Produção explora a trajetória de três mulheres que marcaram a história do movimento espiritual ocidental
Nos cinemas brasileiros a partir do segundo semestre de 2026, “The Fox Sisters” chegará como uma produção ambiciosa que resgata a narrativa de três irmãs norte-americanas cujas contribuições moldaram o espiritualismo moderno ocidental. Escrito, dirigido e produzido por Wagner de Assis — criador da franquia bem-sucedida “Nosso Lar” — o longa examina eventos reais iniciados em março de 1848, quando fenômenos inexplicáveis começaram a ocorrer na residência rural onde Kate e Maggie Fox viviam adolescentes na costa Leste dos Estados Unidos.
A distribuição é responsabilidade da Film Connection Distribuidora, com apoio da Cinética Filmes e Buena Vista Internacional. O filme recém apresentou seu trailer oficial, que oferece ao público uma janela para a atmosfera da produção e os conflitos enfrentados pelas três mulheres — Leah, Maggie e Kate — em uma sociedade que rejeitava suas descobertas espirituais tanto quanto questionava sua credibilidade.
A história tem origem em 1848, quando ruídos estranhos e batidas inexplicáveis ecoaram pelas paredes da fazenda ocupada pela família Fox em Hydesville, Nova York. Aquilo que inicialmente causava terror às adolescentes se transformaria em um método de comunicação: os espíritos, segundo suas convicções, batiam as paredes de forma codificada para transmitir mensagens. Com a orientação da irmã mais velha, Leah Fox, as jovens desenvolveram técnicas de mediação que logo evoluíram para sessões formais.
O fenômeno ganhou atenção quando começaram a realizar sessões mediúnicas públicas, que rapidamente lotavam teatros nos Estados Unidos. As famílias enlutadas procuravam as irmãs na esperança de receber mensagens de entes queridos falecidos. O movimento se expandiu para além das fronteiras americanas, alcançando a Europa e transformando as Fox em celebridades internacionais durante a segunda metade do século XIX.
As mesas girantes — uma prática associada ao espiritualismo que as irmãs ajudaram a popularizar — tornaram-se fenômeno cultural de proporções significativas. Em seu auge, as três mulheres eram entre as pessoas mais reconhecidas da América do Norte, comparáveis em fama a celebridades contemporâneas.
Na costa Leste americana do século XIX, uma região profundamente tradicional e conservadora, a ideia de jovens mulheres comunicando-se com espíritos desafiava não apenas a religião estabelecida, mas toda a estrutura social da época. Acusadas de fraude por céticos e cientistas, investigadas rigorosamente por autoridades, as irmãs enfrentaram pressão extrema vinda simultaneamente de múltiplos lados.
Além do escrutínio público, precisavam lidar com dinâmicas familiares perturbadas pelos próprios fenômenos que experimentavam. O peso do preconceito, o medo social e a hostilidade de grupos que as consideravam bruxas — com alguns chegando ao ponto de desejar sua morte — criaram uma atmosfera de isolamento e vulnerabilidade que marcou suas vidas pessoais e emocionais.
Paradoxalmente, enquanto eram procuradas por multidões sedientas de experiências sobrenaturais, enfrentavam deslegitimação constante de instituições. Essa contradição — celebridade e rejeição simultâneas — define a complexidade de suas existências que o filme se propõe a explorar.
A realização de “The Fox Sisters” representa um projeto de escala considerável, com elenco multinacional liderado pelas atrizes norte-americanas Jamie Hughes (interpretando Leah), Sionne Elise (Maggie) e Marie Mchugh (Kate). A produção perseguiu autenticidade histórica de maneira meticulosa.
As gravações ocorreram em casarões antigos do Rio de Janeiro, bem como em fazendas e casarios nos Estados Unidos, com o objetivo deliberado de recriar com precisão a estética da zona rural do século XIX norte-americano. O filme aborda três momentos distintos da história das irmãs: 1858, 1868 e 1888, permitindo ao espectador acompanhar a evolução de suas vidas e do movimento que as cercava.
“Esse pioneirismo todo teve um preço alto. Elas tiveram que enfrentar seus próprios medos frente a fenômenos inexplicáveis”, explica Wagner de Assis sobre o projeto. “Imagine essas jovens na costa Leste dos Estados Unidos, profundamente tradicional, se comunicando com espíritos? Tudo parecia magia ou invenção. Elas foram investigadas ao extremo e ainda sofreram com as dificuldades internas, comuns a uma família assolada por esses fenômenos.”
O diretor enfatiza que o longa funciona como “um filme de reparação com a realidade dos fatos — porque até hoje não se sabe realmente sobre elas, que eram consideradas uma fraude por muitas fontes. E é também um reconhecimento delas, como pessoas fundamentais para a história do espiritualismo.”
Para Assis, a narrativa também opera em outra dimensão: “Do ponto de vista cinematográfico, é uma história de ascensão e queda de mulheres importantes que a história tentou apagar.”
O movimento espiritista que as irmãs Fox ajudaram a fundar não era fenômeno marginal ou passageiro. Quando Kate e Maggie começaram suas sessões mediúnicas em 1848, havia busca genuína por respostas espirituais em período de grande transformação social e científica. A Revolução Industrial estava redefinindo a vida americana, destruindo certezas tradicionais e criando vácuo existencial especialmente entre grupos de enlutados.
O espiritismo oferecia algo que nem a ciência nem a religião institucionalizada proporcionavam: acesso direto ao mundo espiritual e possibilidade de comunicação com entes falecidos. Em apenas duas décadas, o movimento havia conquistado milhões de seguidores em múltiplos continentes. Figuras públicas, intelectuais e até cientistas respeitados participavam de sessões e debatiam seriamente a autenticidade dos fenômenos.
A base teórica do espiritualismo moderno está documentada em obra recentemente lançada no Brasil: “O Elo Perdido no Espiritualismo Moderno”, da autoria de Leah Fox — a irmã mais velha — que fornece material histórico essencial sobre o movimento. O filme, segundo produtoras, utiliza essa e outras fontes bibliográficas como fundamento para recriar com credibilidade os eventos que moldaram a história das Fox.
A revisão histórica que “The Fox Sisters” propõe é relevante porque, durante décadas, a maioria das narrativas sobre as irmãs as retratou como fraudulentas ou instáveis psicologicamente. O cinema oferece oportunidade de reexaminar suas contribuições para a história cultural ocidental através de lente mais compreensiva.
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