“Espelho espacial”: satélite Earendil-1 para iluminar a Terra à noite é aprovado

Projeto da Reflect Orbital pretende refletir luz solar para áreas específicas do planeta

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A Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) autorizou o lançamento do Earendil-1, satélite experimental desenvolvido pela startup Reflect Orbital, uma espécie de “espelho espacial“, para refletir luz solar sobre a Terra durante a noite. A licença permite que a empresa avance com os testes da tecnologia, que promete direcionar iluminação para regiões específicas do planeta com aplicações em geração de energia, operações de resgate e infraestrutura urbana. A decisão foi anunciada após análise dos aspectos relacionados às comunicações por radiofrequência do equipamento.

Embora a autorização represente um avanço para a empresa, a iniciativa provocou forte reação da comunidade científica. Astrônomos, organizações ligadas à preservação do céu noturno e pesquisadores alertam que o satélite pode comprometer observações astronômicas, alterar ecossistemas e interferir nos ciclos biológicos de pessoas, animais e plantas. A própria FCC ressaltou que sua análise se limitou aos aspectos regulatórios das comunicações do satélite, sem avaliar possíveis impactos ambientais ou de saúde.

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Como funciona o “espelho espacial”, satélite Earendil-1?

O Earendil-1 será colocado em órbita terrestre baixa, a aproximadamente 640 quilômetros de altitude, onde abrirá um espelho quadrado com cerca de 18 metros de largura. O objetivo é refletir a luz do Sol para uma área circular de aproximadamente 4,8 quilômetros de diâmetro na superfície terrestre.

Segundo a Reflect Orbital, observadores localizados dentro da região iluminada enxergariam no céu um ponto de brilho semelhante ao da Lua cheia. O satélite utiliza um refletor de película altamente especular e conta com sistema próprio de propulsão para realizar manobras e direcionar a iluminação conforme a necessidade.

A proposta faz parte de um projeto muito mais amplo. A empresa pretende lançar 1.000 satélites até 2028, ampliar a constelação para 5.000 unidades até 2030 e alcançar 50 mil espelhos orbitais até 2035, formando uma rede capaz de fornecer iluminação sob demanda para diferentes regiões do planeta.

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Para que serviria a iluminação artificial vinda do espaço?

De acordo com a startup, a tecnologia poderá ampliar o tempo de funcionamento de fazendas de energia solar, permitindo a geração de eletricidade mesmo após o pôr do sol.

Entre as aplicações citadas pela empresa também estão:

  • apoio a equipes de busca e salvamento em áreas de difícil acesso;
  • iluminação temporária durante desastres naturais;
  • utilização em projetos urbanos que demandem iluminação adicional.

Os testes do Earendil-1 têm como objetivo avaliar a precisão do sistema, o comportamento do espelho em órbita e a eficiência do direcionamento da luz antes de uma eventual expansão da constelação.

Por que astrônomos são contra “o projeto”espelho espacial”?

A principal preocupação da comunidade científica é o impacto sobre a astronomia observacional. Atualmente, telescópios terrestres já enfrentam dificuldades provocadas pelo crescimento do número de satélites em órbita. Um dos exemplos mais conhecidos envolve a constelação Starlink, da SpaceX, cujos rastros luminosos aparecem em imagens de longa exposição utilizadas em pesquisas científicas.

No caso do Earendil-1, o objetivo do equipamento é justamente produzir um brilho intenso e direcionado para a superfície terrestre, o que, segundo pesquisadores, aumenta significativamente o potencial de interferência nas observações do céu.

Em manifestação encaminhada à FCC, a American Astronomical Society (AAS) afirmou:

“A AAS se opõe à concessão de uma licença à Reflect Orbital, porque esta aplicação é fundamentalmente diferente daquelas para satélites de telecomunicações. O satélite proposto refletiria intencionalmente a luz solar na Terra e foi projetado para ser o mais brilhante possível, tornando os impactos na pesquisa astronômica extremamente difíceis de mitigar.”

A entidade também argumenta que, diferentemente dos reflexos ocasionais produzidos por satélites convencionais, o brilho intenso faz parte do funcionamento planejado do equipamento, tornando sua mitigação muito mais complexa.

Quais são os possíveis impactos para a saúde e o meio ambiente?

Além das preocupações relacionadas à astronomia, pesquisadores apontam que o aumento artificial da luminosidade durante a noite pode alterar os ritmos circadianos, responsáveis por regular processos biológicos em seres humanos e em diversas espécies animais e vegetais.

Entre os efeitos citados por críticos do projeto estão:

  • alterações nos períodos de reprodução de animais;
  • mudanças em rotas migratórias;
  • interferência na hibernação de insetos;
  • florescimento de plantas em momentos incompatíveis com a atividade de polinizadores.

Documentos apresentados à FCC também mencionam possíveis riscos para observadores que utilizam telescópios de grande abertura, além da possibilidade de ofuscamento temporário para pilotos e motoristas caso ocorram reflexos intensos em determinadas condições. Essas alegações fazem parte das manifestações apresentadas por entidades científicas durante o processo regulatório.

O que a FCC analisou na autorização?

A FCC esclareceu que sua decisão não representa uma aprovação sobre os possíveis efeitos ambientais, biológicos ou científicos da tecnologia.

O órgão informou que sua competência está concentrada na autorização do uso do espectro de radiofrequência, na coordenação das comunicações do satélite e na avaliação de requisitos técnicos relacionados à operação espacial.

Na decisão, a comissão afirmou que o projeto atende ao interesse público sob a ótica regulatória das telecomunicações, enquanto questões ambientais e de saúde estão fora de sua competência legal.


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Autor: João Pedro Oliveira

Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.

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