Afroturismo ganha força no Brasil com novos roteiros, políticas públicas e valorização da cultura negra

Iniciativas como o Rotas Negras e o Black Travel Summit ampliam as opções de turismo para pessoas negras, conectando viajantes à cultura e à ancestralidade afro-brasileira

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  • . atualizado em 26/08/2026 às 15:33
Afroturismo no Brasil

Com a consolidação do Programa Rotas Negras, instituído pelo governo federal em novembro de 2024, e o lançamento, em julho de 2025, do Guia do Afroturismo no Brasil – Roteiros e Experiências da Cultura Afro-Brasileira, o afroturismo vem ganhando espaço na política turística brasileira e ampliando a visibilidade de destinos, empreendedores e comunidades ligados à história, à memória, à ancestralidade e à cultura negra.

O movimento ocorre em um momento de expansão do turismo no país. Em 2025, o Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais, recorde histórico e resultado 37,1% superior ao registrado em 2024. As receitas provenientes dos visitantes estrangeiros chegaram a aproximadamente US$ 7,9 bilhões no ano.

O resultado também ultrapassou, com dois anos de antecedência, a marca de 8 milhões de visitantes internacionais que o Plano Nacional de Turismo projetava alcançar em 2027.

Nesse cenário, o afroturismo ganha relevância não apenas como segmento cultural, mas como uma estratégia associada à promoção da igualdade racial, geração de emprego e renda, desenvolvimento econômico dos territórios e valorização do patrimônio material e imaterial da população negra.

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Rotas Negras transforma afroturismo em política pública no Brasil

O Programa Rotas Negras foi oficialmente instituído pelo Decreto nº 12.277, de 29 de novembro de 2024, depois de um processo iniciado meses antes. Em fevereiro daquele ano, o Decreto nº 11.914 criou um Grupo de Trabalho Interinstitucional encarregado de elaborar a proposta.

Antes da instituição do programa, uma consulta pública realizada entre setembro e outubro de 2024 recebeu 260 contribuições, abordando temas como geração de emprego e renda, economia criativa, desenvolvimento sustentável e representatividade negra no turismo.

A iniciativa é coordenada pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) e envolve também os ministérios do Turismo (MTur), da Cultura (MinC), do Trabalho e Emprego (MTE) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Em abril de 2025, uma portaria interministerial regulamentou o Comitê Gestor responsável pela implementação, monitoramento e acompanhamento das ações.

Entre os objetivos do Rotas Negras estão fomentar o turismo relacionado à cultura negra, promover políticas de igualdade racial, estimular a geração de emprego e renda e ampliar a oferta de produtos e serviços turísticos construídos a partir das diferentes experiências da população negra brasileira.

Na prática, a iniciativa contribui para colocar no mapa turístico espaços e manifestações que nem sempre receberam o mesmo destaque nas narrativas tradicionais sobre os destinos brasileiros: territórios quilombolas, comunidades de terreiro, centros culturais, escolas de samba, sítios históricos, espaços de memória, manifestações religiosas, gastronomia, música, festas populares e empreendimentos comandados por pessoas negras.

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Guia reúne 43 experiências afrocentradas pelo país

Um dos principais desdobramentos dessa política ocorreu em 10 de julho de 2025, quando o Ministério do Turismo lançou, em Belém (PA), o Guia do Afroturismo no Brasil, elaborado em parceria com a Unesco.

O documento reúne 43 iniciativas e experiências turísticas afrocentradas, distribuídas pelas cinco regiões brasileiras.

A seleção contou com participação de afroempreendedores, comunidades tradicionais e gestores. Entre os critérios considerados no processo estavam a inserção do destino no Mapa do Turismo Brasileiro, a presença de afroempreendedores e a regularidade no Cadastur, sistema oficial de cadastro de prestadores de serviços turísticos.

A distribuição das experiências revela uma concentração maior nas regiões Nordeste e Sudeste. São 16 iniciativas no Nordeste e outras 16 no Sudeste, além de cinco no Norte, quatro no Centro-Oeste e duas no Sul.

As opções contemplam diferentes formas de viajar e conhecer a presença negra na formação do Brasil. Há experiências em quilombos e terreiros de religiões de matriz africana, museus e espaços de memória, além de caminhadas históricas, gastronomia, manifestações culturais, turismo comunitário e percursos urbanos.

Entre os exemplos apresentados pelo governo estão a Caminhada São Paulo Negra, em São Paulo; experiências na Pequena África, no Rio de Janeiro; a Rota Pantanal Negro, em Mato Grosso do Sul; e vivências no território Kalunga, em Goiás.

No Rio de Janeiro, a região da Pequena África concentra alguns dos lugares mais importantes para a compreensão da presença africana e afro-brasileira na formação da cidade, incluindo o Cais do Valongo, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco, além da Pedra do Sal e de outros espaços relacionados à memória e à cultura negra.

Em Goiás, o território Kalunga, na região da Chapada dos Veadeiros, permite combinar turismo de natureza e experiências comunitárias, aproximando visitantes da história, dos saberes, da gastronomia e do modo de vida de comunidades quilombolas.

No Pará, iniciativas como o Terreiro de Mãe Herondina e o Território Quilombola Laranjituba e África também integram o movimento de valorização das tradições afro-amazônicas por meio do turismo.

“O afroturismo é uma ferramenta potente para ampliar oportunidades econômicas e celebrar a contribuição essencial da população negra para a nossa identidade nacional. Este guia é um marco para que mais brasileiros e visitantes estrangeiros possam vivenciar, conhecer essa riqueza cultural que molda a história do nosso país”, afirmou o então ministro do Turismo, Celso Sabino, durante o lançamento do guia.

Na mesma cerimônia, Roberta Eugênio, então secretária-executiva do Ministério da Igualdade Racial e ministra em exercício da pasta, destacou a dimensão econômica e social da iniciativa.

“O afroturismo é uma estratégia concreta de combate ao racismo estrutural, pois gera renda, fortalece identidades e promove o protagonismo negro em todas as regiões do país. É sobre justiça, memória e oportunidades reais para o nosso povo”, afirmou.

Mulheres negras têm forte presença no setor

Além de identificar destinos e experiências, estudos desenvolvidos no âmbito das políticas de afroturismo ajudam a traçar um perfil de quem movimenta essa cadeia econômica no Brasil.

O Mapeamento do Ecossistema do Afroturismo no Brasil, publicado pelo Ministério do Turismo, mostrou que 66,4% dos atores mapeados no segmento são mulheres, enquanto 32,8% são homens e 0,9% se identificam como pessoas não binárias.

Em relação a raça e cor, 86,2% dos participantes se declararam pretos ou pardos.

Os dados de escolaridade também chamam atenção: 41,4% possuem ensino superior e 36,2% pós-graduação. Somados, mais de três quartos dos participantes do levantamento tinham formação superior ou pós-graduação. A faixa etária com maior participação foi a de 43 a 50 anos, com 26,7%.

Os números demonstram a forte presença de mulheres negras entre empreendedores, profissionais e agentes ligados ao desenvolvimento do afroturismo, um aspecto importante quando se considera o potencial do segmento para geração de renda e fortalecimento de pequenos negócios.

Esse potencial também está relacionado à própria composição demográfica brasileira. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 55,5% da população brasileira se declarou preta ou parda, o equivalente a mais de 112 milhões de pessoas.

Apesar dessa presença majoritária na população, diagnósticos utilizados pelo governo federal na construção do Rotas Negras apontam desafios relacionados à representatividade e à participação da população negra em diferentes dimensões da cadeia turística.

Há, portanto, espaço significativo para expansão do segmento.

Pesquisa nacional sobre tendências de viagens divulgada pelo Ministério do Turismo mostrou que o turismo cultural e histórico aparece entre as modalidades de maior interesse dos brasileiros, mencionado por 27% dos entrevistados entre até três preferências, enquanto o afroturismo, apresentado separadamente na pesquisa, foi mencionado por 3%.

Os números mostram, ao mesmo tempo, o potencial de conexão do afroturismo com um mercado cultural mais amplo e o espaço existente para tornar o segmento mais conhecido entre os viajantes.

Black Travel Summit colocou o Brasil no circuito internacional

A promoção do afroturismo brasileiro também ganhou dimensão internacional com a realização do Black Travel Summit 2025, entre 13 e 16 de novembro de 2025, no Rio de Janeiro.

Foi a primeira edição do evento realizada na América do Sul, com apoio e participação da Embratur.

O encontro reuniu aproximadamente 300 participantes, entre profissionais do turismo, empreendedores, criadores de conteúdo, lideranças e representantes do mercado. Houve participantes de países como Estados Unidos, Brasil, Argentina, Colômbia, Reino Unido e Benim.

A programação incluiu painéis, palestras, atividades de networking, apresentações de negócios, experiências culturais e o Black Travel Awards Gala, ampliando as discussões sobre representatividade, diversidade e participação dos viajantes negros na indústria global de turismo.

A escolha do Rio de Janeiro teve também uma dimensão histórica. Além de ser um dos principais destinos turísticos brasileiros, a cidade abriga patrimônios fundamentais para a compreensão da diáspora africana nas Américas, especialmente na região da Pequena África.

A Embratur vem incorporando experiências relacionadas ao afroturismo às suas estratégias de promoção internacional, incluindo vivências que combinam patrimônio histórico, gastronomia, cultura e memória afro-brasileira.

“O afroturismo é uma das prioridades da nossa gestão e temos conseguido avançar, nos últimos dois anos, em diversas frentes para ampliar a visibilidade e o desenvolvimento do segmento no Brasil”, afirmou o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, ao abordar as ações voltadas ao segmento.

A realização do Black Travel Summit reforçou, assim, a estratégia de posicionar o Brasil no mercado internacional de viagens relacionadas à diáspora africana, à diversidade e às experiências culturais.

Rotas Negras avança com prêmio e novas políticas

Os avanços não se limitaram à promoção dos destinos.

Em novembro de 2025, representantes do governo e da sociedade civil tomaram posse no Comitê Gestor do Programa Rotas Negras, fortalecendo a estrutura de governança da política.

Outro passo foi a criação do 1º Prêmio Rotas Negras, promovido pelo Ministério da Igualdade Racial em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

A iniciativa prevê o reconhecimento de 50 projetos e iniciativas de afroturismo, contemplando organizações da sociedade civil e entes públicos. O investimento total anunciado é de R$ 1,62 milhão, com premiações entre R$ 15 mil e R$ 70 mil, de acordo com a categoria.

Entre as práticas contempladas estão iniciativas relacionadas à cultura, gastronomia, música e memória afro-brasileira, incluindo experiências realizadas em territórios urbanos, rurais e quilombolas, terreiros e clubes sociais negros.

Em 2026, o Ministério do Turismo também publicou a 13ª edição do Boletim de Inteligência de Mercado no Turismo, dedicada especificamente ao afroturismo.

O levantamento aborda experiências existentes no país e temas como caminhadas históricas, turismo urbano, comunidades quilombolas, espiritualidade, gastronomia, perfil da demanda, desafios estruturais e oportunidades de expansão.

Outra mudança ocorreu no Cadastur. Em 2026, o sistema passou a incluir campos de declaração de raça/etnia e gênero, ampliando a possibilidade de produção de dados sobre o perfil dos prestadores de serviços turísticos brasileiros e fornecendo informações que podem auxiliar a formulação de políticas públicas para o setor.

Afroturismo também significa geração de renda

Mais do que acrescentar novos destinos ao catálogo turístico brasileiro, a expansão do afroturismo coloca em discussão quem conta a história dos lugares visitados e quem se beneficia economicamente da atividade turística.

Uma caminhada conduzida pela Pequena África, uma visita organizada por moradores de uma comunidade quilombola ou uma experiência gastronômica comandada por afroempreendedores não representam apenas novos produtos turísticos. São formas de colocar comunidades historicamente invisibilizadas no centro das narrativas sobre os territórios e também da cadeia econômica criada pelas viagens.

Esse protagonismo é um dos elementos centrais do afroturismo. Moradores, guias, cozinheiras, artesãos, artistas, produtores culturais e pequenos empresários podem assumir o papel de intérpretes de seus próprios territórios, transmitir conhecimentos e participar diretamente da renda movimentada pelos visitantes.

A dimensão econômica, nesse sentido, está ligada à preservação cultural. Quando estruturado de maneira responsável e com protagonismo local, o turismo pode contribuir para financiar atividades e manter conhecimentos, tradições e práticas transmitidas entre gerações.

Ao mesmo tempo, o crescimento do segmento exige cuidados.

Experiências realizadas em terreiros, quilombos e outros territórios tradicionais não devem ser tratadas como atrações turísticas convencionais. Respeitar as regras estabelecidas pelas próprias comunidades, pedir autorização antes de fotografar pessoas ou cerimônias, compreender os limites entre espaços públicos, privados e sagrados e priorizar serviços conduzidos por moradores e empreendedores locais são práticas fundamentais.

Uma nova maneira de conhecer destinos tradicionais

Uma das características mais marcantes do afroturismo brasileiro é que sua expansão não depende necessariamente da descoberta de novos destinos. Muitas vezes, o que muda é a maneira de contar e compreender a história de lugares que já recebem milhões de visitantes.

Salvador, por exemplo, pode ser compreendida não apenas pelas praias e pelo conjunto arquitetônico do Pelourinho, mas também pelas tradições religiosas, gastronômicas, musicais e políticas construídas pela população negra.

O Rio de Janeiro ganha outra dimensão quando o visitante percorre o Cais do Valongo e a Pequena África e compreende a importância da população africana e afro-brasileira para a formação econômica, social e cultural da cidade.

São Paulo também pode ser redescoberta por caminhadas que recuperam personagens, acontecimentos e espaços relacionados à história negra da maior metrópole brasileira.

Fora dos grandes centros urbanos, comunidades quilombolas permitem aproximar turismo de natureza, gastronomia, agricultura familiar, memória e modos tradicionais de vida.

Essa diversidade ajuda a explicar por que o afroturismo atravessa diferentes segmentos ao mesmo tempo: uma mesma experiência pode envolver turismo histórico, cultural, religioso, gastronômico, rural, comunitário, urbano ou de natureza.

Com a institucionalização do Rotas Negras, o lançamento do guia nacional, a criação de instrumentos de reconhecimento e financiamento e a promoção internacional das experiências brasileiras, o segmento entrou em uma nova etapa.

O desafio agora é transformar a crescente visibilidade em fluxo turístico responsável e renda permanente para os territórios, sem descaracterizar manifestações culturais ou transformar espaços sagrados e comunidades tradicionais em produtos desconectados de seus próprios protagonistas.

Nesse sentido, o afroturismo oferece mais do que novos lugares para visitar. Ele propõe novas formas de compreender lugares que brasileiros e estrangeiros acreditavam já conhecer.

Em um país no qual 55,5% da população se declara preta ou parda e cuja formação histórica, cultural, religiosa, musical, gastronômica e econômica é inseparável da presença africana e afro-brasileira, viajar por essas rotas é também uma forma de redescobrir o Brasil.


Luanna Mendes
Autor: Luanna Mendes

Apaixonada por jornalismo musical, ambiental e político, tem interesse por diferentes culturas e idiomas. Além da redação, é também fascinada por fotografia e pelo universo do entretenimento da Coreia do Sul. Com pautas focadas no mundo da arte, do entretenimento e da cultura pop asiática, busca trazer leveza ao caos do dia a dia, além de promover o acesso à informação e gerar oportunidades para todos.

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