Cachaça de Goiás busca valor em origem, turismo e novos mercados

Boletim do Sebrae Goiás aponta oito tendências para pequenos produtores e destaca formalização, exportação de nicho e Indicação Geográfica

Cachaça de Goiás busca valor em origem, turismo e novos mercados

A cachaça de Goiás encontra oportunidades de crescimento na valorização da origem, na produção premium, no turismo de experiência e na abertura de mercados internacionais. Lançado em setembro pela Unidade de Gestão Estratégica (UGE) do Sebrae Goiás, o Boletim de Tendências – Cachaçarias reúne oito movimentos que podem ampliar mercado e renda para pequenos produtores do estado.

O cenário parte de uma cadeia sucroenergética expressiva, mas de um segmento formal de cachaça ainda restrito. Goiás possui 49 estabelecimentos registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e aproximadamente 230 pessoas empregadas, conforme dados da Rais/Caged de 2025.

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Produção de cachaça disputa espaço com açúcar, etanol e energia

A destinação predominante da cana-de-açúcar produzida em Goiás ajuda a explicar o tamanho do segmento de cachaça. Segundo a analista da UGE Polyanna Marques Cardoso, responsável pelo estudo, grande parte da matéria-prima está ligada a outras atividades.

“A cana-de-açúcar em Goiás é fortemente direcionada para a produção de açúcar, etanol e energia, atividades de grande escala e elevada produtividade, enquanto a cachaça depende de alambiques, mão de obra especializada, construção de marca e comercialização diferenciada”, avalia.

O boletim foi elaborado tanto para empreendedores que já mantêm cachaçarias quanto para quem pretende ingressar na atividade. Entre os obstáculos identificados está a informalidade, apontada como o principal desafio da cadeia por restringir o acesso a mercados, crédito, certificações e canais de distribuição.

Não existe levantamento sobre o número de produtores sem registro no estado. O gerente da UGE, Francisco Lima, afirma, porém, que a quantidade de empreendimentos em atividade supera os registros oficiais.

“Há muito mais cachaçarias instaladas em Goiás do que as 49 registradas no Mapa. Então, o primeiro alerta que o próprio boletim trouxe foi a importância da sensibilização desses produtores para se profissionalizar. O ambiente de mercado precisa ser mais regular”, avalia.

>> Leia também: Sebrae Goiás lança boletim sobre cachaçarias e aponta tendências do setor

Formalização amplia possibilidades de comercialização

Como a cachaça está submetida à legislação de alimentos, sua produção e comercialização exigem o registro do estabelecimento e de cada produto no Mapa, além de rotulagem e identificação em conformidade. A ausência dessas exigências expõe o produtor a autuações, apreensão de mercadorias e prejuízos à reputação, além da perda de negócios.

Para Polyanna Marques Cardoso, a regularização também interfere na maneira como uma cachaçaria consegue posicionar seus produtos no mercado.

“A informalidade impede a cachaçaria de migrar de uma lógica de venda baseada em preço para uma lógica de venda baseada em valor. Enquanto uma cachaça informal compete principalmente pelo preço local, uma cachaça formalizada pode competir por origem, qualidade, experiência, turismo, premiações e exportação, o que possibilita margens muito maiores”, resume Polyanna.

Essa mudança aparece nas oito tendências reunidas pelo boletim: cachaça como bebida versátil, original e premium; integração entre gastronomia, turismo e cachaça; reputação apoiada por prêmios e certificações; uso de madeiras brasileiras nativas como assinatura sensorial; exportação de nicho e internacionalização; bebidas prontas para consumo (RTD); inteligência de dados e inteligência artificial no relacionamento com clientes; e Indicação Geográfica (IG) como ativo coletivo do território.

Indicação Geográfica de Orizona amplia possibilidades para produtores

Entre os movimentos analisados está a Indicação de Procedência da Cachaça de Orizona, que colocou Goiás entre os territórios brasileiros reconhecidos pela produção da bebida.

Em 2026, o Brasil soma nove Indicações Geográficas relacionadas à cachaça. Sete são Indicações de Procedência: Região de Salinas (MG), Microrregião Abaíra (BA), Morretes (PR), Viçosa do Ceará (CE), Areia (PB), Orizona (GO) e Circuito das Águas Paulista (SP). Outras duas são Denominações de Origem: Paraty (RJ) e Luiz Alves (SC).

A IG não se limita à identificação da procedência do produto. O instrumento também organiza produtores, preserva saberes tradicionais e fortalece a reputação coletiva, permitindo iniciativas integradas de promoção, comercialização e turismo de experiência.

Outros territórios citados pelo boletim mostram diferentes possibilidades associadas ao reconhecimento. Em Areia, a cachaça está ligada a eventos e geração de negócios. Em Morretes, produtores com IG já participam do mercado internacional. Paraty, por sua vez, foi o primeiro destilado brasileiro a obter uma Denominação de Origem.

Acordo com União Europeia cria oportunidade para cachaça brasileira

O Acordo de Parceria Estratégica entre Mercosul e União Europeia, em aplicação no Brasil desde maio de 2026, acrescenta uma nova perspectiva ao setor. O acordo reconhece e protege a denominação “Cachaça” como produto genuinamente brasileiro no mercado europeu.

Também está prevista a eliminação gradual, em quatro anos, da tarifa de importação aplicada à bebida engarrafada em recipientes de até dois litros, atualmente em torno de 8%.

Para Polyanna, a mudança pode ter efeito particular sobre os produtores de Orizona.

“Essa é uma oportunidade especialmente relevante para Orizona, cuja Indicação de Procedência pode funcionar como um passaporte para mercados que valorizam tanto a história quanto a qualidade do produto”, avalia Polyanna.

Brasil exportou 7,95 milhões de litros de cachaça em 2025

Os dados nacionais apresentados no Anuário da Cachaça 2026, do Mapa, dimensionam o espaço disponível no mercado externo. Em 2025, o país contabilizou 1.538 estabelecimentos elaboradores em 844 municípios, com 8.379 produtos registrados.

A produção brasileira chegou a 234,4 milhões de litros, enquanto as exportações somaram 7,95 milhões de litros para 76 destinos, com receita de US$ 17,07 milhões. O volume enviado ao exterior correspondeu a cerca de 3,4% da produção.

A participação internacional reduzida resulta de diferentes fatores apresentados no material. O mercado interno absorve parcela significativa da produção, permitindo que produtores operem sem enfrentar as exigências da exportação. Em diversos mercados, a cachaça também possui reconhecimento limitado como destilado premium diante de bebidas como whisky, tequila e rum.

Há ainda dificuldades relacionadas à documentação, regulamentação, estratégia comercial e logística. Para pequenos produtores, somam-se desafios de escala, padronização e capacidade de manter o atendimento contínuo à demanda.

Exportação de nicho é alternativa para pequenos produtores

A estratégia apresentada pelo boletim para as cachaçarias de menor porte não está baseada na disputa por grandes volumes. A proposta é alcançar nichos interessados em bebidas artesanais, produtos com origem definida e produção limitada.

Feiras, rodadas de negócios e importadores especializados em bebidas premium aparecem como possíveis caminhos para chegar a esses mercados.

“O acordo com a União Europeia amplia oportunidades para novos produtores, desde que estejam atentos às regulamentações e participem de feiras e eventos internacionais”, pontua Francisco Lima.

Segundo o boletim, a atuação internacional também pode beneficiar a imagem e a credibilidade da marca dentro do mercado brasileiro.

Além dos dados sobre o setor, o documento reúne orientações para pequenos negócios ampliarem sua capacidade competitiva. Entre elas estão digitalização, networking, marketing com storytelling, integração entre gastronomia, turismo e cachaça e diversificação do portfólio.


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Autor: João Pedro Oliveira

Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.

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