Complexo no nordeste goiano reúne rios subterrâneos, formações rochosas, fenômenos de luz e uma das maiores entradas de caverna do Brasil
No nordeste de Goiás, o Parque Estadual de Terra Ronca guarda um dos mais importantes conjuntos de cavernas e grutas da América do Sul. Localizado entre os municípios de São Domingos e Guarani de Goiás, o parque possui cerca de 57 mil hectares e reúne um universo subterrâneo moldado por processos geológicos que ocorreram ao longo de centenas de milhões de anos. Entre os principais atrativos estão as cavernas Terra Ronca I e II, que combinam rios, grandes salões, formações rochosas e fenômenos naturais como o chamado raio azul.
Além das cavernas, a região oferece rios de águas cristalinas, cachoeiras, trilhas, áreas de Cerrado preservado e oportunidades para observação de aves. Por isso, Terra Ronca se tornou um destino procurado por quem busca ecoturismo, turismo de aventura e contato com ambientes naturais pouco modificados.
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O Parque Estadual de Terra Ronca fica no nordeste goiano, na divisa de Goiás com a Bahia. A unidade abrange áreas dos municípios de São Domingos e Guarani de Goiás, com a Serra Geral como uma das principais referências da paisagem.
Para quem sai de Goiânia, o deslocamento até o Parque Estadual de Terra Ronca passa de 580 quilômetros por estrada, o que representa uma viagem de várias horas. Por isso, a região costuma exigir planejamento, principalmente para quem pretende conhecer mais de uma caverna e outros atrativos durante a mesma viagem.
Os principais pontos de apoio para os visitantes ficam em São Domingos, no distrito de São João Evangelista, e em Guarani de Goiás. A chegada à região ocorre por estradas que partem da BR-020, importante ligação entre Brasília e Barreiras. Dentro da área do parque, alguns deslocamentos seguem por estradas de terra.
O Parque Estadual de Terra Ronca foi criado em 1989 com o objetivo de preservar a fauna, a flora, os mananciais e, principalmente, as cavidades naturais subterrâneas e seus arredores. A delimitação da unidade ocorreu posteriormente, em 1996.
A formação do complexo de cavernas de Terra Ronca remonta a cerca de 620 milhões de anos. A ação da água sobre as rochas ao longo do tempo contribuiu para a criação de galerias, salões, rios subterrâneos e diferentes tipos de espeleotemas.
O próprio nome Terra Ronca está ligado ao som produzido pela água e pelas cavidades subterrâneas. Segundo o guia Ramiro Hilário, moradores que passavam pela região com animais ouviam um barulho semelhante a um “ronco” vindo do interior da terra.
A história do parque também passa pela pesquisa científica. Desde o século XIX, exploradores e pesquisadores registram características da região. Posteriormente, expedições espeleológicas mapearam cavernas e ajudaram a transformar Terra Ronca em uma área de referência para estudos sobre geologia, hidrologia, fauna e flora subterrâneas.

A Caverna Terra Ronca I é um dos principais símbolos do parque. A entrada impressiona pelas dimensões: a abertura chega a aproximadamente 96 metros de altura e 120 metros de largura, criando uma paisagem que pode ser observada ainda do lado de fora.
O caminho até a entrada acompanha o rio da Lapa e passa por vegetação nativa. Conforme o visitante se aproxima, a água cristalina do rio conduz até a boca da caverna, onde aparecem as primeiras formações rochosas.
Dentro da Terra Ronca I, o visitante encontra grandes salões e diferentes espeleotemas. Um dos destaques é o Salão dos Namorados, além de trechos nos quais o rio da Lapa atravessa o interior da caverna.
A travessia também proporciona momentos de aventura. Em determinado ponto, é necessário atravessar o rio para continuar o percurso. Por isso, o visitante precisa seguir as orientações do condutor e utilizar os equipamentos adequados.
Na entrada existe ainda um espaço ligado à tradição religiosa da região. O local abriga um altar e a chamada Sala dos Milagres, onde romeiros deixam objetos e oferendas relacionados à devoção ao Bom Jesus da Lapa.

A Terra Ronca II pertence ao mesmo sistema cavernoso da I. As duas partes são separadas por um trecho aberto formado após um desmoronamento.
Durante a travessia da Terra Ronca I, o visitante atravessa o rio da Lapa para chegar à outra margem. Depois, uma trilha em meio à mata nativa conduz até a entrada da Terra Ronca II. Portanto, o acesso entre as duas partes combina a travessia do rio dentro da Terra Ronca I com o percurso por terra até a segunda entrada.
Um dos momentos mais conhecidos da visita acontece no salão principal da Terra Ronca II. Entre abril e julho, por volta das 13h, a posição do sol permite que seus raios atravessem uma abertura da caverna. A umidade presente no interior contribui para que o feixe de luz adquira uma coloração azulada, criando o chamado raio azul.
Como o fenômeno depende da posição do sol e de condições específicas de iluminação, o raio azul não pode ser observado durante todo o ano. Por isso, quem pretende conhecer a atração deve considerar o período indicado pelo parque e se informar previamente com os condutores locais.

As cavernas de Terra Ronca não chamam atenção apenas pela beleza. Elas também funcionam como ambientes importantes para pesquisas científicas.
As formações conhecidas como estalactites, estalagmites e outros espeleotemas são resultado de processos geológicos que ocorrem durante longos períodos. A análise dessas estruturas pode ajudar pesquisadores a compreender mudanças ambientais ocorridas ao longo do tempo.
A presença de rios subterrâneos também aumenta a importância da região. A água participa diretamente da formação e da transformação das cavernas, enquanto os mananciais da Serra Geral alimentam diferentes cursos d’água que atravessam o território.

Terra Ronca I e II são apenas parte do complexo. Atualmente, o Governo de Goiás informa que cinco cavernas estão abertas à visitação: Terra Ronca I e II, Angélica, São Bernardo e São Mateus.
Lapa Angélica: a Lapa Angélica está entre os destaques do parque pela variedade de ambientes e formações. A caverna possui cerca de 14 quilômetros de extensão e apresenta salões com espeleotemas de diferentes formatos e cores.
Entre os ambientes citados pelo parque estão o Salão dos Tubarões, o Corredor do Cérebro, o Salão das Cortinas, o Salão dos Canudos e o Salão dos Espelhos.
Lapa São Bernardo: o sistema São Bernardo reúne galerias relacionadas aos rios São Bernardo e Palmeiras. O percurso apresenta desníveis, rios e formações de calcita.
Um dos pontos interessantes da visita é o encontro dos rios dentro da caverna, além das formações que aparecem nas galerias.
Lapa São Mateus: a Lapa São Mateus está entre os grandes sistemas cavernícolas da região. O acesso apresenta trechos mais exigentes e requer preparo físico, equipamentos adequados e acompanhamento especializado.
No interior, o visitante encontra salões com grande quantidade de formações rochosas. A dimensão da caverna também faz dela um dos ambientes mais relevantes do parque para a exploração espeleológica.
Quem pretende conhecer as cavernas precisa preparar a viagem com antecedência. O parque estabelece regras específicas para garantir a segurança dos visitantes e preservar o ambiente subterrâneo.
Entre os itens obrigatórios estão lanterna portátil, baterias reservas, calçado fechado e antiderrapante e capacete específico. O parque também recomenda roupas adequadas, como calças e camisetas com mangas.
Além disso, o grupo precisa permanecer acompanhado por um condutor credenciado e seguir unido durante o percurso. A entrada de pessoas alcoolizadas ou com bebidas alcoólicas é proibida.
O visitante também não deve tocar ou subir nas formações rochosas. Esses cuidados ajudam a preservar estruturas que levaram milhares ou milhões de anos para se formar.

A relação entre turismo e comunidade aparece como um dos elementos centrais do desenvolvimento da região. Em entrevista ao Semeia, o coordenador do Parque Estadual de Terra Ronca, Wesley Andrade, destacou o crescimento do turismo de experiência na área.
“Hoje, o Parque de Terra Ronca é muito procurado por quem busca um turismo de experiência real.”
Segundo Andrade, a atividade turística também pode contribuir para a geração de renda e para a conservação do território. A participação de moradores como condutores, prestadores de serviços e trabalhadores ligados à cadeia turística fortalece essa relação.
O guia local Rivaldo Vieira de Souza, que nasceu e cresceu no entorno do parque, também descreveu a importância da unidade para a comunidade.
“Esse parque foi a melhor coisa que aconteceu no município de São Domingos.”
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Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.
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