Procissão dos Pretos Velhos acontece em Goiânia e reúne terreiros em tradição afro-brasileira

Caminhada terá saída no Setor Universitário e homenagens ligadas à ancestralidade e à fé afro-brasileira

Procissão dos Pretos Velhos acontece em Goiânia e reúne terreiros em tradição afro-brasileira

Goiânia receberá, no próximo sábado, 30 de maio, uma grande procissão em homenagem aos Pretos Velhos, entidades reverenciadas nas religiões de matriz africana. A caminhada começa às 16h, com saída do Centro Espírita São Miguel Arcanjo, no Setor Universitário, e seguirá até a Praça Universitária, reunindo terreiros, médiuns, dirigentes religiosos e simpatizantes em um ato público de fé, memória e valorização cultural.

A mobilização pretende reunir participantes de diferentes regiões da capital e municípios vizinhos. A proposta dos organizadores é ocupar as ruas de forma pacífica para reafirmar a presença histórica das tradições afro-brasileiras na capital. Durante o percurso, os participantes acompanharão cânticos, rezas e homenagens dedicadas aos Pretos Velhos, figuras conhecidas por aconselhamento espiritual, acolhimento e práticas de cura dentro da Umbanda.

“Damos sequência a uma tradição iniciada por Vó Erotildes e esperamos centenas de pessoas, entre dirigentes de casas, médiuns e simpatizantes, em uma demonstração de fé e memória cultural”, explica o Padrinho Zelismar, dirigente do Centro Espírita São Miguel Arcanjo. Segundo ele, a procissão também busca ampliar o respeito às religiões afro-brasileiras e combater preconceitos históricos enfrentados pelos praticantes dessas tradições.

O sacerdote afirma que a presença pública da manifestação religiosa representa um movimento importante de reconhecimento cultural. “Queremos reafirmar o papel dos Pretos Velhos como entidade de aconselhamento e cura espiritual, além de combater o preconceito.” A organização informou que a atividade contará com apoio para garantir segurança, ordenamento urbano e orientação aos participantes ao longo do trajeto.

Procissão dos Pretos Velhos em Goiânia leva ancestralidade ao espaço público

A programação prevê chegada à Praça Universitária no fim da tarde, onde serão realizados momentos de louvação, bênçãos e manifestações religiosas abertas ao público. Os organizadores pedem atenção às orientações de trânsito e cuidados com o espaço coletivo durante toda a atividade. A expectativa é de forte participação de comunidades religiosas e moradores interessados em acompanhar a celebração.

“É um resgate histórico necessário”, acrescenta a Madrinha Ester, dirigente da Casa ao lado de Zelismar. Segundo ela, muitos conhecimentos ligados às tradições afro-brasileiras foram apagados ao longo do tempo, e levar a procissão às ruas representa também uma forma de preservar memórias ancestrais ligadas à identidade cultural da capital goiana.

A presença dos Pretos Velhos nas religiões de matriz africana carrega uma forte ligação com a história da população negra no Brasil. Essas entidades representam a sabedoria dos antigos escravizados africanos e simbolizam resistência, acolhimento espiritual e transmissão de conhecimentos populares. Na Umbanda, são associados a rezas, conselhos e práticas de conforto emocional oferecidas nos terreiros.

A procissão em Goiânia também pretende aproximar a sociedade das tradições afro-brasileiras e ampliar o diálogo sobre intolerância religiosa. “Queremos mostrar que nossa religiosidade é cultura, é história e é parte da cidade”, conclui o dirigente Zelismar.

Quem foi Vó Erotildes

A história da procissão dos Pretos Velhos em Goiânia está diretamente ligada ao legado de Vó Erotildes. Conhecida como benzedeira e guardiã de saberes ancestrais, Erotildes do Carmo foi descendente direta de pessoas escravizadas e fundou, na década de 1950, o Centro Espírita São Miguel Arcanjo, um dos terreiros mais antigos de Goiás.

Ela transformou a própria casa em um espaço voltado ao acolhimento espiritual e à prática da caridade. Realizava benzimentos, rezas, batizados e orientações religiosas sem cobrança financeira, tornando-se referência para diversas famílias da região. Sua atuação atravessou gerações e ajudou a preservar tradições afro-brasileiras em um período marcado por discriminação religiosa.

Atualmente, Padrinho Zelismar e Madrinha Ester seguem à frente da casa espiritual fundada por Vó Erotildes. Os dirigentes afirmam que o trabalho desenvolvido hoje mantém os mesmos pilares deixados pela fundadora, com foco na fé, no cuidado com a comunidade e na preservação da ancestralidade afro-brasileira.


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