Sono irregular, sedentarismo, alimentação rica em ultraprocessados e outros comportamentos podem comprometer a saúde cerebral
A saúde do cérebro depende de uma combinação de fatores genéticos, ambientais e dos hábitos adotados ao longo da vida. Embora doenças como Alzheimer, Parkinson e epilepsia tenham causas complexas e não possam ser atribuídas a um único comportamento, especialista alerta que algumas escolhas do dia a dia podem aumentar a vulnerabilidade do sistema nervoso e comprometer funções como memória, atenção, raciocínio e coordenação motora.
Além de favorecer alterações metabólicas, vasculares e inflamatórias, esses hábitos também podem dificultar o controle de doenças neurológicas já diagnosticadas. Segundo o neurocirurgião Marcelo Valadares, responsável pela área de Neurocirurgia Funcional da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a prevenção envolve tanto a adoção de hábitos saudáveis quanto o tratamento adequado de condições como hipertensão, diabetes, obesidade, distúrbios do sono e doenças cardiovasculares.
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O sono exerce papel fundamental na saúde cerebral. Durante esse período, o cérebro organiza memórias, regula hormônios, elimina resíduos metabólicos e participa de processos importantes para o funcionamento do organismo. Quando o descanso é insuficiente ou ocorre de forma irregular, podem surgir dificuldades de concentração, alterações de humor, prejuízos na aprendizagem e redução do desempenho cognitivo.
“É durante o sono que o cérebro realiza processos essenciais de recuperação e organização. Quando esse período é constantemente prejudicado, podem ocorrer repercussões neurológicas e metabólicas, mesmo quando o paciente acredita dormir o suficiente”, alerta Marcelo Valadares.
Para melhorar a qualidade do sono, o especialista recomenda manter horários regulares para dormir e acordar, reduzir o uso de telas antes de deitar e evitar cafeína nas horas que antecedem o descanso.
A prática regular de atividade física beneficia o cérebro ao melhorar a circulação sanguínea, controlar fatores de risco como hipertensão, diabetes e colesterol elevado e estimular a chamada plasticidade cerebral, capacidade que permite ao sistema nervoso criar e reorganizar conexões ao longo da vida. Em contrapartida, permanecer muitas horas sentado ou com pouca movimentação pode comprometer a mobilidade, favorecer a perda de força muscular e reduzir o condicionamento físico.
“Na neurologia, o exercício pode ter função terapêutica. Para pacientes com alterações motoras ou dor persistente, movimentar-se de forma orientada ajuda a presevar funcionalidade, reduzir o descondicionamento e evitar que a limitação se torne progressiva”, destaca Valadares.
O especialista orienta interromper longos períodos de inatividade ao longo do dia e incluir caminhadas, exercícios de fortalecimento muscular, atividades de equilíbrio ou outras práticas compatíveis com a condição física de cada pessoa.
Outro hábito que merece atenção é o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, embutidos e refeições prontas. Esses produtos costumam apresentar grandes quantidades de sódio, açúcar, gorduras de baixa qualidade e aditivos, fatores que favorecem doenças metabólicas e cardiovasculares capazes de comprometer a circulação sanguínea cerebral.
“O cérebro é altamente dependente da integridade vascular e do equilíbrio metabólico. Um padrão alimentar equilibrado ajuda a controlar fatores de risco que, quando persistentes, podem produzir repercussões cognitivas”, explica o neurocirurgião.
Para proteger a saúde cerebral, a recomendação é priorizar frutas, verduras, legumes, cereais integrais, feijões, castanhas, peixes, ovos e outros alimentos in natura ou minimamente processados, reduzindo gradualmente a presença de produtos industrializados na rotina.
O consumo excessivo de bebidas alcoólicas e o tabagismo também são hábitos que prejudicam o cérebro. O álcool pode afetar memória, equilíbrio, sono e comportamento, além de favorecer o surgimento de crises em pessoas com epilepsia. Já o cigarro danifica os vasos sanguíneos, aumentando o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e de doenças cardiovasculares que comprometem o funcionamento do cérebro.
“Álcool e tabaco atuam por mecanismos diferentes, mas ambos podem aumentar a vulnerabilidade neurológica. É indicado procurar atendimento quando existe dificuldade para reduzir o consumo ou interromper o uso”, alerta Marcelo
O especialista também chama atenção para outro comportamento frequentemente negligenciado: o estresse e isolamento social, que também são hábitos que prejudicam o cérebro A exposição prolongada a situações de tensão pode prejudicar o sono, favorecer sintomas de ansiedade e comprometer o controle de doenças crônicas. Além disso, o afastamento das atividades sociais reduz estímulos cognitivos importantes para o cérebro, especialmente entre idosos e pessoas com doenças neurodegenerativas.
“O isolamento social também merece atenção, especialmente entre pessoas com doenças que comprometem a mobilidade, a comunicação e a autonomia, como o Parkinson. A redução progressiva das atividades sociais pode agravar sintomas emocionais, diminuir os estímulos cognitivos e ampliar a percepção de incapacidade. Vínculos, conversas, atividades coletivas e estímulos intelectuais fazem parte do cuidado cerebral”, afirma.
Embora hábitos saudáveis contribuam para proteger o cérebro, eles não substituem o diagnóstico e o tratamento médico quando surgem sintomas neurológicos. Esquecimentos que interferem na rotina, alterações de comportamento, tremores persistentes, rigidez, perda de equilíbrio, crises convulsivas e dores que não melhoram devem motivar uma avaliação especializada.
Situações de início súbito exigem atendimento imediato. Dificuldade para falar, fraqueza ou dormência em um lado do corpo, perda de visão, confusão mental intensa, desmaios, convulsões ou uma dor de cabeça muito forte e diferente das habituais podem indicar uma emergência neurológica.
“Cuidar do cérebro significa atuar sobre fatores que as evidências científicas apontam como modificáveis e reconhecer precocemente alterações que possam indicar comprometimento do sistema nervoso”, conclui Marcelo Valadares.
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Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.
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