Um jogo sobre a morte que, no fundo, é sobre como escolhemos viver
Persona 3 foi lançado em 2006 para PlayStation 2 e continua muito atual, tendo recebido um remake em 2024 que projetou a franquia para novos jogadores, conquistados pelos elementos sociais, jogabilidade e, principalmente, pela temática humana.
O eixo temático do jogo é a “morte”, tratada com diversos olhares: luto, vingança e fugacidade da vida. O protagonista é Makoto Yuki, adolescente órfão que se muda para Tatsumi Port Island, onde conhece o grupo S.E.E.S, focado em investigar o Tártaro, local associado à Síndrome de Apatia — uma náusea de desespero e falta de esperança que afeta a população da cidade.
Assim como seus sucessores, Persona 3 usa implicitamente diversas filosofias para construir e aprofundar seu mundo. As principais correntes presentes são a estoica e a existencialista.
Memento mori
“Lembre-se de que é mortal” é o lema central de Persona 3. A frase carrega um significado agridoce: tudo que nasce morre. Encarar essa condição com seriedade, porém, transforma a mortalidade em oportunidade — de valorizar cada dia como se fosse o último. Como diz Sêneca em “A Brevidade da Vida”: “Não é que tenhamos pouco tempo de vida, mas que desperdiçamos muito dele.”
Penso, logo existo
Para Descartes, a capacidade de pensar é a principal prova de que existimos. O jogo coloca constantemente em oposição a existência e a inexistência, mostrando como esses dois lados são igualmente importantes para dar sentido à vida e a tudo que experienciamos.
O inconsciente coletivo
A psicologia analítica de Carl Jung é a principal inspiração da franquia. Ao retratar uma sociedade assombrada pela Síndrome de Apatia, o jogo evoca o inconsciente coletivo — a camada mais profunda da psique humana, compartilhada por toda a humanidade. Em uma era de incertezas, a humanidade se vê sem caminho, sem comunidade e sem esperança. Para Jung, a morte não é apenas biológica, mas símbolo de transformação e renovação — ideia que Persona 3 abraça em suas mensagens.
Qual o caminho?
Muito inspirado em Albert Camus, Persona 3 propõe uma ideia semelhante à do mito de Sísifo — personagem condenado a empurrar uma pedra ao topo de uma montanha eternamente. Nessa metáfora da vida como sofrimento sem fim, Camus argumenta que somos seres livres num universo absurdo, e que devemos nos revoltar conscientemente contra esse absurdo, encontrando nosso próprio propósito e vivendo com paixão. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, conclui o filósofo.
Persona 3 é uma experiência que pode ser vivida em longas horas de jogo, mas cujas mensagens ficam para sempre — lembrando-nos de estar presentes com o que realmente importa.
“Você não precisa salvar o mundo para encontrar o sentido da vida… Às vezes o que você precisa é algo simples, como alguém para cuidar.” — Aegis, em Persona 3.
Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.
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