Coágulos podem se formar sem sinais aparentes e provocar embolia pulmonar, enquanto cirurgia, imobilidade, câncer e gestação estão entre os fatores de risco
A trombose ocorre quando há formação de um coágulo, chamado trombo, capaz de dificultar ou interromper a circulação sanguínea. Uma das formas de maior relevância clínica é a trombose venosa profunda (TVP), que geralmente se desenvolve nas veias profundas das pernas e pode levar à embolia pulmonar. No Brasil, foram registrados mais de 75 mil casos em 2024 e outros 36 mil no primeiro semestre de 2025, segundo dados do Ministério da Saúde.
Um dos desafios é que a TVP nem sempre provoca manifestações perceptíveis. O cirurgião vascular Fábio Cypreste, que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, explica que inchaço diferente do habitual em uma das pernas, dor ou sensibilidade, sensação de calor, vermelhidão e mudança na cor da pele estão entre os sinais que merecem atenção.
O caráter silencioso da doença também é apontado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC. Segundo o órgão, cerca de metade das pessoas com trombose venosa profunda não apresenta sintomas.
“Se uma pessoa apresenta falta de ar súbito, dor no peito, coração acelerado, tontura, principalmente se isso vier de repente, precisamos pensar na embolia pulmonar, nesse caso é necessário procurar uma emergência. A trombose da perna pode ser silenciosa, o problema é quando o coágulo se desprende e chega ao pulmão”, alerta Fábio Cypreste.
A embolia pulmonar pode ocorrer quando parte de um coágulo se desprende, percorre a circulação e chega aos pulmões. Trata-se de uma complicação potencialmente grave que exige atendimento médico imediato.
Entre os possíveis sinais, o CDC relaciona falta de ar, dor ou desconforto no peito, batimentos cardíacos acelerados ou irregulares, tontura, desmaio e tosse, inclusive com sangue.
O Ministério da Saúde também chama atenção para sintomas como dor no peito, falta de ar, tosse repentina, sudorese e tontura diante de um quadro de embolia pulmonar.
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Embora qualquer pessoa possa desenvolver um coágulo, determinadas condições aumentam a probabilidade. Cirurgias, internações, períodos prolongados sem movimentação, fraturas e traumas nas pernas estão entre as situações que exigem atenção.
“Os principais são as pessoas que passaram por uma cirurgia ou internação recente, que ficaram muito tempo imobilizadas, que tiveram uma fratura ou um acidente na perna, pacientes que estão tratando câncer, as gestantes e mulheres no período após o parto”, detalha Cypreste.
“Existe ainda uma predisposição genética chamada trombofilia, que pode aumentar o risco em algumas pessoas, e quanto mais fatores de risco se somam, maior a atenção devemos ter”, completa.
O CDC também relaciona ao tromboembolismo venoso, termo que engloba a TVP e a embolia pulmonar, fatores como câncer e seu tratamento, obesidade, histórico anterior de trombose, antecedentes familiares, imobilidade e alterações hereditárias que favorecem a coagulação.
A gestação altera naturalmente o sistema de coagulação. Segundo o CDC, a gravidez aumenta em cinco vezes o risco de formação de coágulos. As mulheres permanecem sob risco aumentado durante a gestação, o parto e também nos três meses após o nascimento do bebê.
O órgão explica que, durante a gravidez, o sangue coagula com maior facilidade, mecanismo que ajuda a reduzir a perda sanguínea durante o parto. Alterações hormonais e mudanças no fluxo de sangue também participam desse processo.
Isso não significa que toda gestante desenvolverá trombose. O risco individual varia e pode aumentar quando existem outros fatores associados.
Evitar períodos prolongados de imobilidade é uma das medidas importantes para reduzir o risco de trombose venosa profunda. Depois de uma cirurgia ou internação, a movimentação deve ser retomada assim que houver segurança e orientação da equipe responsável.
Em viagens longas, permanecer sentado por várias horas também merece atenção. O CDC considera que deslocamentos prolongados, especialmente os que duram quatro horas ou mais, podem aumentar o risco de formação de coágulos devido à imobilidade.
Para a maioria das pessoas, porém, o risco relacionado exclusivamente à viagem é considerado pequeno. A probabilidade aumenta quando existem outros fatores, como cirurgia ou lesão recente, obesidade, gravidez e pós-parto, uso de contraceptivos com estrogênio, histórico anterior de coágulos, câncer ou alterações hereditárias da coagulação.
Levantar periodicamente, caminhar e movimentar as pernas ajudam a reduzir o tempo de imobilidade. Manter-se fisicamente ativo e buscar um peso adequado também fazem parte dos cuidados gerais.
A prevenção medicamentosa, por outro lado, não é indicada de forma indiscriminada e depende da avaliação do risco individual.
“Quem está em situação de alto risco, como uma cirurgia de grande porte, internação, câncer, histórico prévio de já ter tido trombose ou gestação, a prevenção é através do uso de medicação, os anticoagulantes. Além disso, também utilizamos as botas de compressão pneumática e as meias elásticas”, detalha o médico Fábio Cypreste.
A idade jovem não elimina a possibilidade de desenvolver trombose. Cirurgia, gravidez, período após o parto, câncer, imobilização, obesidade e alterações que favorecem a coagulação podem modificar o risco mesmo entre pessoas mais novas.
“Em uma pessoa jovem precisamos procurar situações que aumentem a coagulação ou diminuam a circulação de sangue. Gravidez, pós-partos, cirurgias, imobilização, obesidade, tratamento de câncer e as trombofilias, as alterações genéticas. Mas uma pessoa jovem e saudável não deve viver com medo de trombose, o mais importante é reconhecer quando existe uma situação de maior risco e saber identificar os sinais de alerta”, pontua o cirurgião vascular.
Métodos contraceptivos que contêm estrogênio estão associados ao aumento do risco de formação de coágulos. O CDC inclui os contraceptivos com estrogênio entre os fatores que podem elevar a possibilidade de TVP e embolia pulmonar.
O risco deve ser analisado de acordo com o perfil individual e a presença de outros fatores de saúde.
“Em algumas situações, o uso de anticoncepcionais pode elevar o risco de trombose. Os combinados, que têm a composição dos estrógenos e dos progestágenos, podem aumentar a chance, mas ele é muito baixo na maioria das mulheres saudáveis. O problema é que, quando usa esses tipos de hormônios associado a tabagismo, obesidade, histórico familiar ou pessoal de trombose, pacientes já portadores de trombofilia ou as pacientes que têm doenças que predispõem a formação de trombos como câncer, pode levar a trombose. Em resumo, o anticoncepcional não é o vilão, o problema é usar um método que não seja adequado ao seu perfil”, explica Cypreste.
Passar por um procedimento cirúrgico não significa que o paciente necessariamente desenvolverá trombose. O risco varia conforme fatores como o tipo e a duração da cirurgia, as condições clínicas individuais e o tempo de imobilização.
“A cirurgia pode aumentar temporariamente o risco de trombose, porque existe uma combinação dos fatores, o organismo fica mais propenso à coagulação, há uma resposta inflamatória e muitas das vezes o paciente fica mais parado e o sangue circula de forma mais lenta, mas o risco não é igual para todas as cirurgias, uma pequena, de curta duração em uma pessoa saudável tem um risco muito diferente. Antes e depois de uma cirurgia a equipe médica vascular deve avaliar o risco de cada paciente e quando dedicado fazer a prevenção adequada”, destaca o especialista.
O uso de testosterona requer avaliação individual e acompanhamento dos efeitos do tratamento. Segundo Cypreste, o hormônio não deve ser automaticamente apontado como causa de trombose, mas alterações sanguíneas relacionadas ao uso precisam ser acompanhadas.
“A testosterona não deve ser usada simplesmente para melhorar a disposição ou como tratamento anti-envelhecimento, quando realmente indicada deve ser prescrita na dose adequada e com acompanhamento médico, principalmente a avaliação desse aumento dos glóbulos vermelhos no sangue. O problema não é simplesmente usar, é usar testosterona sem indicação, em doses inadequadas ou sem acompanhar os efeitos que ela produz no sangue.”
Tabagismo, excesso de peso e períodos prolongados de pouca movimentação também devem ser considerados na avaliação do risco individual.
“O cigarro provoca inflamação e alteração nos vasos e no sistema de coagulação. Já o sedentarismo, principalmente quando significa ficar muitas horas parados, o sobrepeso, favorece a estagnação do sangue nas pernas e pode contribuir para a formação de coágulos. Por isso, parar de fumar e manter-se fisicamente ativo, no peso ideal, são medidas simples que ajudam a proteger não apenas a trombose, mas também o risco de infarto, AVC e outras doenças cardiovasculares”, salienta o cirurgião vascular, que também é vice-presidente da regional Goiás da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.
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O Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose foi instituído pela Lei nº 12.629, de 11 de maio de 2012, e é celebrado anualmente em 16 de setembro.
Segundo o Ministério da Saúde, a mobilização busca ampliar a conscientização sobre a doença, reduzir casos não diagnosticados e estimular ações de prevenção, diagnóstico e tratamento.
A legislação brasileira sobre o tema foi alterada em 2026. A Lei nº 15.448, de 30 de junho de 2026, acrescentou à legislação de 2012 a determinação de que hospitais públicos e privados e unidades de saúde que ofereçam internação mantenham estrutura destinada a promover ações profiláticas relacionadas ao tromboembolismo venoso, na forma de regulamento.
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