Projetos brasileiros conquistaram três ouros, duas pratas e um destaque especial em uma das principais premiações de turismo responsável da América Latina.
O Brasil foi o país com maior número de iniciativas premiadas durante o ICRT Latin America Responsible Tourism Awards 2026, realizado nesta segunda-feira (8), durante a LATA Expo, em Cotswolds, na Inglaterra. Ao todo, projetos brasileiros receberam seis reconhecimentos internacionais, incluindo três medalhas de ouro, duas de prata e um prêmio especial, resultado que amplia a visibilidade do país no cenário global do turismo sustentável, regenerativo e inclusivo.
A premiação, promovida pela Latin American Travel Association (LATA) em parceria com o International Centre for Responsible Tourism (ICRT), destaca iniciativas que utilizam o turismo como instrumento de preservação ambiental, inclusão social, geração de renda e valorização cultural. Os vencedores brasileiros atuam em diferentes regiões do país e apresentam modelos que associam atividade turística à proteção de ecossistemas e ao desenvolvimento das comunidades locais.
Os resultados colocam o Brasil em evidência em um momento em que o turismo sustentável ganha relevância mundial. O segmento tem sido apontado por organismos internacionais como uma ferramenta capaz de equilibrar crescimento econômico, conservação ambiental e bem-estar social.
A participação brasileira também reflete um esforço recente de qualificação do setor. Em 2024, a Embratur e a LATA lançaram um programa voltado à capacitação de empresas brasileiras em práticas de sustentabilidade, governança e turismo comunitário. A iniciativa buscou aproximar operadores nacionais de metodologias reconhecidas internacionalmente.
Segundo especialistas do setor, o reconhecimento internacional tende a fortalecer a imagem do Brasil junto a mercados emissores de turistas que valorizam experiências ligadas à conservação da natureza, ao turismo de base comunitária e à inclusão social.
Entre os destaques da edição de 2026 estão três iniciativas que receberam a maior premiação em suas categorias.
A Associação Onçafari conquistou o primeiro lugar na categoria voltada ao turismo positivo para a natureza. O projeto desenvolve atividades de observação de fauna, principalmente no Pantanal, utilizando o turismo como ferramenta para conservação da biodiversidade.
O trabalho inclui monitoramento de espécies, pesquisa científica, manejo do fogo e proteção de habitats naturais. A iniciativa ficou conhecida internacionalmente pelos programas de observação de onças-pintadas e lobos-guará em ambiente natural.
A Sama Sama International recebeu o prêmio máximo na categoria de diversidade cultural pelo projeto TransHistorias Brasília, desenvolvido em parceria com a Casa Rosa.
A proposta cria oportunidades de trabalho para mulheres trans no setor turístico e oferece aos visitantes experiências conduzidas por pessoas que compartilham suas trajetórias e perspectivas sobre a cidade. O modelo foi destacado pelos jurados por promover inclusão e ampliar a representatividade em atividades turísticas.
A rede Céu de Montanhas, localizada em Brumadinho, Minas Gerais, venceu na categoria de benefício econômico local.
Criada após o rompimento da barragem ocorrido em 2019, a iniciativa reúne produtores rurais, artesãos e famílias da região em uma rede de turismo comunitário. Atualmente, o projeto apoia 38 empreendimentos e 32 experiências turísticas, tendo movimentado mais de US$ 1 milhão em 2025 e gerado 148 empregos, dos quais 75% são liderados por mulheres.
O Brasil também garantiu destaque em outras categorias importantes da premiação.
A Biofábrica de Corais conquistou prata em turismo regenerativo. O projeto atua na recuperação de recifes de corais e integra visitantes em atividades de educação ambiental e restauração marinha. Até o momento, a iniciativa já implantou mais de 7 mil corais e contou com a participação de aproximadamente 400 voluntários.
Já o projeto Turistea Turismo Inclusivo recebeu prata na categoria de diversidade, equidade e inclusão. Desenvolvido pela Teamarr em parceria com a Assembleia Legislativa de Roraima, o programa oferece experiências adaptadas para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e seus familiares.
Os números mostram a dimensão da iniciativa: mais de 130 profissionais capacitados e cerca de 200 crianças beneficiadas diretamente pelas ações de acessibilidade turística.
Além das medalhas, o projeto Amazon Emotions recebeu o reconhecimento especial “One to Watch”, concedido a iniciativas consideradas promissoras e inovadoras.
A proposta conecta experiências turísticas à pesquisa científica sobre biodiversidade na Amazônia. O trabalho utiliza armadilhas fotográficas, coleta de dados em campo e ações de ciência cidadã para ampliar o conhecimento sobre a fauna da floresta.
A iniciativa foi destacada pelo potencial de integrar visitantes aos esforços de monitoramento ambiental, contribuindo para a conservação da Amazônia e para a produção de informações científicas.
O presidente da Embratur, Bruno Reis, avaliou que os resultados refletem uma estratégia de longo prazo para posicionar o Brasil como destino associado à sustentabilidade.
“A conquista desses prêmios situa o Brasil como uma referência. Quando iniciamos a parceria-piloto com a LATA para a capacitação em sustentabilidade, em 2024, nosso objetivo era exatamente este: dar ferramentas para o trade brasileiro transformar potencial natural em responsabilidade técnica e governança.”
Segundo ele, as ações também foram incorporadas ao Plano Brasis, estratégia internacional de promoção turística para o período de 2025 a 2027.
O fundador do ICRT e presidente do júri, Harold Goodwin, destacou a aplicação prática das iniciativas vencedoras.
“Os vencedores deste ano mostram que soluções práticas e escaláveis já existem em toda a América Latina, desde a conservação da vida selvagem até a ampliação da inclusão. Eles nos lembram que o turismo responsável não é uma aspiração; ele está sendo praticado na realidade todos os dias.”
Já o presidente da LATA, Martin Johnson, ressaltou os resultados da cooperação entre a entidade e destinos turísticos latino-americanos.
“Após o sucesso do Programa de Viagens Sustentáveis da LATA, introduzido para os membros em 2022, a LATA está encantada em ver como a cooperação técnica com destinos como o Brasil tem impulsionado mudanças significativas e reais na região.”
O crescimento do turismo sustentável no Brasil acompanha uma tendência global. Nos últimos anos, viajantes passaram a buscar experiências ligadas à natureza, à cultura local e a práticas ambientalmente responsáveis.
O país possui vantagens competitivas importantes nesse cenário. Segundo dados do Ministério do Turismo e da Embratur, o Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta, além de ecossistemas como Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pampas.
Nos últimos anos, programas voltados ao turismo de base comunitária, ao ecoturismo e à inclusão social passaram a ganhar espaço nas políticas públicas e na estratégia de promoção internacional do país.
O reconhecimento obtido na Inglaterra ocorre em um momento de crescimento do fluxo turístico proveniente do Reino Unido. Em 2025, o Brasil recebeu 187.396 turistas britânicos, alta de 21,8% em relação ao período anterior. Entre janeiro e abril de 2026, o número chegou a 86.964 visitantes, colocando o Reino Unido entre os principais mercados emissores de turistas para o país.
As três iniciativas que conquistaram medalha de ouro avançam para a etapa mundial do Global Responsible Tourism Awards, considerada uma das mais relevantes premiações do setor.
A cerimônia global está marcada para 2 de novembro, em Londres, e reunirá vencedores de diferentes regiões do mundo, incluindo Europa, África, Sudeste Asiático, América Latina e subcontinente indiano.
Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.
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