Clássico de 1982, Blade Runner antecipou a pergunta que o capitalismo tardio insiste em evitar: qual o espaço do sentir em um sistema que mata a subjetividade?
O filme Blade Runner (1982), de Ridley Scott, é um dos principais clássicos cult de ficção científica, e segue sendo uma obra muito atual na fase de transição do capitalismo tardio que vivemos, marcada pela introdução das IAs generativas em parte esmagadora dos ambientes de trabalho.
A obra se passa em Los Angeles no ano de 2019, uma cidade cosmopolita e dominada pela tecnologia, que é praticamente onipresente. A cena de abertura mostra a cidade vista de cima, em um plano aberto e imponente, marcado pela quase total ausência de vida.
Carros voadores, prédios modernos e propaganda para todos os cantos: é nesse cenário cyberpunk que o enredo se desenvolve, numa realidade em que, semelhante à nossa, a evolução técnico-científica levada até a exaustão não foi convertida em felicidade e emancipação. Pelo contrário, essa “evolução” abre possibilidade de um esgotamento ainda maior da força de trabalho.
A cidade é comandada pela Tyrell Corporation, responsável pela criação dos Replicantes — robôs virtualmente idênticos aos humanos, criados para serem escravizados nos processos de colonização em outros planetas, com força e agilidade superiores às humanas e inteligência equivalente. Entretanto, os Replicantes se tornaram ilegais no planeta Terra após liderarem uma revolução em uma das colônias e desenvolverem autonomia.
O letreiro inicial do filme contextualiza que essa caça aos Replicantes não era chamada de “morte”, e sim de “retirada”. Rick Deckard (Harrison Ford), o protagonista, é um ex-policial caçador de andróides que é chamado de volta ao trabalho para caçar quatro Replicantes que retornaram à Terra. Ele é solitário e perdido na multidão de Los Angeles, completamente desconectado do próprio sentir e alienado do mundo ao seu redor.
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Os Replicantes caçados por Deckard levantam questões existenciais durante suas revoltas e afirmações de vida — como qual é o espaço da alma e do sentir naquela cidade. Em paralelo, a coisificação do indivíduo é tratada também pela crítica à obsolescência programada: os Replicantes têm uma deadline de quatro anos para parar de funcionar, graças a pesquisas que apontam esse como o tempo médio para que desenvolvam empatia e capacidade de sentir. Ao desenvolver essa capacidade, tornam-se inúteis e perigosos para a Tyrell — de maneira semelhante à pressão do mundo corporativo para que o indivíduo se dissocie de sua capacidade de sentir, de estar presente e de ser si mesmo. Os que ultrapassam essa barreira são “retirados”.
A promessa de que a tecnologia levaria a humanidade a se emancipar do trabalho logo se tornou uma farsa, refletida nas crises e doenças psíquicas que, cada vez mais, se provam como sintomas das pressões exercidas pelo modo de produção atual.
Essa idealização é, em grande parte, fruto de uma promessa feita pelos Futuristas — movimento artístico e literário surgido na Itália em 1909 que celebrava a evolução tecnológica a qualquer custo. Porém, ao contrário do que pregavam, esse esgotamento do uso tecnológico tornou o mundo estranho para a própria humanidade.
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Quanto mais evoluem as ferramentas que possibilitam a produtividade, mais a força de trabalho humana é demandada, a todo custo e com maior eficiência. Ilustrando essa contradição, a personagem Rachael (Sean Young) — uma Replicante que não tem consciência de ser uma — diz ao protagonista: “Eu não estou trabalhando. Eu sou o meu trabalho.” Essa cisão entre a função do trabalho e a subjetividade é construída aos poucos também em Deckard, que se mostra igualmente alienado e, conforme diversos sinais do filme, aparenta ser ele próprio um Replicante.
A alienação do policial se aprofunda quando ele se torna dissociado de sua função e acaba operando como uma máquina de matar seus iguais — seres que, apesar de seus atos violentos contra a chefia da Tyrell, só querem sentir, dar significado à vida e ter direito à memória. O personagem de maior destaque é Roy Batty (Rutger Hauer), o Replicante que comanda a revolta e que fecha tragicamente o último confronto do filme com um monólogo que afirma sua humanidade. Na prática, Deckard age de maneira alienada e afirma indiretamente os ideais da Tyrell Corporation — descartando aqueles em que a alma não se comporta e, por consequência, anulando o maior catalisador de mudanças internas e externas: o sentimento.
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Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.
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