Entenda como a inteligência artificial está mudando o turismo no Brasil

Ferramentas de inteligência artificial transformam buscas por viagens e abrem espaço para cidades menores aparecerem nas recomendações digitais

IA muda turismo e coloca destinos brasileiros em nova disputa por viajantes

A forma de planejar viagens passou por uma transformação acelerada nos últimos anos. A busca tradicional por hospedagem, atrações e roteiros perdeu espaço para ferramentas de inteligência artificial, que agora entregam itinerários completos e personalizados em poucos segundos. O tema ganhou destaque durante a terceira edição do Seminário Nacional de Regionalização do Turismo, que discutiu como cidades e regiões podem ganhar relevância nesse novo ambiente digital.

O debate mostrou que o comportamento do turista mudou de forma definitiva. Segundo dados apresentados no evento, 40% dos viajantes no mundo já utilizam IA para organizar suas férias. Outro indicador chamou atenção dos participantes: as pesquisas relacionadas à “ajuda para planejar viagem” cresceram 190%, impulsionando uma nova dinâmica para o setor turístico e alterando a maneira como destinos aparecem nas buscas online.

Durante o painel “Como ser Competitivo nas Buscas por IA no Turismo?”, o consultor de marketing Thiago Akira afirmou que o perfil do viajante atual já opera no modelo “AI-First”. Segundo ele, o turista deixou de fazer buscas genéricas e passou a solicitar roteiros detalhados diretamente às plataformas inteligentes. “O turista não entra mais na internet apenas para buscar “o que fazer” em uma cidade. Ele pede: ‘Crie um roteiro de quatro dias no circuito das águas, de Minas Gerais, para viajar com a minha família’. E a IA entrega isso praticamente pronto e hiperpersonalizado”, ilustrou Akira durante a apresentação.

O avanço dessas ferramentas também abriu oportunidades para municípios fora dos grandes centros turísticos. Dados compartilhados no seminário mostram que 36% das pessoas utilizam IA para descobrir destinos desconhecidos. Além disso, 63% das fontes exibidas nos resumos automáticos do Google não pertencem ao top 10 dos resultados orgânicos tradicionais, ampliando o espaço para cidades menores aparecerem nas recomendações digitais.

Destinos regionais ganham espaço nas buscas inteligentes

A nova lógica das buscas online favorece regiões que antes tinham pouca visibilidade nacional. Com a IA selecionando conteúdos a partir da qualidade e relevância das informações disponíveis, cidades menores passaram a disputar atenção diretamente com destinos tradicionais. O movimento acompanha a proposta da regionalização do turismo, que busca distribuir visitantes e estimular economias locais em diferentes partes do país.

A coordenadora-geral de Definição de Áreas Estratégicas do Ministério do Turismo, Ana Carla Fernandes Moura, destacou que o processo ajuda municípios com atrativos variados a entrarem nas recomendações digitais. “É promover todos os municípios, aqueles que muitas vezes não necessariamente têm uma cachoeira, ou às vezes ele não tem um grande parque, mas muitas vezes aqueles municípios que detêm oferta de serviços, de produtos, onde tem gastronomia, artesanato”, afirmou.

Especialistas alertam que, para aparecer bem nas respostas geradas por IA, os destinos precisam manter seus canais oficiais organizados e atualizados. Informações incompletas, desatualizadas ou confusas podem comprometer diretamente a forma como as plataformas apresentam uma cidade aos turistas. Nesse cenário, os sites institucionais passaram a ter papel estratégico dentro das buscas automatizadas.

Thiago Akira explicou que as ferramentas de inteligência artificial consideram esses canais como fontes confiáveis para gerar respostas aos usuários. “O que tiver lá dentro, ela vai trazer como fonte”, pontua o consultor. Em seguida, ele fez um alerta sobre os riscos de negligenciar essas plataformas. “Se ele estiver desatualizado, se ele estiver errado, se ele não estiver estruturado, ele vai trazer muito ruído para o viajante”, disse.

Redes sociais e criadores de conteúdo influenciam respostas da IA

O seminário também destacou o crescimento do chamado LLMO, sigla para otimização voltada a modelos de linguagem. A estratégia adapta conteúdos para que sistemas de inteligência artificial entendam corretamente informações sobre cidades, atrações e experiências turísticas. A prática vem sendo tratada por especialistas como uma nova etapa do SEO tradicional.

Segundo Akira, investir em conteúdo próprio se tornou uma das ações mais importantes para destinos turísticos. “É o melhor momento para se trabalhar, se buscar investir no canal oficial próprio, autoral, do próprio destino”, afirmou o consultor ao falar sobre a necessidade de produzir informações claras e estruturadas para os mecanismos de IA.

As redes sociais também passaram a ter influência direta nesse processo. Dados apresentados no evento mostram que mais de 50% dos conteúdos utilizados no treinamento de ferramentas de inteligência artificial vêm de plataformas como YouTube, TikTok e Instagram. Por isso, gestores de turismo têm orientado influenciadores a utilizarem nomes oficiais dos destinos e descrições detalhadas das atrações locais.

Além das estratégias digitais, o seminário chamou atenção para a necessidade de qualificação dos profissionais do setor. Oficinas e treinamentos passaram a integrar a preparação de gestores e trabalhadores do turismo diante das novas tecnologias. Para Ana Carla Moura, o desenvolvimento de produtos turísticos depende também da capacidade de atendimento e execução das equipes envolvidas. “Não adianta a gente só desenvolver produtos e equipamentos se a gente não treinar todos para que eles possam fazer a melhor execução e atender da melhor maneira o turista”, destacou.

Thiago Akira ainda recomendou que gestores observem o comportamento dos próprios viajantes nas buscas online. “Acho que o primeiro ponto é você se colocar no lugar do viajante”. O especialista sugeriu utilizar o Google para analisar sugestões automáticas relacionadas às regiões turísticas. “Com isso você já começa a entender como que você constrói e domina esse espaço”, finalizou.


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Autor: João Pedro Oliveira

Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.

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