O Brasil inicia o ciclo eleitoral de 2026 sob uma contradição que violenta a própria ideia de democracia: somos 53% do eleitorado nacional, mas ocupamos menos de 20% das cadeiras do Congresso Nacional. Ocupamos a vergonhosa 135ª posição no ranking mundial de representação feminina no Parlamento. Diante desses dados, a pergunta que se impõe às vésperas de mais uma eleição geral não é se as mulheres vão participar do pleito, mas como elas ocuparão esse espaço. Chega de sermos apenas estatística de urna ou verniz ético em panfletos partidários. A urgência de 2026 exige que passemos de coadjuvantes a protagonistas da formulação real do Estado. Como costumamos provocar nos espaços de debate: a gente não quer só ser a história contada do sucesso de uma política pública; a gente quer fazer a política pública.
A história recente nos mostra que as cotas de gênero — embora tenham sido um passo inicial importante — funcionaram historicamente mais como um teto do que como o piso que deveriam ser. Pior: tornaram-se ferramentas de simulação para partidos que burlam a lei com candidaturas “laranja” ou que anistiam a si mesmos após o descumprimento de repasses financeiros. Em 2026, o cenário traz novos contornos e novos desafios. Se por um lado a Justiça Eleitoral tenta fechar o cerco com regras mais rígidas — permitindo o uso do Fundo Eleitoral para a segurança de candidatas ameaçadas e limitando o uso de inteligência artificial para frear as campanhas de desinformação baseadas em violência política digital —, por outro, a resistência das velhas estruturas patriarcais continua feroz.

Essa resistência se manifesta na tentativa permanente de nos desorganizar pelo medo e pelo cansaço. A violência política de gênero não é um fato isolado; é uma estratégia de manutenção de poder. Ela tenta silenciar corpos que ousam pautar o debate público sob a ótica da justiça social, do ecossocialismo, da igualdade racial e da divisão justa do trabalho de cuidado, que historicamente sobrecarrega as mulheres e as afasta da vida pública. Quando tentam nos calar por meio de ofensas, ameaças ou da invisibilização de nossas lideranças, o que está em jogo não é apenas o mandato de uma deputada ou senadora, mas o direito de metade da população de ver suas urgências traduzidas em orçamento e lei.
Legislar e governar sem mulheres é governar às cegas. A presença feminina nas esferas de poder altera profundamente a qualidade do debate público. São as mulheres as principais articuladoras de frentes de combate ao feminicídio, de proteção jurídica contra a violência vicária e de redes de acolhimento às vítimas de vulnerabilidade social. Mas o nosso horizonte para este ano precisa ir além do papel de assistência. É preciso disputar a centralidade das decisões econômicas, os rumos da transição ecológica, as regras da nossa reforma tributária e a garantia da própria estabilidade democrática do país.
Precisamos de amplitude para barrar o avanço do fascismo e de forças que flertam com o autoritarismo, mas necessitamos, sobretudo, de radicalidade para garantir que nenhuma de nós fique para trás. Isso significa interiorizar a política, fazendo com que o fôlego das articulações nacionais chegue às mulheres do campo, das periferias, das águas e das florestas.

O recado para os partidos políticos e para os donos do poder em 2026 é nítido: chega de sermos dado de campanha. O tempo de aceitar a política feita para as mulheres, mas sem as mulheres, acabou. É hora de sermos a própria política. Afinal, a democracia será sempre um simulacro enquanto as cadeiras efetivas do poder não refletirem a verdadeira cara do povo brasileiro. Quando uma mulher avança com coragem, uma flor se abre; quando nos movemos juntas, em rede e de forma coletiva, é a própria estrutura do país que se transforma.
Este conteúdo é de total responsabilidade de seu colunista, que colabora de forma independente e voluntária com o portal Gazeta Culturismo. Portanto, a Culturismo Comunicação Ltda não se responsabiliza pelos materiais apresentados por este autor.
Maianí Gontijo é mãe da Alice, feminista, comunicadora social e estrategista em Marketing Político. Ex-Secretária de Comunicação, Cultura e Turismo de Itapuranga, atua há mais de 10 anos nas áreas de assessoria de comunicação, gestão pública cultural e relacionamento. Integra a Associação de Mulheres na Comunicação (AMC) e a Rede de Mulheres da AMARC Brasil.
Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.