Excesso de peso atinge 33% das crianças e adolescentes no Brasil; especialistas apontam papel da alimentação tradicional

Dados de 2025 revelam avanço do sobrepeso entre jovens brasileiros e reacendem debate sobre hábitos alimentares na infância

Excesso de peso atinge 33% das crianças e adolescentes no Brasil; especialistas apontam papel da alimentação tradicional

Uma em cada três crianças e adolescentes brasileiros de até 19 anos está com excesso de peso, segundo dados divulgados em 2025 pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN). O levantamento aponta que 33% dos jovens entre 0 e 19 anos apresentam peso acima do recomendado, cenário que preocupa especialistas e autoridades de saúde devido aos impactos que a condição pode provocar ao longo da vida.

O crescimento dos índices de sobrepeso e obesidade infantil ocorre em paralelo ao aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, frequentemente associados a dietas com alto teor de açúcar, sódio e gorduras. Nesse contexto, especialistas defendem o fortalecimento de hábitos alimentares baseados em refeições tradicionais brasileiras, como o clássico arroz com feijão, considerado uma alternativa acessível e nutricionalmente equilibrada.

O que explica o aumento da obesidade infantil no Brasil?

A obesidade infantil tem origem multifatorial e envolve questões alimentares, comportamentais, sociais e ambientais. Entre os fatores mais apontados por especialistas estão o maior consumo de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo, o aumento do tempo de exposição a telas e a influência da publicidade voltada ao público infantil.

Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) mostram que o problema não está restrito ao Brasil. Atualmente, cerca de 391 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vivem com excesso de peso em todo o mundo, enquanto aproximadamente 188 milhões já convivem com a obesidade.

O cenário representa uma mudança histórica. Pela primeira vez, a obesidade tornou-se a forma mais comum de má nutrição entre crianças e adolescentes em idade escolar, superando os casos de desnutrição.

No Brasil, a tendência também é de crescimento acelerado. Dados compilados por organismos internacionais indicam que a obesidade entre jovens de 5 a 19 anos passou de cerca de 5% no início dos anos 2000 para 15% em 2022. No mesmo período, a prevalência de sobrepeso dobrou, alcançando aproximadamente 36%.

Como os hábitos familiares influenciam a alimentação infantil?

Especialistas destacam que a formação dos hábitos alimentares começa nos primeiros anos de vida e pode ser influenciada até mesmo durante a gestação.

A nutricionista Aline Maldonado afirma que o ambiente familiar exerce papel decisivo na relação das crianças com a comida.

“A infância é o período em que aprendemos a nos relacionar com os alimentos. A forma como a família organiza as refeições, os alimentos disponíveis em casa e o exemplo dos pais influenciam diretamente as escolhas que a criança fará ao longo da vida. O objetivo não deve ser restringir alimentos, mas construir uma rotina alimentar equilibrada, baseada em variedade, qualidade nutricional e regularidade. Quando a alimentação saudável faz parte do cotidiano familiar, ela se torna algo natural para a criança”, orienta.

Especialistas em saúde pública destacam que refeições realizadas em família, horários regulares para alimentação e maior oferta de alimentos frescos são estratégias associadas à melhora da qualidade nutricional da dieta infantil.

Por que arroz com feijão continua sendo recomendado?

Mesmo diante das mudanças nos padrões alimentares, a combinação de arroz e feijão segue sendo considerada uma das bases nutricionais mais importantes da alimentação brasileira.

De acordo com pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o feijão é fonte de proteínas vegetais, fibras, ferro, magnésio, potássio e vitaminas do complexo B, nutrientes fundamentais para o crescimento, o desenvolvimento cognitivo e o funcionamento adequado do organismo.

Quando consumidos juntos, arroz e feijão oferecem proteínas complementares, contribuindo para uma refeição nutricionalmente equilibrada.

Segundo Aline Maldonado, o prato tradicional continua sendo uma alternativa eficiente para melhorar a qualidade da alimentação infantil.

“O feijão é um alimento extremamente rico em nutrientes e possui um papel importante na alimentação infantil. Além de fornecer proteínas vegetais, vitaminas e minerais, também é fonte de fibras, que contribuem para a saciedade e para o bom funcionamento intestinal. Manter o arroz com feijão na rotina das crianças é uma forma simples e acessível de promover uma alimentação de qualidade”, destaca.

Além dos benefícios nutricionais, especialistas ressaltam que o arroz com feijão possui outro diferencial importante: o custo relativamente baixo quando comparado a diversos produtos industrializados, o que amplia seu potencial de acesso entre diferentes faixas de renda.

Qual é o impacto dos alimentos ultraprocessados?

Diversos estudos nacionais e internacionais associam o consumo frequente de ultraprocessados ao aumento do risco de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e outras doenças crônicas.

O UNICEF alerta que a presença crescente desses produtos na rotina das famílias, somada às estratégias de marketing direcionadas ao público infantil, tem contribuído para a mudança dos padrões alimentares observada nas últimas décadas.

Entre os alimentos classificados como ultraprocessados estão refrigerantes, salgadinhos industrializados, biscoitos recheados, embutidos e diversas refeições prontas. Esses produtos costumam apresentar alta densidade calórica e baixo valor nutricional quando comparados a alimentos in natura ou minimamente processados.

Educação alimentar pode ajudar a reduzir o problema?

Especialistas consideram a educação alimentar uma das principais ferramentas para enfrentar o avanço da obesidade infantil.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que hábitos saudáveis desenvolvidos na infância tendem a permanecer durante a vida adulta, reduzindo o risco de doenças cardiovasculares, diabetes e outros problemas relacionados ao excesso de peso.

Para Aline Maldonado, não existem soluções isoladas para combater a obesidade.

“Não existe um alimento isolado responsável pela obesidade nem um alimento capaz de preveni-la sozinho. O que realmente faz diferença é o padrão alimentar construído ao longo do tempo. Quanto mais cedo a criança tiver contato com refeições equilibradas e hábitos saudáveis, maiores serão as chances de levar esse comportamento para a vida adulta”, conclui.

Especialistas defendem que políticas públicas de incentivo à alimentação saudável, educação nutricional nas escolas e ampliação do acesso a alimentos frescos podem desempenhar papel relevante na redução dos índices observados atualmente.


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Autor: Pollyana Cicatelli

Jornalista pós-graduada em Comunicação Organizacional e especialista em Cultura, Arte e Entretenimento. Com ampla experiência em assessoria de imprensa para eventos, também compôs redações de vários veículos de comunicação. Já atuou como agente de viagens e agora se aventura no cinema como roteirista de animação.

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