Baixa frequência de doadores pode comprometer cirurgias, tratamentos e estoques dos hemocentros em períodos de maior demanda
Menos de 2% dos brasileiros doam sangue ao menos uma vez por ano, segundo dados do Ministério da Saúde. Embora o percentual esteja dentro da faixa considerada adequada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda índices entre 1% e 3% da população, especialistas alertam que a necessidade de bolsas de sangue varia ao longo do ano e pode superar a capacidade de reposição dos estoques.
O tema ganha destaque em junho, mês dedicado à conscientização sobre a doação de sangue e que abriga o Dia Mundial do Doador de Sangue, celebrado em 14 de junho. A data foi criada pela Assembleia Mundial da Saúde para reconhecer a contribuição dos doadores regulares e estimular a participação de novos voluntários, diante da importância do sangue para procedimentos médicos e tratamentos que dependem exclusivamente desse recurso.
A hematologista Maria Amorelli, que atua no centro clínico do Órion Complex, afirma que a quantidade de doadores ainda é insuficiente para garantir segurança permanente aos estoques dos hemocentros.
“A incidência de doação ainda é muito baixa no Brasil, levando a consequências para o serviço de saúde. Com o desabastecimento dos hemocentros, pode haver, por exemplo, atraso nas cirurgias eletivas. Sem reserva de sangue, pacientes com doenças como a leucemia correm o risco de ter o tratamento interrompido. Em datas comemorativas e feriados, onde aumenta o índice de acidentes, também aumenta o consumo. Então é importante conscientizarmos a população da necessidade dessa doação”, afirmou a especialista.
De acordo com o Ministério da Saúde, uma única doação pode beneficiar até quatro pacientes, já que o sangue coletado é separado em diferentes componentes utilizados em tratamentos distintos.
Campanhas de conscientização têm contribuído para aumentar o número de doadores em algumas regiões do país. Em Goiás, a Rede Estadual de Serviços Hemoterápicos (Rede Hemo) registrou crescimento gradual no percentual de doadores nos primeiros meses de 2026.
Os dados apontam índices de 21% em janeiro, 28% em fevereiro, 31% em março e 34% em abril, demonstrando avanço na adesão às campanhas promovidas pelos hemocentros estaduais.
Mesmo com a evolução, profissionais da área destacam que a manutenção dos estoques depende da regularidade das doações durante todo o ano, especialmente em períodos de férias, feriados prolongados e datas comemorativas, quando a procura por sangue costuma aumentar.
Após a coleta, o material passa por um processo de separação que permite o aproveitamento de diferentes componentes sanguíneos.
Entre eles estão:
Segundo especialistas, nenhum desses componentes possui substituto capaz de desempenhar as mesmas funções terapêuticas, tornando a doação indispensável para milhões de pacientes.
As regras para doação são definidas pelo Ministério da Saúde e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Para doar sangue, é necessário:
Maria Amorelli destaca que homens e mulheres possuem intervalos diferentes entre as doações.
“As mulheres podem fazer as doações até três vezes no ano, com um intervalo de 90 dias entre uma e outra. Para os homens a doação de sangue já pode ser mais frequente, incluindo em média quatro doações no ano, com um intervalo um pouco menor, de 60 dias”, explica a hematologista.
Embora a maioria das pessoas saudáveis esteja apta a doar, algumas condições médicas impedem permanentemente ou temporariamente a participação.
Entre as situações que impedem a doação estão:
“Algumas doenças autoimunes também impedem a doação, infelizmente, inclusive, doenças autoimunes como a tireoide impedem a doação de sangue. Se você está em tratamento de câncer ou alguma doença do coração grave, doença renal, doença pulmonar, também não pode praticar a doação de sangue”, conta a Dra. Maria Amorelli.
Uma das dúvidas mais frequentes entre potenciais doadores envolve o diabetes. Segundo especialistas, pessoas com a doença podem doar sangue desde que o quadro esteja controlado e o tratamento seja realizado apenas com medicamentos orais.
Pacientes que utilizam insulina ou apresentam diabetes descompensado precisam passar por avaliação específica e, em muitos casos, ficam temporariamente impedidos de doar.
A orientação é buscar informações diretamente junto ao hemocentro antes da doação para verificar os critérios atualizados de elegibilidade.
“Eu acredito que, para a gente melhorar o acesso à doação, é importante que a gente conscientize a população da necessidade dessa doação. Qualquer pessoa que está saudável pode e deve vir doar”, completa a hematologista.
A legislação brasileira garante ao trabalhador formal o direito de se ausentar do trabalho por um dia a cada 12 meses para realizar a doação voluntária de sangue.
O benefício está previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e também se aplica a servidores públicos federais, desde que a doação seja comprovada por meio de documento emitido pelo hemocentro ou banco de sangue responsável pelo atendimento.
Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.
Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.