Freestyle, formação, maternidade, memória e troca de gerações marcaram o encontro realizado em Goiânia
Espaço Dona Rosa, no Setor Aeroporto, em Goiânia, tem sido ocupado por diversas manifestações culturais, sobretudo de atividade de mulheres negras. No final de setembro, por exemplo, recebeu um dos eventos mais potentes para a cultura hip hop: o Elas na Batalha, um encontro dedicado a fortalecer a presença feminina no freestyle e ampliar o diálogo sobre os caminhos necessários para que mais mulheres ocupem as rodas, os microfones e os espaços de decisão.
A programação reuniu oficina, debate e batalha de rima, conectando formação, troca de experiências e competição. O primeiro momento, logo pela manhã do dia 27 de setembro, foi dedicado ao aprendizado. Uma oficina de rimas, conduzida pela MC Poeta Gabriela, do Paraná, e pela goiana Kaemy, campeã de um duelo nacional e única mulher a conquistar esse título no Brasil, promoveu um intercâmbio de técnicas e experiências entre artistas de diferentes trajetórias e territórios. Digamos que foi uma “mentoria premium” para compositora e/ou aquelas que disputam batalhas de rimas no estado.

Mas, para muitas mulheres, a batalha também começa em casa. Pensando nisso, o evento trouxe para o centro uma questão concreta: para elas participarem da cultura também depende de encontrar condições para conciliar a atividade artística e o cuidado com os filhos. Por isso, uma estrutura pensada para as crianças, com monitoras, brinquedos, atividades lúdicas, arte e lanches, permitiu que mães participassem da programação enquanto as crianças permaneciam em um ambiente seguro.
A permanência destas crianças neste ambiente favoreceu inclusive as próprias artistas envolvidas. A MC Thamiris levou os dois filhos para acompanhar sua apresentação cheios de orgulho, enquanto a MC PollyoCaos participou do evento ao lado da filha, de apenas 1 ano. Crianças testemunhando suas mães nos palcos também aprendem.

Questões como esta foram levadas inclusive para uma parte importante do evento: o debate “Elas na Batalha: desafios, necessidades e caminhos para as mulheres no freestyle goiano”, que reuniu jovens rimadoras, mulheres negras ativistas e lideranças com trajetórias no movimento negro e na cultura.
Além de poetas, Mc’s, rappers, mulheres que produzem o hip hop goiano, participaram especialmente da conversa Ieda Leal, do Movimento Negro Unificado (MNU Goiás), e Sônia Cleide e Valdicelia Pedreira, do Grupo de Mulheres Negras Malunga. Taí um dos momentos mais importantes deste evento, porque o encontro colocou diferentes gerações em diálogo e abriu espaço para discutir os conflitos e desafios enfrentados dentro dos próprios movimentos culturais.

Destaco a participação de Valdicelia Pedreira, presidente do Malunga, que chamou atenção para os efeitos das desavenças entre pessoas negras sobre a capacidade de organização coletiva:
“Se eu disser não pra você, ficará de mal comigo. Mas os brancos eles ficam de mal no congresso, na vereança, mas amanhã você os vê lá novamente juntos. É uma mágoa que a gente tem entre nós, é isso que nos destrói. Temos que reaprender a não sermos desunidos.”
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A fala trouxe para a roda uma discussão que ultrapassa o freestyle: como preservar a união e a capacidade de organização diante das diferenças? Essa reflexão encontrou a prática na Seletiva Diversidade, parte da programação da Liga Goiana de MC’s, circuito competitivo das batalhas de rima de Goiás.
A competição teve a rapper Inà Avessa como mestre de cerimônias e reuniu identidades plurais que transitam ou se alinham ao espectro feminino. A vencedora foi Pierrot, artista independente, compositora e MC de batalhas de rima, de Águas Lindas de Goiás.

Esta seletiva foi outro ponto alto do Elas Na Batalha pois foi a primeira etapa da Liga Estadual realizada com essa proposta, ampliando o debate sobre presença, acolhimento, acesso e permanência de mulheres cis, trans e travestis nas competições de freestyle em Goiás.
A produção do Elas na Batalha ficou sob responsabilidade da rapper, produtora e musicoterapeuta Luz Negra, a convite da Nois Ki Tá Produções. Além de coordenar as atividades previstas, Luz Negra articulou um debate que aproximou jovens do freestyle de lideranças negras, criando um espaço de troca entre diferentes experiências e gerações.
A iniciativa integra uma trajetória de fortalecimento das produções femininas. Inclusive, esta foi a sexta batalha de rimas exclusivamente com mulheres organizada por Luz Negra.
No fim, a programação mostrou que ocupar uma roda é apenas uma parte do processo. A roda termina e a construção continua. Elas na Batalha revelou que a batalha acontece em muitas camadas. Passa pelo desafio da maternidade e pela necessidade de criar ambientes seguros para que mães possam participar e permanecer na cultura.
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Passa pela escuta ativa, capaz de acolher descontentamentos e criar pontes entre gerações — porque a juventude também precisa voltar a ouvir as mulheres mais velhas e reconhecer nelas experiências que podem ajudar a abrir novos caminhos. Passa pelo reconhecimento da potência que Goiás já produz, como demonstra Kaemy, nossa campeã nacional; e passa, ainda, pelo enfrentamento das barreiras relacionadas à identidade de gênero, mostrando o quanto as rodas de freestyle ainda precisam avançar para garantir participação, respeito e permanência de mulheres plurais.
Para além da rima, portanto, existe uma disputa por espaço, memória, cuidado, escuta, reconhecimento e pertencimento. Não apenas no que acontece quando o microfone é aberto, mas no que somos capazes de transformar quando decidimos construir uma roda onde mais mulheres possam chegar, permanecer e se reconhecer.
Este conteúdo é de total responsabilidade de seu colunista, que colabora de forma independente e voluntária com o portal Gazeta Culturismo. Portanto, a Culturismo Comunicação Ltda não se responsabiliza pelos materiais apresentados por este autor.
Mari Magalhães é jornalista, roteirista, assessora de imprensa e fotodocumentarista com mais de 10 anos de atuação na cultura goiana Seu foco está voltado para novos talentos da música urbana contemporânea, cinema e atividades da cena underground. Contato:[email protected]
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