Marco Túlio e diretor Bruno Murtinho explicam como traduziram a linguagem do YouTube para as telas de cinema
Com mais de 20 milhões de inscritos no YouTube, Marco Túlio, o rosto por trás do canal AuthenticGames, chega ao cinema com seu novo longa-metragem Authentic Games no Império Desconectado, que aposta em diferentes públicos e na aproximação da linguagem digital com a cinematográfica. Agora no cinema, o youtuber fenômeno dos games eleva o nível e encontra uma nova e mais ambiciosa aventura.
Com a direção de Bruno Murtinho, o projeto foi marcado pelo desafio de traduzir o carisma do youtuber para as telas grandes, sem perder a essência que marcou diversos fãs de diferentes idades. Em entrevista à Gazeta Culturismo, organizada pela Press 4 You Comunicação, Marco e Bruno falaram sobre os bastidores dessa travessia e o que aguardar do filme que já estreou nos cinemas brasileiros no dia 14 deste mês.
Marco Túlio, também conhecido como AuthenticGames, se tornou um dos maiores criadores de conteúdo do Brasil ao conquistar gerações inteiras com seus vídeos de Minecraft. Em entrevista, ele conta como o seu novo projeto nasceu, o que o público pode esperar e o que significa levar sua história do digital para as telas de cinema.
Marco, o filme mistura live-action com animação e tem uma premissa bem criativa — um império offline que tenta se sequestrar. Como surgiu a ideia? E o que o público pode esperar de diferente em relação ao conteúdo que já conhece do canal?
O filme tem uma história legal de contar. O projeto se concretizou formalmente em 2019, e a agenda de lançamento acabou se estendendo um pouco mais. Graças a Deus, está saindo agora em 2026.
Os créditos de roteiro são totalmente do nosso diretor, Bruno Murtinho, pessoa sensacional e extremamente criativa. Ele buscou fazer algo que juntasse os dois mundos das pessoas que acompanhavam o conteúdo do Authentic.
Muitos que me acompanhavam no passado me conheciam muito mais pela persona, pelo personagem, pelo bonequinho do Authentic. Mas por trás do Authentic existe também o Marco Túlio, ou o “Authentic Gente”, como as pessoas me apelidam.
E ao pensar nessa conexão, em como eu poderia me transformar em um personagem com o qual o público já estivesse familiarizado, surgiu a ideia de me projetar para dentro de um universo. Naquele momento, veio o conceito de um universo desconectado, um lugar que conversava com o digital, que já vem ganhando força nos últimos anos.
A gente queria fazer algo que desse identidade ao personagem do Authentic, tanto quanto o Marco Túlio é conhecido no live action, e que tivesse também uma conexão com as pessoas que não só jogam, mas estão envolvidas com tecnologia.
Foi daí que veio a ideia do Império Desconectado.
O canal começou em 2011, há mais de uma década. Muita gente que te assistia criança hoje já é adulta e, ao mesmo tempo, você continua atraindo públicos novos. Na hora de fazer o filme, como foi pensar nessas duas gerações?
Para mim, que estava lá atuando e participando, a sensação foi de que a minha criança interior ficou muito realizada.
Eu me senti participando de um projeto de TV por assinatura. Quando eu era criança e retornava da aula ou estava em período de férias, gostava muito de assistir a canais fechados. Ficava vendo aquelas grandes produções, aquelas atuações, e por isso foi uma realização fantástica para a minha criança interior.
Sobre o que o público pode esperar: é um filme com classificação infantil, mas temos ali uma conexão. Não é porque algo aconteceu anos atrás que aquilo foi apagado. Eu acho que as boas lembranças a gente carrega consigo, independentemente do tempo ou do momento.
Então, para as pessoas que têm possivelmente novos interesses, é uma grande oportunidade de nos encontrarmos em algo que remeta a um bom momento, a um bom sentimento de uma época em que a nossa conexão foi mais próxima. E para a nova geração será possível ver algo muito legal: uma animação brasileira que mistura jogos e o universo digital.
Eu acredito que o DNA da Authentic sempre foi esse. O jovem Marco Túlio sempre conseguiu conversar tanto com a galera da minha faixa etária quanto com uma galera mais nova. Agora que estamos de igual para igual e chegou uma geração mais nova, conseguimos nos conectar dessa forma, pelo saudosismo e pela boa lembrança de algo que aconteceu no passado, podendo celebrar isso juntos.
Estamos indo para as telonas. A gente se via lá nas telinhas, seja no computador, no celular ou por vezes na TV, e agora vamos nos encontrar nas telonas de cinema. Para a criançada, tenho certeza de que vão se divertir bastante com toda a aventura que o Authentic vive nesse Império Desconectado, em busca de salvar seus amigos. E realmente essa relação é muito boa.

Você construiu um império que vai muito além do YouTube — tem escola de tecnologia, shows, produtos licenciados e agora um filme no cinema. Com tantas frentes, como você enxerga o futuro do canal e dos vídeos? O filme pode ser um ponto de virada?
Sim, o filme nos projeta em um novo cenário, em algo que nós, enquanto marca e empresa, não tínhamos vivenciado: a produção de um longa-metragem.
No passado, chegamos a fazer um projeto de curta de desenhos animados, mas este filme dá uma nova projeção. Enquanto marca, ficamos muito animados, porque o nosso anseio — e em breve vamos compartilhar essas novidades com a audiência — é de fato conseguir dar o suporte necessário para atuar em todas as frentes.
Então, não queremos apenas lançar projetos novos, o que por si só já é fantástico, mas conseguir fazer isso com recorrência, com qualidade e com uma melhoria que a nossa audiência merece. Queremos estar presentes para poder servi-los com o melhor que pudermos fazer. E para isso não dá para o Marco Túlio sozinho, em um quarto, gerenciando tudo. É necessário suporte, equipe e processos.
Então, viemos desenhando isso para poder dar suporte a tudo que estamos construindo.
Você começou fazendo vídeos sozinho no quarto aos 15 anos e agora tem um filme nos cinemas do Brasil inteiro. Se você pudesse voltar no tempo e falar com aquele Marco Túlio de 2011, o que diria pra ele?
Deus faz infinitamente mais do que pedimos ou pensamos. Meu sonho, quando iniciei meu canal no YouTube, era atingir o alvo de cem mil inscritos. Acho que é sempre importante contextualizar: naquela época, um milhão de inscritos era como se fosse ser um Mr Beast hoje em dia. Com cem mil, eu já estaria muito satisfeito. Só não imaginei que aconteceria de uma forma tão rápida.
Não vou dizer que foi fácil. Existe aquela frase: “todo mundo vê o palco, mas não vê os bastidores”, e os bastidores contam muito. Então fico muito grato. Como cristão, sou muito grato por tudo que Deus tem feito e faz através da minha vida. De fato, nunca imaginei que poderíamos estar vivenciando coisas dessa magnitude.
E, assim sendo, creio que é só o começo para podermos prospectar coisas ainda maiores. Quem sabe, muito em breve teremos um parque AuthenticGames, jogos do Authentic ou até mesmo animações mais presentes nas plataformas de streaming. O céu nem é mais o limite — já fomos para o espaço, então o universo é o limite.
Experiente na direção de shows e DVDs, Bruno Murtinho conheceu Marco Túlio por meio da Sony e logo enxergou o potencial de transformar aquele fenômeno digital em uma narrativa cinematográfica. A seguir, ele conta como nasceu a ideia do filme, os aprendizados de migrar do live action para a animação e o que significou construir, do zero, um universo inteiro.
Bruno, sua carreira passa por clipes para O Rappa e Chico Buarque, documentário musical premiado sobre a Amazônia, e agora um filme infantil que mistura live-action com animação no universo gamer. Como você foi parar no AuthenticGames? O que te atraiu no projeto?
Eu dirijo muitos shows de artistas. Dirigi shows da Vanessa da Mata, Ivan Lins, e trabalhei dirigindo shows e DVDs. Um dia, me ligaram da Sony e disseram: “Você vai dirigir a gravação de um show”. Falar em “dirigir um DVD” parece coisa de cinquenta anos atrás, mas isso tem cerca de dez anos, por volta de 2017.
Eu perguntei qual era a banda, e responderam: “Não é banda, é o AuthenticGames”. Eu estranhei. Era um youtuber, e eu não estava tão familiarizado com esse fenômeno. Perguntei: “Como assim um youtuber fazer show?” E me disseram: “Vai lá, veja o ensaio, a gente vai te apresentar para ele, vai ser ótimo”.
E estavam certos. O trabalho foi incrível, o ensaio foi ótimo e nos demos muito bem de primeira. Eu sempre comento que existe uma cena no começo do filme dos Beatles, “A Hard Day’s Night” [Os Reis do Iê, Iê, Iê], em que eles estão correndo por uma rua e, de repente, uma multidão vira a esquina atrás deles.
Eu tive essa sensação com o Authentic, porque me lembro de que eram duas diárias de filmagem, uma em julho e outra em agosto, para o show chamado Festa dos Youtubers. Cheguei muitas horas antes para conversar, conversar com calma, acertar todo o equipamento e acompanhar a montagem. Quando cheguei, a fila dava voltas no quarteirão. Foi naquele momento que tive noção de que ele era algo incrível. Ele lotou, dois meses seguidos, o Espaço das Américas em São Paulo, que é um espaço enorme.
E eu disse: “Vamos fazer alguma coisa com essa potência que você tem. Vamos criar uma animação, uma história”. Eu tinha uma história maravilhosa que havia sido pensada para outro artista, mas acabou não sendo utilizada. Tenho uma gaveta cheia de ideias.
Apresentei a ideia, e na mesma hora a Sony disse: “Vamos agora para Belo Horizonte, a ideia é maravilhosa”. Era domingo, e nos encontramos com o Marco Túlio naquele mesmo dia. Foi assim que nasceu essa história. Nos conhecemos e nos demos muito bem.
Conheci a família dele, conheci as pessoas ao redor dele, e todo mundo foi muito receptivo o tempo todo. Foi uma experiência muito boa. Tivemos a pandemia de Covid no meio do caminho, mas conseguimos levar esse filme às telas de cinema, o que é muito especial.
É um filme brasileiro de animação cem por cento feito no Brasil, sem inteligência artificial. Vozes, trilha, animação — nada utilizou IA. Optamos por um caminho mais longo e mais trabalhoso, mas sabíamos que a qualidade estaria impressa no resultado final. E está.

O filme mistura live-action com animação e precisa traduzir uma linguagem do YouTube e dos games para o cinema — que tem ritmo e linguagem completamente diferentes. Como foi esse processo de adaptação? Quais foram os maiores desafios ao contar essa história nos cinemas?
Eu aprendi infinitamente com esse filme. Antes eu havia feito um documentário sobre a Amazônia, e não poderia ser mais diferente de uma animação. Mas, como diretor, não estou preocupado com o formato — estou preocupado com as histórias que quero contar, seja um documentário, uma animação, um live action ou qualquer outra coisa.
Eu quero contar histórias que sejam relevantes e interessantes. Quando me vi diante desse universo, tive que começar a assistir a TikTok, a YouTube, a vários jogos.
Foi um aprendizado muito interessante com o Marco Túlio, uma troca muito rica. Eu levava o cinema para ele e explicava: “Temos uma estrutura narrativa de primeiro, segundo e terceiro ato, em que o ponto alto está aqui, o ponto baixo está aqui, a cena de confronto está aqui”. E ele respondia: “As crianças gostam disso, e tem também este outro elemento”.
Eu disse: “Vamos encontrar uma terceira margem do rio, onde a gente vai unir o que você sabe com o que eu sei. Vamos trazer a sua linguagem para uma narrativa cinematográfica potente, uma história que seja interessante de contar na tela grande”. Acho que esse encontro foi muito enriquecedor.
Eu estava brincando outro dia sobre isso. Vou dirigir um próximo filme em breve, e na animação você faz todo o storyboard, desenha tudo. Eu estava em uma reunião com um grande executivo brasileiro e disse a ele: “Só preciso que você me garanta que eu vou fazer o storyboard do filme inteiro”. Ele respondeu: “Não acredito que estou ouvindo isso, porque eu sonho com isso e os diretores brasileiros não estão tão acostumados a esse processo”. Eu disse: “Vamos fazer isso. Eu quero fazer. Acho que a animação me deu essa possibilidade, e eu adorei”.
É claro que no set estamos sempre abertos a sair do storyboard quando necessário, para acolher o improviso de um ator ou de uma ação que surge na hora. Mas a animação me ensinou muito a organizar a filmagem de maneira extremamente eficiente.
Você já disse ser influenciado por cineastas como Tim Burton e Wes Anderson, ambos conhecidos por criar mundos visuais muito próprios. Que tipo de experiência você quis criar para o público que vai assistir ao filme no cinema — tanto as crianças que conhecem o Authentic quanto os pais que vão acompanhar?
Essa pergunta é muito boa, porque foi um desafio enorme. Quando apresentei o roteiro, todo mundo reagiu: “Então quer dizer que toda a história, esse império inteiro, fica na ponta de um cabo de internet?” E eu confirmei: “Sim, na ponta do cabo”.
Eu adoro o filme “Horton Hears a Who!” [Horton e o Mundo dos Quem], baseado na obra do Dr. Seuss — aquela animação do elefante que descobre uma comunidade inteira vivendo na ponta de uma florzinha. Essa referência foi muito importante, porque havia algo de mágico ali. As pessoas diziam: “Bruno, estamos criando um mundo aqui, mas esse mundo só está na sua cabeça. Vamos ter que te perguntar tudo”.
E eu respondia: “Vamos sentar e desenhá-lo por completo”. Ele acontece na ponta de um cabo de internet, então precisa ter esses cabos presentes. Precisamos olhar para esse mundo como se estivéssemos abrindo um laptop e enxergando uma cidade. Os formatos dos prédios, tudo tem que ter arestas, tudo tem que ter quinas. Não temos nada circular no filme.
Criar esse mundo foi algo que me remeteu à sensação que tive ao assistir a “Guerra nas Estrelas”: a admiração por alguém que criou um universo inteiro. O Dr. Seuss também fez isso. E há ainda “Where the Wild Things Are” [Onde Vivem os Monstros], de Maurice Sendak, com suas ilustrações lindas.
São presentes que você recebe como autor: poder olhar e pensar que aquele mundo saiu da sua cabeça, depois passou pela cabeça de várias outras pessoas, e todas juntas o construíram.
O cinema é uma arte muito coletiva, e é muito especial ver essa história acontecendo na ponta de um cabo de internet.

Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.
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