Experimento identificou redução da neuroinflamação e preservação de neurônios do hipocampo, mas pesquisadores alertam que os resultados ainda não foram comprovados em humanos
Conhecida principalmente pelo uso na musculação, a creatina apresentou um possível efeito protetor sobre o cérebro em um experimento com colite crônica. O estudo sobre creatina e inflamação intestinal mostrou menor ativação de células ligadas à neuroinflamação e preservação de características dos neurônios do hipocampo em animais que consumiram o suplemento. Pesquisadores da Universidade de Sevilha conduziram o trabalho com ratos machos e fêmeas.
Os resultados também revelaram diferenças entre os sexos. Enquanto os machos desenvolveram danos estruturais e alterações elétricas mais intensas no hipocampo, as fêmeas mantiveram maior integridade neuronal. Por isso, a equipe analisou não apenas a ação do suplemento, mas também a forma como cada grupo respondeu à inflamação intestinal.
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Os pesquisadores dividiram ratos jovens em quatro grupos. Um grupo permaneceu saudável, outro recebeu creatina sem desenvolver colite, enquanto os demais enfrentaram a inflamação intestinal com ou sem suplementação. Dessa maneira, a equipe conseguiu comparar separadamente os efeitos da doença e do suplemento.
Para provocar a colite, os cientistas adicionaram sulfato de dextrano de sódio à água dos animais durante três ciclos, separados por intervalos de recuperação. Já a suplementação começou dez dias antes da primeira exposição à substância e continuou até o fim do experimento. A dose utilizada chegou a 1 grama de creatina por quilo de peso corporal ao dia.
Depois, a equipe examinou diferentes aspectos do hipocampo. Primeiro, mediu proteínas e moléculas envolvidas na resposta inflamatória. Em seguida, avaliou a quantidade e a estrutura dos neurônios e registrou como essas células reagiam a estímulos elétricos.
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A inflamação intestinal provocou uma redução na quantidade de creatina presente naturalmente no hipocampo. Ao mesmo tempo, a colite aumentou a atividade das micróglias, células do sistema nervoso que participam da resposta imunológica, e elevou marcadores relacionados à inflamação cerebral.
Nos machos, porém, os efeitos avançaram para a estrutura celular. Os pesquisadores encontraram redução de proteínas importantes para os neurônios e menor quantidade de células na região CA1 do hipocampo. Já as fêmeas apresentaram alterações inflamatórias, mas preservaram melhor a estrutura neuronal.
A atividade elétrica também mudou nos machos. Nesse grupo, os neurônios precisaram de aproximadamente 60% mais corrente para gerar um sinal, indicando menor excitabilidade. Enquanto isso, os cientistas não encontraram uma alteração equivalente nas fêmeas, embora tenham identificado mudanças em componentes celulares específicos.
A suplementação modificou parte desse cenário. Nos animais com colite que consumiram creatina, a concentração do composto no hipocampo ficou aproximadamente 20% a 30% maior do que entre os ratos doentes sem suplementação. Assim, os valores se aproximaram daqueles encontrados nos grupos saudáveis.
A creatina também reduziu a resposta das micróglias e conteve marcadores associados à neuroinflamação nos dois sexos. Nos machos, por sua vez, o suplemento ajudou a preservar características estruturais dos neurônios e evitou parte das alterações elétricas encontradas no grupo com colite.
No entanto, os resultados mais visíveis entre os machos não significam que a creatina tenha necessariamente maior efeito nesse sexo. Como eles sofreram alterações mais intensas durante a doença, os pesquisadores também tinham um conjunto maior de danos para comparar após a suplementação.

O trabalho integra uma área de pesquisa dedicada ao chamado eixo intestino-cérebro. Esse sistema reúne comunicações nervosas, imunológicas e metabólicas entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso. Portanto, uma inflamação persistente no intestino pode produzir sinais capazes de influenciar outras partes do organismo.
O hipocampo interessa especialmente aos pesquisadores porque participa de funções relacionadas à memória e ao aprendizado. Além disso, alterações nessa região podem interferir em diferentes processos cognitivos e comportamentais. O novo experimento concentrou a análise nas próprias células, permitindo observar mudanças estruturais e elétricas associadas à colite.
Nesse contexto, a relação entre creatina e inflamação intestinal chamou atenção porque o organismo já utiliza naturalmente a creatina no metabolismo energético. As células recorrem ao composto para recompor energia rapidamente quando enfrentam maior demanda. Por isso, uma das hipóteses é que essa reserva ajude os neurônios durante situações de estresse inflamatório.
Apesar dos efeitos observados, o desenho do experimento impõe limites importantes. A equipe começou a oferecer creatina antes de provocar a colite, portanto os dados mostram um possível efeito preventivo nas condições testadas. O trabalho não avaliou se iniciar a suplementação depois do desenvolvimento da doença conseguiria produzir o mesmo resultado.
Outro limite está no tamanho das análises específicas. Os pesquisadores utilizaram entre cinco e sete animais de cada grupo em determinados testes moleculares e elétricos. Além disso, eles mediram alterações celulares no hipocampo, mas não verificaram diretamente se essas mudanças produziram melhora de memória ou de outras funções cognitivas.
Por outro lado, o experimento ajuda a direcionar as próximas etapas da investigação. Estudos futuros poderão iniciar a suplementação após o surgimento da inflamação e incluir avaliações de comportamento e memória. Só depois disso fará sentido avançar para perguntas mais amplas sobre possíveis aplicações clínicas.
O organismo humano produz creatina naturalmente, enquanto alimentos como carnes e peixes também fornecem parte do composto. No esporte, o suplemento ganhou espaço principalmente porque aumenta a disponibilidade rápida de energia durante exercícios de alta intensidade e curta duração.
Nos últimos anos, porém, pesquisadores passaram a investigar sua atuação fora dos músculos. Alguns estudos clínicos encontraram possíveis benefícios em aspectos específicos da memória e da atenção, enquanto outros apresentaram resultados menos consistentes. Portanto, a literatura científica ainda não sustenta a ideia de que a suplementação melhore de maneira geral a função cerebral de qualquer pessoa.
Essa diferença é importante porque os mecanismos envolvidos em desempenho esportivo, cognição e inflamação não são necessariamente os mesmos. Assim, resultados encontrados em uma área não podem ser automaticamente transferidos para outra.

Os cientistas ainda precisam descobrir onde começa a proteção registrada no experimento. A creatina pode agir primeiro no intestino e reduzir os sinais inflamatórios que chegam ao cérebro. Por outro lado, também existe a possibilidade de o composto atuar diretamente no metabolismo dos neurônios.
Outra questão envolve as diferenças encontradas entre machos e fêmeas. Estudos futuros precisarão investigar fatores hormonais, metabólicos e imunológicos que possam explicar respostas distintas à colite. Ao mesmo tempo, experimentos maiores poderão testar se o padrão permanece em outras condições.
Por enquanto, a pesquisa sobre creatina e inflamação intestinal acrescenta uma nova pista ao estudo do eixo intestino-cérebro. Os dados ajudam a compreender como um suplemento já conhecido pode interferir em processos celulares durante uma inflamação crônica, mas não justificam o uso de creatina como tratamento para doenças inflamatórias intestinais.
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Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.
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