Programação reúne laboratório com coletivo da Indonésia, exposição sobre mulheres catadoras e caminhada pelo trajeto de um córrego canalizado
Rios escondidos sob o asfalto, qualidade da água, reciclagem, memória, alimentação e as relações entre a cidade e o Cerrado conduzem o Festival Educação para o Presente 2026, que celebra os 10 anos do Instituto EcomAmor em Goiânia. Com o tema “Águas da cidade em movimento”, a programação será realizada entre 18 e 20 de setembro e inclui atividades no Instituto Rizzo, no Coletivo Centopeia e na Praça Augusto Fleury Curado, todas no Setor Sul.
Entre os destaques estão a participação do coletivo indonésio Labtek Apung, que comandará o Warung Lab; uma exposição construída a partir das histórias de mulheres da Cooprec; plantio de sementes do Cerrado para crianças; exibição do documentário “Carioca era um Rio”; uma cozinha compartilhada; festa de aniversário com chorinho; e uma caminhada fotográfica que tentará reencontrar na paisagem urbana o percurso do Córrego dos Buritis, hoje quase inteiramente canalizado sob a cidade.
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Criado em 2021, o Festival Educação para o Presente nasceu como uma iniciativa voltada à aproximação entre educação, cultura, arte, natureza e questões urbanas. A edição de 2026 coloca a água como ponto de partida para observar problemas que fazem parte do cotidiano das cidades, mas nem sempre permanecem visíveis na paisagem.
A proposta inclui questões ligadas aos rios que atravessam Goiânia, abastecimento, períodos de seca, enchentes, ocupação urbana e às maneiras pelas quais a população se relaciona com os cursos d’água.
“Falar sobre as águas é também falar sobre os rios que atravessam a cidade, sobre o abastecimento, as secas, as enchentes e sobre as formas como escolhemos habitar e cuidar do lugar onde vivemos”, afirma Jordana Oliveira, diretora de Relações Institucionais da EcomAmor.
Segundo ela, a discussão ganha outra dimensão diante das transformações do clima.
“Em um cenário de agravamento da crise climática, pensar as águas é pensar o presente e construir outros futuros para a cidade”, acrescenta Jordana.
O público previsto pelo Festival Educação para o Presente 2026 é amplo e inclui crianças, estudantes, educadores, lideranças comunitárias, integrantes de organizações sociais, gestores públicos, técnicos, arquitetos, urbanistas, paisagistas, produtores culturais e moradores interessados nas discussões.
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Uma das principais atividades do Festival Educação para o Presente 2026 acontece na tarde de sábado com o Warung Lab, desenvolvido em parceria com o Labtek Apung, coletivo de pesquisa transdisciplinar da Indonésia. A palavra warung está associada a pequenos espaços de encontro e troca na cultura indonésia. Dentro do festival, o conceito será utilizado para construir um laboratório comunitário sobre água, território e as relações humanas com outras espécies.
Das 15h30 às 18h30, participantes terão contato com experimentos, amostras, imagens e conversas relacionadas à qualidade ambiental das águas e aos rios urbanos como espaços de memória cultural e afetiva. A proposta se aproxima do trabalho que o Labtek Apung já desenvolve internacionalmente.
O coletivo se dedica a pesquisas que cruzam ecologia, infraestrutura, ciência, vida urbana e relações entre humanos e outras espécies. A equipe inclui a pesquisadora Novita Anggraini, que tem formação em química e ciência ambiental e trabalha com sistemas de água, resíduos e riscos à saúde pública, e Indrawan Prabaharyaka, pesquisador com experiência em estudos sobre saneamento, infraestrutura e urbanismo climático na Indonésia e na Alemanha.
Desde 2021, o grupo desenvolve pesquisas em Muara Gembong, na ilha de Java, região atingida por erosão costeira, alterações nos manguezais e transformações provocadas pela atividade humana. Entre suas metodologias estão formas participativas de observar e testar a água.
Em outra experiência promovida pelo coletivo, participantes aprenderam testes ambientais de baixa complexidade para identificar, por exemplo, níveis de salinidade associados a alterações ambientais. A ideia é que a investigação da água não fique restrita a laboratórios convencionais, envolvendo também moradores e os conhecimentos de quem convive diariamente com determinado território. Em Goiânia, o Warung Lab pretende aplicar essa lógica à relação entre pessoas, rios urbanos e crise climática.

A manhã de sábado do Festival Educação para o Presente 2026 começa com outro recorte da relação entre cidade e meio ambiente. Das 9h às 12h, o Coletivo Centopeia recebe a abertura de “Entre Elas: Retratos da Cooprec”, exposição fotográfica dedicada às mulheres que trabalham na Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis Dom Fernando, a Cooprec.
Além das imagens, haverá uma roda de conversa com as próprias trabalhadoras fotografadas. A proposta é deslocar o foco normalmente colocado sobre garrafas, papéis, plásticos e outros materiais recicláveis para as pessoas responsáveis pela separação e pela reinserção desses resíduos na cadeia produtiva.
A Cooprec possui uma trajetória que antecede em muitos anos o próprio festival. A cooperativa foi aberta em 1998 e atua em Goiânia com recuperação de materiais recicláveis. Registros públicos mostram que permanece em atividade e vinculada à estrutura local de reciclagem.
Em 2024, a cooperativa apareceu entre as organizações credenciadas pela Companhia de Urbanização de Goiânia para processamento de resíduos recicláveis recebidos pelo Programa Goiânia de Coleta Seletiva. A exposição integra um projeto da EcomAmor que aproxima mulheres catadoras e jovens lideranças em discussões sobre trabalho, gênero, justiça climática, reciclagem e direito à cidade.
A programação do Festival Educação para o Presente 2026 também reserva uma atividade específica para crianças. No sábado, das 14h30 às 15h30, o Instituto Plantadores de Água conduz uma oficina na Praça do Coletivo Centopeia.
Os participantes terão contato com diferentes sementes do Cerrado e realizarão o plantio de uma muda, que poderá ser levada para casa após a atividade. A experiência utiliza o plantio como ferramenta de educação ambiental, aproximando as crianças dos ciclos de germinação, crescimento e cuidado das espécies.
A oficina também dialoga com a própria origem da EcomAmor, que começou sua atuação justamente a partir da implantação coletiva de hortas urbanas.

O primeiro dia do Festival Educação para o Presente 2026, sexta-feira (18), começa às 18h30 no Instituto Rizzo, com a exibição de “Carioca era um Rio”, dirigido por Simplício Neto. O documentário acompanha a história do Rio Carioca, curso d’água que teve papel fundamental na formação do Rio de Janeiro.
Durante cerca de dois séculos, o rio esteve relacionado ao abastecimento da cidade e ajudou a orientar sua ocupação. Com o crescimento urbano, porém, grande parte do curso foi progressivamente escondida e transformada em um canal subterrâneo.
O filme tem aproximadamente 74 minutos e foi exibido na Première Brasil: Novos Rumos do Festival do Rio. A produção relaciona as mudanças sofridas pelo Carioca à própria história da urbanização brasileira. Depois da sessão em Goiânia, haverá um cine-debate com os arquitetos e urbanistas Bráulio Vinícius, Bráulio Romeiro e Jéssica Pinheiro.
A escolha do documentário cria uma ligação direta com outra atividade do festival. Assim como o Rio Carioca foi retirado da paisagem visível do Rio de Janeiro, Goiânia também possui cursos d’água que acabaram escondidos pelo processo de urbanização. Um deles será procurado a pé no domingo.

Às 8h de domingo, o arquiteto e urbanista Bráulio Vinícius conduz a Deriva do Bem – Percurso do Córrego dos Buritis no Festival Educação para o Presente 2026. A atividade será uma caminhada fotográfica que começa na Praça Augusto Fleury Curado, no Setor Sul, e seguirá em busca de indícios do caminho percorrido pelo curso d’água.
O córrego não desapareceu. Ele foi progressivamente retirado da superfície. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Goiás (UFG) aponta que o Córrego dos Buritis está atualmente canalizado e praticamente invisível na paisagem urbana, resultado de um processo gradual que acompanhou a expansão de Goiânia.
Segundo o estudo, o nome vem da presença histórica de buritizais nas margens do curso d’água. Hoje, seu principal trecho ainda em contato com a superfície fica no Bosque dos Buritis. Em outros pontos, ruas, edificações e infraestrutura urbana passaram a ocupar a paisagem onde anteriormente a água podia ser observada.
A caminhada do festival pretende justamente tornar esse percurso novamente perceptível. Os participantes serão convidados a fotografar marcas, paisagens, construções e elementos capazes de contar como a cidade se estabeleceu sobre o córrego e quais memórias de água ainda permanecem naquele território.
A água também chega ao festival pela comida. Às 19h de sábado, no Festival Educação para o Presente 2026 o Labtek Apung participa de uma segunda atividade no Coletivo Centopeia, a Cooking Session – Cozinha compartilhada: águas, memórias e culturas. A sessão reunirá os participantes ao redor da mesa para discutir os vínculos entre alimentação, cotidiano, ecologia e território.
Em vez de tratar a comida somente como produto final, a proposta é observar os caminhos que existem por trás dela, água utilizada na produção, plantas, ingredientes, práticas familiares, receitas, deslocamentos e memórias. A atividade também permite aproximar experiências de Goiás e da Indonésia por meio de práticas alimentares e das relações das duas regiões com água e território.
O sábado termina com a comemoração dos 10 anos da EcomAmor. A partir das 19h, a Praça do Coletivo Centopeia recebe a Festa na Praça, aberta a colaboradores, antigos voluntários, parceiros e à comunidade. A programação inclui comes e bebes, mercadinho e apresentação do Regional Taioba, grupo dedicado ao choro em Goiânia.
A formação reúne Raul Bites, na flauta transversal; Luiz Felipe Morais, no cavaquinho; Thiago Assunção, no violão; e Roberto Negrão, na percussão. Os músicos mantêm relação com a Universidade Federal de Goiás e trabalham com repertório ligado à tradição do choro.
O próprio nome do grupo faz referência à taioba, planta presente na alimentação e na cultura goiana, aproximando o conjunto da identidade vegetal do Cerrado. Os ingressos são disponibilizados pela Sympla em modalidades solidárias. Quem deseja participar gratuitamente pode selecionar o Ingresso Nascente, que não possui cobrança.

A comemoração marca uma década de uma organização que nasceu de uma iniciativa pequena e localizada. Antes da criação da EcomAmor, em 2015, integrantes do grupo organizaram o Clube dos Orgânicos, espaço criado nas redes sociais para compartilhar informações sobre alimentação orgânica e segurança alimentar em Goiás.
A primeira ação prática ocorreu em 25 de setembro de 2016. Naquele dia, foi feito um pedido para encontrar uma área ociosa onde pudesse ser implantada uma horta urbana. A primeira experiência ocorreu em uma viela do Setor Pedro Ludovico, com a participação de moradores e voluntários.
Aquele projeto foi seguido por outras três hortas públicas ainda em 2016, incluindo ações em uma escola municipal de Campinas, na Praça Universitária e no Jardim América. Nos anos seguintes, o trabalho saiu das praças e chegou a escolas públicas, centros de atenção psicossocial e ao Centro de Atendimento Socioeducativo de Goiás.
Em 2017, a EcomAmor participou do Escola Resíduo Zero, que levou ações relacionadas ao manejo de resíduos orgânicos e alimentação a dez escolas municipais. No ano seguinte, uma parceria com a organização norte-americana Growing Gardens levou a metodologia das hortas para o Centro de Atendimento Socioeducativo de Goiás (CASE).
A Secretaria de Educação de Goiás também registrou naquele período a atuação da organização com hortas escolares em Goiânia, Aparecida de Goiânia e Senador Canedo. Foi a convivência com professores, estudantes, merendeiras, servidores e famílias que provocou uma mudança mais profunda na atuação da EcomAmor.
Segundo a própria organização, a partir de 2019 ficou mais evidente que a educação socioambiental deveria ocupar uma posição permanente em seus projetos. A horta passou a ser entendida não somente como espaço de produção de alimento, mas como ferramenta para trabalhar agroecologia, alimentação, compostagem, sementes e participação comunitária.
Foi dentro dessa transformação que surgiu o Festival Educação para o Presente, realizado pela primeira vez em 2021. A edição inaugural já aproximava educação, alimentação, escola e questões socioambientais. A programação daquele ano incluiu, por exemplo, discussões sobre merenda escolar e direito à alimentação durante a pandemia.
O projeto continuou nos anos seguintes. Em 2023, na terceira edição, o tema foi “Sementes do Cerrado”, com atividades relacionadas a empreendedorismo social e soluções para desafios socioambientais do estado.
Em 2024, o festival discutiu educação ambiental no sistema socioeducativo e também marcou o lançamento de material voltado à educação socioambiental no ambiente escolar. No ano passado, quando a EcomAmor completou nove anos, a programação incluiu a exibição da série “Cerrado, Coração das Águas” e discussões sobre fortalecimento comunitário.
18h30 – Abertura e cine-debate
Exibição do filme “Carioca era um Rio”, dirigido por Simplício Neto, seguida de debate com os arquitetos e urbanistas Bráulio Vinícius, Bráulio Romeiro e Jéssica Pinheiro.
Público-alvo: interessados em geral
Local: Instituto Rizzo
Endereço: Avenida Cora Coralina, 242, Setor Sul, Goiânia
9h às 12h – Exposição “Entre Elas: Retratos da Cooprec”
Abertura da mostra com roda de conversa com as mulheres da Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis Dom Fernando, fotografadas pela EcomAmor. A exposição integra um projeto que aproxima mulheres catadoras e jovens lideranças em discussões sobre justiça climática, trabalho, gênero, reciclagem e direito à cidade.
Público-alvo: educadores, estudantes, lideranças comunitárias, organizações da sociedade civil, gestores, técnicos e interessados em geral
Local: Coletivo Centopeia
14h30 às 15h30 – Oficina de Plantio
Atividade conduzida pelo Instituto Plantadores de Água. As crianças terão contato com diferentes sementes do Cerrado e plantarão uma muda para levar para casa.
Público-alvo: crianças
Local: Praça do Coletivo Centopeia
15h30 às 18h30 – Sessão Warung Lab
Laboratório dedicado à investigação da qualidade ambiental das águas, das relações entre seres humanos e outras espécies e dos rios urbanos como espaços de memória cultural e afetiva. A atividade terá experimentos, amostras, imagens e conversas que aproximam arte, ciência cidadã e participação comunitária.
Público-alvo: crianças, educadores, estudantes, lideranças comunitárias, organizações da sociedade civil, gestores, técnicos, arquitetos, urbanistas, paisagistas, produtores culturais e interessados em geral
Local: Coletivo Centopeia
19h – Cooking Session: Cozinha compartilhada – águas, memórias e culturas
Atividade realizada em parceria com a organização indonésia Labtek Apung. A proposta é reunir os participantes em torno da mesa para discutir as relações entre cultura, cotidiano, ecologia, alimentação, memória coletiva e território.
Público-alvo: público geral
Local: Coletivo Centopeia
19h – Festa na Praça: aniversário de 10 anos da EcomAmor
A EcomAmor celebra uma década de atuação ao lado de colaboradores, parceiros, voluntários e da comunidade. A programação terá apresentação de chorinho com o Grupo Regional Taioba, além de comes e bebes e mercadinho.
Os ingressos são solidários. Para participar gratuitamente, é necessário selecionar o Ingresso Nascente, sem custo, na plataforma Sympla.
Local: Praça do Coletivo Centopeia
Endereço: Avenida Cora Coralina, 140, Setor Sul, Goiânia
8h – Deriva do Bem: Percurso do Córrego dos Buritis
O arquiteto e urbanista Bráulio Vinícius conduz uma caminhada fotográfica em busca do trajeto do Córrego dos Buritis, hoje em grande parte canalizado sob a cidade. A atividade propõe observar e registrar paisagens, marcas urbanas e histórias relacionadas ao curso d’água.
Ponto de encontro: Praça Augusto Fleury Curado
Endereço: Rua 132-C, Setor Sul, Goiânia
>> SE LIGA
Festival Educação para o Presente 2026
Quando: 18, 19 e 20 de setembro
Entrada gratuita: Sympla
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Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.
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