Publicação revisita 60 anos da trajetória do artista goiano e reúne documentos raros, críticas inéditas e séries marcadas por tragédias brasileiras
A trajetória de Siron Franco, um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, chega ao público em uma ampla monografia que mergulha em 60 anos de produção artística. Intitulado “Pensamento insubordinado”, o livro reúne obras emblemáticas, documentos históricos e reflexões sobre episódios que marcaram o Brasil, como o desastre radiológico do césio 137 e os ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília.
Com lançamento em Goiânia nesta segunda-feira, 12 de maio, e em São Paulo no dia 14, a publicação tem distribuição gratuita e foi organizada pelo pesquisador espanhol Ángel Calvo Ulloa. O projeto é realizado pelo Instituto TeArt em parceria com o Sistema Fecomércio Sesc Senac Goiás. A obra apresenta um panorama amplo da carreira de Siron Franco, hoje com 78 anos, incluindo trabalhos recentes e registros raros do arquivo pessoal do artista.
Ao longo de mais de 300 páginas, o livro combina ensaio biográfico, análises críticas e materiais históricos. Entre os destaques estão catálogos antigos, fotografias, matérias publicadas na imprensa e registros de exposições. A coordenação editorial ficou sob responsabilidade das jornalistas Paula Alzugaray e Juliana Monachesi, enquanto o design foi desenvolvido por Celso Longo e Daniel Trench.
“O livro mostra um Siron Franco total. Não só o pintor influente desde os anos 1970, mas também aquele que, historicamente, se preocupa com tudo o que se passa à sua volta”, afirma Ulloa.
Entre os pontos centrais da monografia está a apresentação inédita de obras da série “Césio”, criada após o acidente radiológico ocorrido em Goiânia, em 1987. O conjunto se tornou uma das produções mais impactantes da carreira do artista e ganhou reconhecimento internacional ao abordar a dor coletiva causada pela tragédia.
A crítica Bélgica Rodríguez definiu a série como a “Guernica brasileira”, em referência à famosa obra de Pablo Picasso. As pinturas revelam o olhar crítico de Siron Franco sobre os efeitos humanos e sociais do desastre, transformando o episódio em uma narrativa visual intensa e perturbadora.
O livro também amplia o olhar sobre a produção recente do artista. Parte das obras incluídas na publicação foi inspirada nos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. As pinturas dialogam diretamente com a dimensão política presente na carreira de Siron desde os primeiros trabalhos desenvolvidos nos subúrbios de Goiânia.
O presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac Goiás e vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, Marcelo Baiocchi Carneiro, destacou o papel social da obra do artista. “Uma das missões do Sistema é promover o diálogo cultural e quando participamos de um projeto que documenta a arte de Siron e todos os temas que ele trabalha, estamos contribuindo para o fortalecimento da história e da vivência goiana, brasileira e também mundial”, pontua.
O lançamento em Goiânia será realizado às 19h, na Vila Cultural Cora Coralina. O encontro terá participação de Siron Franco, Ángel Calvo Ulloa e Juliana Monachesi. A mediação ficará sob responsabilidade de Rita Wirtti, diretora do Instituto TeArt. Após a conversa, o público poderá participar de sessão de autógrafos.
No mesmo espaço, visitantes também terão acesso à mostra “Expressões”, que reúne 100 obras produzidas por Siron entre as décadas de 1970 e 1980. A exposição permanece aberta até 6 de julho e apresenta diferentes fases da pesquisa visual do artista goiano.
Em São Paulo, o segundo lançamento acontece no dia 14 de maio, às 19h30, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc SP. O debate contará novamente com Ángel Calvo Ulloa e Juliana Monachesi, além da mediação de Rita Wirtti.
Segundo Leopoldo Veiga Jardim, diretor regional do Sesc e Senac Goiás, a força da obra de Siron está na maneira como temas delicados atravessam sua pintura. “A arte arrebatadora de Siron converge o debate de temas de alto impacto social em uma profunda reflexão do que o ser humano é capaz de ver e vivenciar. Ao estudar seus trabalhos somos convidados a uma verdadeira contemplação e estamos presentes neste projeto porque a inquietude de Siron em temas sociais é urgente. Falar sobre violência contra a mulher, a sombra da desigualdade social, as marcas da ditadura militar e do acidente com o césio 137, entre outros infinitos temas, é uma necessidade incessante e o Sistema Fecomércio Sesc Senac entende a amplitude e o significado disso para a valorização da cultura que não somente comunica, mas também dialoga e questiona”, destaca.
Siron Franco, nome artístico de Gessiron Alves Franco, nasceu em 1947 na Cidade de Goiás (GO) e mudou-se ainda criança para Goiânia, onde desenvolveu sua formação artística. Desde muito jovem demonstrou talento para o desenho e a pintura, estudando com os artistas D. J. Oliveira e Cleber Gouvêa. Ainda na adolescência, produzia retratos e paisagens para ajudar no sustento da família, experiência que contribuiu para o desenvolvimento de sua técnica e de sua identidade artística.
Ao longo da década de 1970, Siron Franco conquistou reconhecimento nacional por meio de importantes exposições e premiações. Em 1974 foi eleito o melhor pintor nacional na Bienal Nacional de São Paulo e, no ano seguinte, recebeu destaque na Bienal Internacional de São Paulo, consolidando sua carreira. Sua produção reúne pintura, escultura, gravura, desenho e instalações, caracterizando-se por uma linguagem expressiva que combina elementos figurativos, surrealistas e críticas à realidade social brasileira.
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória ocorreu após o acidente radiológico com o Césio-137, em Goiânia, em 1987. Profundamente impactado pela tragédia, o artista criou a série Césio, considerada uma das obras mais importantes da arte contemporânea brasileira. Nela, utilizou imagens simbólicas e impactantes para denunciar o sofrimento das vítimas, a negligência das autoridades e as consequências humanas e ambientais do desastre, reforçando seu compromisso com temas sociais e humanitários.
Reconhecido internacionalmente, Siron Franco possui obras em importantes museus e coleções no Brasil e no exterior. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, manteve uma produção artística intensa, abordando temas como direitos humanos, preservação da natureza, povos indígenas e desigualdade social. Sua contribuição para a arte brasileira destaca-se pela originalidade, pela experimentação de diferentes linguagens e pelo uso da arte como instrumento de reflexão crítica sobre a sociedade.
Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.
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