Adaptação de Homero retoma uma velha provocação de Truffaut: a magnitude do cinema, com suas telas gigantes e sons imersivos, é capaz de condenar a guerra?
A Odisseia de Christopher Nolan, de julho deste ano, é um daqueles projetos que já chamavam atenção muito antes da exibição pelo grande escopo característico do diretor e, dessa vez, pela responsabilidade de adaptar uma das obras mais influentes da história: a Odisseia de Homero, escrita há cerca de 2776 anos.
A história acompanha Odisseu (Matt Damon) e sua tropa na tentativa de retornar a Ítaca, seu lar, após a guerra de Tróia, lidando com os abalos psicológicos que ela gerou. Em paralelo, acompanha Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu, em busca do pai e do próprio caminho para se adequar ao “arquétipo do herói”.
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Um fator que não pode deixar de ser elogiado é o elenco de altíssima qualidade que, apesar de jogar com nomes seguros comercialmente, foi em partes muito bem utilizado. Digo em partes, pois as personagens femininas são mal aproveitadas e, infelizmente, jogadas completamente para o papel secundário, como Penélope (Anne Hathaway), que existe apenas se ligada a Odisseu.
O destaque, em minha opinião, foi Sinon (Elliot Page), soldado grego não presente na obra original, mas na Eneida de Virgílio.
No filme, ao contrário da obra original, ele é um soldado inocente que, deixado para trás por Odisseu, oferece o cavalo de Troia como tratado de paz. Sinon aparece em poucas sequências, e uma delas é a que mais me marcou no longa: a ida de Odisseu a Hades. A Odisseia é uma história lotada de releituras, justamente pela gama de interpretações simbólicas possível aos eventos mitológicos da obra.
Cada contato de Odisseu com deuses e suas criaturas o força a encarar a própria condição e, como esperado de uma tragédia grega, tudo parece culminar em tragédia. Será?
Pense no inferno de Hades: é o local onde Odisseu precisa encarar todos aqueles de sua tropa que foram mortos durante a guerra de Tróia. Sinon aparece ali, em uma sequência muito bem executada, como uma “sombra” do protagonista que, por mais que negue, não foi tão virtuoso como se convence ao participar da chacina em Troia. É esse fio que forma um filme que, querendo ou não, pretende ser “antiguerra”, inclusive traçando muitos paralelos com a política imperialista norte-americana.
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O filme é, como esperado do diretor, espetacular — em sentidos positivos e negativos para o texto que ele pretende passar. A Odisseia foi o primeiro longa-metragem de ficção filmado inteiramente em IMAX, tecnologia de projeção que oferece imagens de altíssima nitidez e som imersivo.
Assisti-lo no cinema é uma experiência de “cair o queixo”, com toda força de expressão. A sonoplastia é um dos maiores destaques técnicos da obra, junto das imagens belíssimas das ilhas por onde Odisseu passa.
Entretanto, essa espetacularização, vinda da técnica e, principalmente, da direção, recuperou em mim a seguinte reflexão: é possível fazer um filme antiguerra?
O questionamento vem de uma entrevista do cineasta francês François Truffaut ao jornal americano Chicago Tribune, em 1973, e não diz respeito somente à intenção dos diretores, mas à própria técnica do cinema: telas grandes, músicas envolventes e enquadramentos selecionados acabam por glorificar e estetizar, inevitavelmente, a violência.
Eu, atualmente, discordo da afirmação levada como fato absoluto, pois já assisti filmes que, sem dúvidas, são antiguerra — Vá e Veja (1985), de Elem Klimov, a título de exemplo. Mas, diante do cinema de Nolan, essa provocação de Truffaut parece fazer todo o sentido.

Uma das cenas finais, por exemplo, mostra como ocorreu a chacina em Tróia conforme a memória do Odisseu traumatizado. Porém, é uma das sequências tecnicamente mais bonitas do filme inteiro, o que a deixa épica e, sinceramente, sem impacto real.
No máximo, a sonoplastia remete a um local caótico e desolado, e a ideia da obra perde muito de sua força e qualidade expressiva. Por fim, os conflitos são resolvidos de forma muito apressada e também épica: a volta de Odisseu a Ítaca e a catarse gerada são, infelizmente, muito mais marcantes. Como solução fácil, o filme não tem coragem de matar seu herói, característica essencial nas tragédias gregas.
O filme é muito consistente, executado com maestria técnica e com sua história muito bem contada, mas sofre com os mesmos erros de outras produções de Nolan, como Oppenheimer: o medo de arriscar e incomodar. A guerra é, inevitavelmente, um incômodo, e espetacularizar-la resulta na perda de grande parte da força expressiva da obra.
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Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.
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