Do melodrama às passarelas: a influência da cultura camp nos filmes de Almodóvar

No exagero e na teatralidade do camp, Almodóvar encontrou a linguagem mais honesta para falar sobre dor, desejo e identidade

Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988). (Foto ReproduçãoAlamy)

O diretor espanhol Pedro Almodóvar é, sem dúvidas, um dos cineastas do cinema contemporâneo mais cultuados por seu estilo cinematográfico único, lotado de autoria e personalidade.

Almodóvar nasceu em 1949 em Calzada de Calatrava, na Espanha, e viveu parte de sua vida durante a ditadura fascista de Francisco Franco, que durou de 1939, após a vitória franquista na Guerra Civil Espanhola, até 1975, com a morte do ditador.

Com a queda do franquismo, em meados da década de 1970, surgiu em Madrid o movimento de contracultura Movida Madrilenha. O movimento não demorou muito para ganhar extensão em todo o país, e chegou até mesmo a ganhar um novo nome: Movida Espanhola.

Durante quase quatro décadas da ditadura o regime impôs repressão moral, política e artística severa, usando da censura e conservadorismo para reprimir a população.

E justamente esses ideais culturais que a Movida buscava subverter, concentrando uma geração de jovens artistas que buscava usar de combustível tudo aquilo que antes era reprimido: movimentos LGBTQIAP+, punk, movimentos hardcore, sexo e drogas.

O movimento não era partidário e político explicitamente, mas sim uma explosão de experiências e prazeres e visibilidade pela juventude espanhola, que considerava o ato de ser visto um ato político. Existir de forma exagerada já era o suficiente em uma sociedade que era marcada estruturalmente pelo conservadorismo.

Quando Almodóvar começou sua carreira, o diretor foi influenciado essencialmente pela Movida. O jovem Almodóvar é, sem dúvidas, o artista mais icônico do movimento, que buscou captar a essência dessa contracultura, chocando e contestando o que estava posto.

Um movimento com influências da cultura Camp

A Movida Madrilenha foi um movimento que buscou referências de outras culturas, sendo a principal delas a cultura camp, marcada pelo exagero, teatralidade e busca pela ironia, características essenciais no cinema de Almodóvar.

Historicamente o termo camp se popularizou na década de 1960 pela comunidade LGBTQIAP+, servindo como uma maneira de se expressar e subverter os papéis sociais rígidos. O marco definitivo do termo foi a publicação do ensaio Notes on Camp (1964), da filósofa estadunidense Susan Sontag.

A partir do ensaio, que não define exatamente o camp, e sim lista 58 características que fazem ela ser o que é, a cultura passou a ser debatida como uma teoria estética, marcada pelo exagero e artificialidade.

No primeiro momento da carreira de Almodóvar, o camp foi de extrema importância por influenciar a contracultura espanhola, e ajuda a explicar o traço autoral transgressor do diretor.

Seu primeiro longa, Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980) é um “documento” da Movida. O amadorismo proposital, os corpos dissidentes e o humor exagerado transformam o excesso em linguagem, presente no melodrama, na fotografia e nos figurinos.

Do melodrama às passarelas: a influência da cultura camp nos filmes de Almodóvar
Pepi, Luci e Bom (1980). (Foto: Reprodução / Mubi)

Quando o camp se torna drama

Desde seu primeiro filme Almodóvar consolidou seu estilo autoral. Em Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão, o diretor opta por exibir a cultura camp de uma maneira exterior, provocativa e corporal, exalando as características da Movida.

Com o tempo, o diretor refinou seu estilo autoral e jeito único de representar personagens, principalmente femininas, que são as que mais o interessavam, em situações exageradas e melodramáticas. Um ponto de virada em sua filmografia foi o longa Tudo sobre Minha Mãe (1999), que não abandona o exagero, mas o redireciona para uma camada mais subjetiva.

O filme, que não será explorado profundamente neste texto e serve como ponto de partida para o trabalho do diretor, aposta em uma ideia forte e ousada, a de que o melodrama, marcado pelo maniqueísmo, exagero e fortes emoções, não é uma forma menos verossímil de contar uma história, e sim mais honesta sobre como a dor, luto e felicidade funcionam subjetivamente, e como excessos muitas vezes são o caminho que vão contra a ideia de reprimir as emoções.

Além do uso do melodrama, outro fator que bebe da cultura camp é o visual extravagante do filme. Cores saturadas, figurinos criativos fora do padrão e a atuação teatral que sintetiza os sentimentos e personalidade das personagens trabalhadas.

Sontag, anteriormente citada nesse texto, argumenta que o camp funciona quando, por baixo de toda a extravagância e exagero, existe uma emoção genuína. É o artifício a serviço do sentimento, não no lugar dele. Tudo Sobre Minha Mãe (1999) usa muito bem esta ideia, com uma superfície que parece simples e exagerada, mas lotada de dor e subjetividade.

Do melodrama às passarelas: a influência da cultura camp nos filmes de Almodóvar
Tudo sobre Minha Mãe (1999). (Foto: Reprodução/Mubi)

Os figurinos de Jean Paul Gaultier

Almodóvar trabalhou com o estilista francês Jean Paul Gaultier em três filmes: Kika (1993), Má Educação (2004) e A Pele que Habito (2011). A parceria fez toda a diferença na identidade visual desses filmes, pois Gaultier é um estilista cuja carreira é marcada pelo excesso e pela subversão, misturando referências de culturas distintas e transformando o corpo em palco, sendo essencial para a narrativa do cineasta.

Pedro Almodóvar e Jean Paul Gaultier posam ao lado de modelo com figurino do estilista francês. (Foto: Reprodução/Nacho Pinedo)

Repertório e influências

O percurso de Almodóvar demonstra que, da câmera amadora da Movida às produções de maior escopo, o camp nunca foi para o cineasta apenas um recurso superficial, mas o cerne principal na construção das suas narrativas, entendendo que o exagero é, muitas vezes, mais verdadeiro que a contenção das paixões, emoções e extravagâncias.


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Autor: Gabriel Dias

Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.

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