da cafeína

Reduzir o café à cafeína é uma simplificação. A bebida contém numerosos compostos bioativos, entre eles polifenóis, que são investigados por seus possíveis efeitos antioxidantes e anti inflamatórios no organismo.

Uma ampla revisão publicada no periódico científico The BMJ, que reuniu resultados de mais de 200 análises anteriores, encontrou associações entre o consumo habitual de café e diferentes desfechos de saúde. Em várias análises, o consumo de aproximadamente três a quatro xícaras por dia apareceu associado a menor risco relativo de mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular e doenças cardiovasculares.

Também foram observadas associações favoráveis relacionadas a algumas doenças metabólicas, neurológicas e hepáticas.

Há, porém, uma ressalva importante. Grande parte dessas evidências vem de estudos observacionais. Esse tipo de pesquisa consegue identificar relações estatísticas entre o hábito de beber café e determinados resultados de saúde, mas não permite concluir automaticamente que o café seja o responsável pelo efeito.

Alimentação, prática de atividade física, tabagismo, consumo de álcool, genética, idade, renda e outros fatores podem interferir nos resultados. Por isso, é mais correto afirmar que o consumo moderado de café está associado a menor risco de determinadas condições do que dizer que a bebida previne doenças.

➡️Clique aqui e entre no canal do WhatsApp para receber notícias de forma gratuita

Diabetes tipo 2 está entre as condições mais pesquisadas

A relação entre café e diabetes tipo 2 aparece com frequência na literatura científica. Estudos populacionais e revisões encontram associação entre o consumo habitual da bebida e menor risco de desenvolvimento da doença.

A American Heart Association também aponta que o consumo regular de café preto com cafeína aparece associado a menor risco de diabetes tipo 2. Ao mesmo tempo, a entidade ressalta que a cafeína pode reduzir temporariamente a sensibilidade à insulina e que os possíveis benefícios de longo prazo podem estar relacionados a outros componentes presentes no café.

Isso reforça uma característica importante das pesquisas sobre a bebida. Nem todos os efeitos observados podem ser atribuídos diretamente à cafeína.

Café e saúde cardiovascular exigem atenção à quantidade

Em julho de 2026, a American Heart Association publicou uma nova declaração científica sobre cafeína e doenças cardiovasculares. O documento foi publicado online no periódico Circulation em 20 de julho de 2026.

Segundo a entidade, o conjunto atual de evidências indica que o consumo de até 400 miligramas de cafeína por dia é considerado seguro para a maioria dos adultos. A quantidade corresponde, segundo a referência utilizada pela associação, a até cinco xícaras de aproximadamente 240 mililitros de café preto com cafeína.

O consumo moderado de café também aparece associado a menor risco de doença arterial coronariana e acidente vascular cerebral. A American Heart Association ressalta, entretanto, que grande parte das evidências sobre cafeína e saúde cardiovascular é observacional e que ainda são necessários mais ensaios clínicos randomizados.

A resposta à cafeína também varia bastante entre as pessoas devido a fatores como genética, metabolismo, consumo habitual, idade e presença de outras condições de saúde.

Café não deve ser apresentado como forma de prevenir câncer

A relação entre café e câncer exige cuidado especial. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, a IARC, vinculada à Organização Mundial da Saúde, avaliou mais de mil estudos e concluiu que o consumo de café não pôde ser classificado quanto à carcinogenicidade para seres humanos.

Essa classificação não significa que o café tenha sido comprovadamente considerado seguro contra todos os tipos de câncer. Significa que as evidências disponíveis não permitiram concluir que a bebida cause câncer em seres humanos de maneira geral.

Na avaliação da IARC, os estudos não apontaram efeito carcinogênico para alguns tumores, incluindo câncer de mama, próstata e pâncreas. Também foram observadas associações com menor risco de câncer de fígado e de endométrio.

Para mais de 20 outros tipos de câncer, entretanto, as evidências avaliadas foram insuficientes para uma conclusão. Assim, não é cientificamente adequado afirmar de maneira genérica que o café previne câncer.

Excesso de cafeína pode prejudicar o sono

Os possíveis benefícios não eliminam os riscos do consumo excessivo. A sensibilidade à cafeína varia de pessoa para pessoa e pode ser influenciada pela genética, frequência de consumo, idade, metabolismo e condições de saúde.

Entre os efeitos indesejados associados ao excesso estão alterações do sono, ansiedade, agitação, tremores e palpitações.

A EFSA estabelece 400 miligramas ao dia como quantidade que não levanta preocupação de segurança para adultos saudáveis, com exceção das gestantes. Esse número não deve ser interpretado como uma meta de consumo. Pessoas mais sensíveis podem apresentar efeitos adversos com quantidades consideravelmente menores.

O sono merece atenção especial. Segundo a EFSA, uma dose única de 100 miligramas de cafeína pode afetar a duração e o padrão do sono de alguns adultos, principalmente quando consumida perto do horário de dormir.

Por isso, não existe um horário universal, como 14h30, a partir do qual todas as pessoas deveriam deixar de tomar café. Quem percebe dificuldade para adormecer, despertares frequentes ou piora na qualidade do sono deve avaliar a redução da cafeína nas horas que antecedem o descanso.

Gestantes precisam controlar todas as fontes de cafeína

As recomendações são diferentes durante a gestação. Segundo a EFSA, ingestões de cafeína de todas as fontes de até 200 miligramas ao dia não representam preocupação para o feto com base nas evidências avaliadas pela entidade.

Isso significa que a conta não deve considerar somente o café. Chá, chocolate, refrigerantes, energéticos e determinados medicamentos também podem contribuir para a ingestão diária de cafeína.

A recomendação individual deve considerar o acompanhamento pré natal e as orientações do profissional de saúde responsável.

Método de preparo pode interferir na quantidade de cafestol

Nem todo café apresenta exatamente a mesma composição. Além da concentração de cafeína, o método de preparo interfere na presença de determinados componentes.

Um deles é o cafestol, composto presente tanto no café com cafeína quanto no descafeinado. Segundo a declaração científica da American Heart Association de 2026, dados de ensaios clínicos randomizados indicam associação entre o cafestol e níveis mais elevados de colesterol LDL, popularmente chamado de colesterol ruim.

A entidade informa que o cafestol está presente em preparações não filtradas, como café expresso, prensa francesa, café turco e café fervido. Segundo a American Heart Association, ele não está presente no café preparado com filtro de papel nem no café solúvel.

Essa diferença ajuda a explicar por que o método de preparo também deve ser considerado quando se estudam os possíveis efeitos cardiovasculares do consumo habitual de café.

>> Leia também: Saiba como ter uma vida mais saudável, a partir da alimentação

Açúcar e acompanhamentos podem mudar o perfil da bebida

Outro aspecto importante está no que é acrescentado à xícara. Café preto sem adição de açúcar possui perfil nutricional muito diferente de bebidas preparadas com grandes quantidades de açúcar, xaropes, cremes e coberturas.

Esses ingredientes podem aumentar consideravelmente a quantidade de açúcar e o valor energético da preparação. Por isso, os possíveis benefícios observados em pesquisas sobre café não devem ser automaticamente transferidos para todas as bebidas comerciais que levam café na composição.

Café também ganha espaço na culinária

Além da bebida tradicional, o café pode ser utilizado em sobremesas, bolos, cremes, bebidas geladas, vitaminas e preparações salgadas.

Dependendo da origem dos grãos, da variedade, da torra e do método de preparo, a bebida pode apresentar características sensoriais que remetem a chocolate, caramelo, castanhas, frutas, flores e especiarias.

Métodos diferentes também modificam aroma, corpo, acidez e intensidade. Café coado, expresso, prensa francesa e preparações geladas, por exemplo, podem produzir experiências bastante distintas mesmo quando utilizam grãos semelhantes.

Do ponto de vista da saúde, entretanto, o mais importante é observar a quantidade total de cafeína ingerida durante o dia, além dos ingredientes adicionados à bebida.

O que a ciência permite afirmar sobre os benefícios do café

O conjunto atual de evidências indica que o café pode fazer parte de uma alimentação saudável para a maioria dos adultos quando consumido com moderação.

A cafeína tem efeitos conhecidos sobre o sistema nervoso central, aumentando temporariamente o estado de alerta, e pode contribuir para o desempenho físico em determinadas circunstâncias.

O consumo habitual de café também aparece associado em estudos populacionais a menor risco de alguns desfechos cardiovasculares, diabetes tipo 2, determinadas doenças hepáticas e mortalidade por todas as causas. Há ainda pesquisas sobre possíveis associações com doenças neurológicas e alguns tipos específicos de câncer.

Essas evidências, porém, não transformam o café em medicamento. A bebida não substitui alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado, acompanhamento profissional nem tratamentos prescritos.

Para adultos saudáveis, uma referência amplamente utilizada por autoridades científicas é manter a ingestão total de cafeína em até 400 miligramas ao dia. Mais importante do que perseguir um número específico de xícaras é considerar a concentração da bebida, outras fontes de cafeína e a resposta do próprio organismo.

Para quem tolera bem o café, o consumo moderado pode integrar um estilo de vida saudável e prazeroso. A ciência aponta associações potencialmente benéficas, mas também deixa claro que quantidade, modo de preparo, horário de consumo e características individuais fazem diferença.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Leia Mais Sobre
IMG_2367
Autor: Pollyana Cicatelli

Jornalista especialista em Cultura, Arte e Entretenimento. Com ampla experiência em assessoria de imprensa para eventos, também compôs redações de vários veículos de comunicação. Já atuou como agente de viagens e agora se aventura no cinema como roteirista de animação. Editora e administradora do portal Gazeta Culturismo

Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.