O que quase ninguém conta sobre viajar para a Antártida: 5 cuidados antes de encarar a Passagem de Drake

Travessia entre a América do Sul e a Península Antártica pode exigir até dois dias de navegação em cada sentido, com risco de enjoo, mudanças no roteiro e acesso limitado a atendimento médico

viajar para a Antártida (1)

Pinguins, geleiras e enormes blocos de gelo costumam dominar as imagens de quem planeja viajar para a Antártida. Antes de chegar a esse cenário, porém, boa parte dos turistas enfrenta uma etapa menos presente nas fotografias, a Passagem de Drake, trecho marítimo entre o extremo sul da América do Sul e a região da Península Antártica conhecido pela instabilidade do mar.

A maioria dos visitantes chega à Península Antártica de navio, e o percurso pelo Drake costuma consumir entre um dia e meio e dois dias em cada sentido. Embora algumas travessias ocorram com mar relativamente tranquilo, outras encontram ventos fortes e grandes ondulações. Por isso, passageiros e tripulações costumam brincar com duas possibilidades, o “Drake Lake”, quando o oceano parece um lago, e o “Drake Shake”, quando o balanço acompanha praticamente toda a viagem.

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Por que a Passagem de Drake pode ter um mar tão agitado?

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A fama do Drake não surgiu apenas de relatos de turistas. A passagem ocupa uma faixa do Oceano Austral sem grandes barreiras continentais capazes de interromper a circulação de ventos e águas ao redor da Antártida. Nessa região também passa a Corrente Circumpolar Antártica, uma das principais correntes oceânicas do planeta, impulsionada pelos fortes ventos de oeste.

Com isso, sistemas meteorológicos conseguem percorrer grandes distâncias sobre o oceano sem encontrar obstáculos equivalentes aos continentes presentes em outras latitudes. As condições, contudo, mudam rapidamente, o que impede prever com muita antecedência se determinado grupo encontrará uma travessia tranquila ou dias de balanço intenso.

Um exemplo ganhou repercussão em março de 2025. A influenciadora de viagens Lesley Anne Murphy estava a bordo do Ocean Explorer durante o retorno da Antártida quando registrou ondas que estimou entre 30 e 40 pés, aproximadamente 9 a 12 metros. Em parte do trajeto, os passageiros receberam orientação para permanecer nas cabines.

“Imagine se você se inscrevesse para uma montanha-russa de 48 horas”, descreveu Murphy ao relatar a experiência. Apesar das imagens impressionantes, ela afirmou posteriormente que faria a viagem novamente e classificou a passagem pela Antártida como uma experiência marcante.

O episódio, no entanto, representa uma condição particularmente agitada e não o padrão obrigatório de toda viagem. Há travessias em que passageiros encontram ondulações moderadas e conseguem manter praticamente toda a rotina programada a bordo.

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1. Quem vai viajar para a Antártida deve se preparar para o enjoo

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Para quem sofre com enjoo de movimento, o Drake merece atenção antes do embarque. Náusea, vômito, tontura, suor frio e indisposição podem surgir conforme o navio começa a enfrentar ondulações maiores.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) explica que praticamente qualquer pessoa pode desenvolver cinetose diante de estímulos suficientemente intensos, embora a sensibilidade varie bastante. Quando há indicação médica de medicamentos contra enjoo, eles costumam funcionar melhor quando usados antes do início dos sintomas, e não depois que a náusea já apareceu.

Por isso, quem já apresenta histórico de enjoo em barcos, carros ou aviões deve conversar com um médico antes da viagem. O cuidado é especialmente importante porque alguns medicamentos podem causar sonolência e outros efeitos adversos, enquanto determinadas condições de saúde exigem avaliação individual.

Durante uma crise, repousar e manter a hidratação também pode ajudar. Já episódios repetidos de vômito exigem atenção, principalmente porque a pessoa ainda poderá permanecer muitas horas no mar antes da chegada a uma área com estrutura médica mais ampla.

2. Em mar agitado, até caminhar pelo navio muda

Em uma travessia tranquila, restaurantes, áreas de observação e palestras funcionam como parte da experiência. Quando o mar piora, porém, deslocamentos comuns podem exigir outro comportamento. Subir escadas, tomar banho ou atravessar um corredor enquanto o navio balança aumenta o risco de perda de equilíbrio. Dependendo da situação, a tripulação pode suspender atividades e orientar os passageiros a permanecer nas cabines.

Foi o que ocorreu durante parte da travessia registrada por Lesley Anne Murphy em 2025. O caso mostrou que o desconforto não se resume ao enjoo, objetos podem se deslocar, portas precisam permanecer protegidas e quedas se tornam uma preocupação real quando o movimento do navio aumenta.

Antes da saída, portanto, vale entender onde ficam os apoios da cabine, como guardar equipamentos e quais instruções a empresa adota em condições adversas. Durante o percurso, a recomendação da tripulação deve prevalecer sobre a vontade de circular pelo navio para observar as ondas.

3. Quem vai viajar para a Antártida deve estar preparado para mudanças no roteiro

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Quem pretende viajar para a Antártida também precisa abandonar a lógica de um roteiro completamente rígido. Ventos, gelo, visibilidade e condições do mar podem interferir em desembarques, passeios de bote e horários de navegação.

Isso ocorre porque a própria operação depende de condições seguras para aproximar pequenas embarcações da costa. Assim, um ponto previsto no itinerário pode dar lugar a outro, enquanto determinadas atividades podem sofrer atraso ou cancelamento.

A temporada turística na Península Antártica concentra-se principalmente entre meados de novembro e o início de março, quando há temperaturas relativamente mais amenas, menor cobertura de gelo em diversas áreas e mais horas de luz. Ainda assim, o verão austral não elimina as mudanças bruscas de tempo.

A flexibilidade, nesse caso, faz parte da logística. Um cruzeiro de expedição não funciona como uma viagem urbana em que museus, restaurantes e passeios operam independentemente do vento ou das condições do oceano.

4. Uma emergência médica pode significar horas ou dias até uma evacuação

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A distância também muda a maneira de pensar em saúde. A Antártida não possui uma rede convencional de hospitais, farmácias e consultórios, enquanto navios e bases têm capacidade limitada para atender situações médicas mais complexas. Em casos graves, o paciente pode precisar de evacuação para outro país.

O problema é que essa transferência depende das condições meteorológicas e da posição da embarcação. Segundo orientações britânicas para visitantes, equipes de busca e salvamento podem estar distantes e levar vários dias para chegar em condições adversas.

Por isso, viajantes devem verificar previamente a estrutura médica disponível no navio e informar condições preexistentes ao operador. É justamente nesse ponto que o planejamento precisa ir além da escolha do casaco ou da câmera fotográfica.

“Em viagens para destinos remotos, o planejamento precisa ir além da mala e do roteiro. É importante considerar as condições do trajeto, possíveis intercorrências de saúde e a estrutura disponível caso algum imprevisto aconteça durante a viagem”, afirma Cláudia Brito, sócia-diretora comercial da Coris.

Quem usa medicamentos contínuos também precisa levar quantidade compatível com toda a viagem e considerar possíveis atrasos. Afinal, uma alteração no tempo pode modificar tanto a programação no continente quanto o retorno à América do Sul.

5. Quem vai viajar para a Antártida deve conferir a cobertura do seguro

O seguro também exige uma leitura mais cuidadosa do que em viagens convencionais. Não basta, por exemplo, contratar automaticamente um produto identificado como internacional sem verificar se a Antártida aparece efetivamente na cobertura e se há previsão para evacuação médica.

Autoridades britânicas alertam especificamente para esse ponto, existem apólices classificadas como mundiais que não necessariamente cobrem operações antárticas. Já a orientação norte-americana recomenda verificar assistência para evacuação, despesas médicas e cancelamento da viagem antes do embarque.

Também é necessário conferir quais atividades entram na apólice. Passeios de caiaque, acampamento, caminhada sobre neve e outras experiências oferecidas por algumas expedições podem ter regras diferentes de um simples deslocamento a bordo do navio. Nesse caso, o viajante deve comparar o itinerário contratado com a cobertura do seguro e verificar limites, exclusões e procedimentos para acionar uma eventual remoção médica.

Nem todo mundo precisa atravessar o Drake de navio

A travessia marítima ainda faz parte de muitos roteiros, mas hoje há uma alternativa para quem prefere evitá-la. Alguns itinerários do tipo fly-cruise levam os passageiros de avião de Punta Arenas, no Chile, até a Ilha Rei George, nas Ilhas Shetland do Sul, onde eles embarcam para explorar a Península Antártica.

Para quem pretende viajar para a Antártida, o voo entre Punta Arenas, no Chile, e a Ilha Rei George leva aproximadamente duas horas, enquanto a travessia tradicional pela Passagem de Drake consome cerca de dois dias em cada direção. Esse formato reduz a exposição ao mar aberto, embora também dependa das condições meteorológicas para pouso e decolagem.

A escolha, portanto, depende do perfil do viajante. Para alguns, cruzar o Drake faz parte da experiência de alcançar o continente por mar. Para outros, principalmente aqueles com forte propensão a enjoo ou poucos dias disponíveis, voar sobre a passagem pode mudar a logística da viagem.

Chegar à Antártida também significa seguir regras que não existem em outros destinos

Para quem pretende viajar para a Antártida, os cuidados não terminam quando o navio deixa o Drake. A presença turística na região segue normas ambientais específicas porque o ecossistema antártico apresenta alta vulnerabilidade à introdução de organismos externos e à perturbação da fauna.

A Associação Internacional de Operadores de Turismo da Antártida (IAATO) exige orientações prévias aos visitantes e mantém protocolos de biossegurança. Roupas, calçados e equipamentos utilizados durante os desembarques precisam passar por procedimentos destinados a evitar a introdução de sementes, solo e outros materiais estranhos ao ambiente.

Também existem limites para os desembarques. Pelas regras adotadas pelos operadores associados à IAATO, até 100 visitantes podem permanecer em terra ao mesmo tempo em um ponto, com proporção mínima de um integrante da equipe de expedição para cada 20 turistas. Navios com mais de 500 passageiros não realizam desembarques turísticos nesses locais.

Os visitantes ainda devem respeitar distâncias da vida selvagem, evitar retirar pedras ou outros elementos naturais e seguir as orientações específicas de cada área. O Sistema do Tratado da Antártida atualizou suas diretrizes gerais para visitantes em 2025, mantendo a proteção ambiental como parte das regras para o turismo.

Turismo antártico já movimenta dezenas de milhares de visitantes por temporada

Apesar da distância e das dificuldades logísticas, o turismo na região cresceu nas últimas décadas. Na temporada 2025/2026, a IAATO registrou 85.195 viagens na categoria com desembarque, além de 27.217 visitantes em cruzeiros sem desembarque e 1.106 viajantes em operações no interior do continente.

Os números ajudam a explicar por que planejamento, controle de desembarques e protocolos ambientais passaram a ocupar uma parte relevante das expedições. Antes mesmo de pisar no gelo, o turista participa de orientações sobre comportamento, segurança e preservação.

Para quem pretende viajar para a Antártida, portanto, a Passagem de Drake é apenas uma das particularidades que precisam entrar na decisão. Saúde, flexibilidade do itinerário, estrutura do navio, seguro, regras ambientais e o tipo de transporte escolhido podem interferir tanto na experiência quanto o próprio destino.


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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