Aleitamento materno chega a 59% no SUS e exige rede de apoio às mães

Dados de 2026 apontam recorde entre bebês acompanhados na Atenção Primária, enquanto profissionais destacam assistência, ordenha e suporte às mulheres

Aleitamento materno chega a 59% no SUS e exige rede de apoio às mães

O aleitamento materno exclusivo chegou a 59% dos bebês de até seis meses acompanhados pela Atenção Primária à Saúde do SUS em 2026, segundo levantamento parcial do Ministério da Saúde. O resultado, divulgado durante o Agosto Dourado, ocorre no ano em que a Semana Mundial do Aleitamento Materno adota o tema “Amamentação para um começo de vida sustentável: fortalecer o que funciona” e direciona a atenção para medidas capazes de apoiar mães e bebês durante a amamentação.

O percentual de 2026 é o maior da série histórica iniciada em 2015 e supera os 57% registrados em 2024 e 2025. Entre as estratégias relacionadas à continuidade da amamentação estão informação de qualidade, assistência especializada, apoio familiar, profissionais capacitados e políticas de proteção às mulheres, inclusive no período de retorno ao trabalho.

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Aleitamento materno é recomendado até dois anos ou mais

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida. Depois desse período, a orientação é manter a amamentação associada à alimentação complementar até os dois anos ou mais.

Para a fonoaudióloga do Hospital Mater Dei Goiânia Alessandra Santos, uma experiência positiva depende de uma rede preparada para atender mãe e bebê diante das dificuldades que podem surgir nos primeiros dias.

“Amamentar é natural, mas isso não significa que seja fácil. Muitas mães enfrentam dor, insegurança, dificuldades na pega, na sucção ou na coordenação entre sucção, deglutição e respiração. Por isso, o apoio adequado desde os primeiros dias pode fazer toda a diferença”, explica Alessandra Santos, fonoaudióloga do Hospital Mater Dei Goiânia.

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Fonoaudiologia avalia sucção, deglutição e respiração do bebê

A Fonoaudiologia faz parte da equipe multiprofissional que acompanha o aleitamento materno. Entre as atribuições do fonoaudiólogo estão a avaliação das funções orais do bebê, como sucção, deglutição e respiração, e a identificação de fatores que possam prejudicar a eficiência ou o conforto durante a mamada.

Dificuldades de pega e sucção, alterações na mobilidade da língua, prematuridade e situações relacionadas à internação neonatal podem demandar avaliação especializada.

“O nosso trabalho não é apenas olhar para a boca do bebê. É compreender o binômio mãe-bebê, identificar as dificuldades e construir estratégias individualizadas junto à família e aos demais profissionais”, afirma Alessandra.

A fonoaudióloga também chama atenção para a necessidade de dividir a responsabilidade pela amamentação entre a mulher e sua rede de apoio.

“Precisamos deixar de colocar sobre a mãe toda a responsabilidade pelo sucesso da amamentação. Ela precisa de informação, acolhimento e uma rede de apoio que saiba como ajudá-la. Fortalecer o que funciona também é fortalecer quem amamenta.”

Segundo Alessandra, o acompanhamento deve começar durante a gestação e prosseguir depois do nascimento, com orientação no pré-natal, suporte na primeira mamada, acompanhamento após a alta e acesso a profissionais capacitados.

“Quando uma mulher encontra dificuldades, ela precisa saber que não está sozinha e onde buscar ajuda. Amamentação é uma responsabilidade compartilhada entre família, profissionais de saúde, comunidade e sociedade”, conclui.

Mito do leite fraco pode afetar a confiança das mães

Entre as dificuldades enfrentadas durante o aleitamento está a crença de que o leite materno seria insuficiente ou fraco. O pediatra cooperado da Unimed Goiânia Dr. Fernando Pacéli aponta que comentários de familiares, vizinhos e pessoas próximas podem interferir na confiança da mulher.

“Um dos principais é o desestímulo causado por pessoas próximas que, sem querer, minam a confiança da mãe. Uma pega inadequada também pode comprometer o processo. O pediatra tem o dever de orientar e, quando necessário, prescrever medicações que auxiliem na melhora dessa produção”, ressalta Dr. Fernando Pacéli, pediatra cooperado da Unimed Goiânia.

Além da pega inadequada, o desestímulo pode prejudicar o processo de amamentação e contribuir para dúvidas sobre a produção de leite.

Amamentação oferece proteção à saúde da mãe

Os benefícios do aleitamento materno incluem proteção imunológica, desenvolvimento cognitivo e vínculo afetivo para o bebê. A amamentação também está relacionada à proteção da saúde materna.

“A amamentação é considerada um fator protetor contra o câncer de mama. Durante esse período, a ovulação é frequentemente suprimida, o que reduz os níveis de estrogênio circulante. O excesso desse hormônio está associado ao risco de aparecimento da doença”, sublinha Dr. Fernando Pacéli.

Nos casos em que a mulher não consegue amamentar, o pediatra defende que o acolhimento seja priorizado e que a alimentação do bebê siga orientação profissional.

“Nem sempre a amamentação prospera por inúmeros fatores. Essa mãe jamais deverá ser julgada. Ela deve seguir as orientações do pediatra quanto ao volume, à fórmula e ao modo de preparo, e nunca decretar como fracasso o fato de não ter conseguido amamentar”, acrescenta Dr. Fernando Pacéli.

Doação de leite beneficiou 4,1 milhões de recém-nascidos

Entre 2020 e 2025, 3,6 milhões de mães doadoras contribuíram com mais de 4,2 milhões de litros de leite materno coletados no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. As doações beneficiaram 4,1 milhões de recém-nascidos prematuros e de baixo peso.

O armazenamento seguro desse leite depende de recipientes adequados. Em Goiânia, o Projeto Potinhos do Amor, do Instituto Unimed Goiânia, arrecada potes de vidro destinados a esse processo.

O diretor-presidente da Unimed Goiânia, Dr. Lueiz Amorim Canedo, informa que mais de 2,4 mil unidades foram destinadas a duas instituições.

“Essa ação mobiliza nossa rede cooperativista para garantir que o leite materno chegue com segurança a bebês que dependem dele para sobreviver. Até o momento, mais de 2400 potes já foram destinados ao Hospital da Mulher e à Maternidade Nascer Cidadão”, afirma Dr. Lueiz Amorim Canedo, diretor-presidente da Unimed Goiânia.

O presidente do Instituto Unimed Goiânia e diretor de Mercado da cooperativa, Dr. Frederico Xavier, destaca a participação da sociedade nas doações.

“Esse pequeno gesto de arrecadar potes de vidro mostra como a participação da sociedade pode contribuir para fortalecer a rede de apoio à amamentação. São doações que beneficiam bebês que precisam desse alimento”, destaca Dr. Frederico Xavier.

Retorno ao trabalho exige planejamento para manter o aleitamento materno

A volta às atividades profissionais pode modificar a rotina de amamentação e gerar dúvidas sobre a manutenção da produção de leite. A orientação do Ministério da Saúde é que a ordenha seja utilizada para manter o estímulo durante os períodos em que mãe e bebê permanecem separados.

A pediatra e coordenadora da UTI Neonatal do Mário Palmério Hospital Universitário, Débora Martins, orienta que a preparação seja iniciada antes do retorno. O planejamento inclui organizar horários, estabelecer momentos para a retirada do leite e definir como ele será oferecido ao bebê.

“É importante que a mãe se organize previamente, considerando os horários de trabalho e os momentos em que poderá realizar a ordenha. Esse planejamento contribui para a manutenção da produção de leite e também para que o bebê continue recebendo o leite materno durante o período em que ela estiver fora”, orienta Débora Martins, médica pediatra e coordenadora da UTI Neonatal do Mário Palmério Hospital Universitário.

Ordenha ajuda a preservar a produção de leite materno

A produção do leite está ligada ao estímulo das mamas, realizado pela sucção do bebê ou pela extração manual ou com bomba. Durante o período de afastamento da criança, a mulher pode fazer a ordenha algumas vezes ao dia, conforme a rotina e a necessidade.

Antes da retirada, as mãos devem ser higienizadas e o leite precisa ser colocado em recipiente apropriado. A identificação deve registrar a data e o horário da ordenha para facilitar o controle do armazenamento.

De acordo com as orientações do Ministério da Saúde, o leite materno pode permanecer por até 12 horas na geladeira e até 15 dias no congelador, desde que sejam respeitadas as condições adequadas de armazenamento.

Para oferecê-lo ao bebê, o descongelamento deve ser realizado de forma segura, preferencialmente na geladeira. O aquecimento pode ser feito em banho-maria morno. O uso de micro-ondas não é recomendado.

Amamentação pode continuar depois da volta ao trabalho

O retorno ao trabalho não precisa determinar o encerramento da amamentação. Nos períodos em que mãe e bebê estiverem juntos, a orientação é priorizar o peito, principalmente antes e depois do expediente.

“Os períodos de ausência da mãe não precisam representar o fim da amamentação. Nos momentos em que estiver com o bebê, ela pode priorizar a amamentação diretamente no peito, especialmente antes e depois do trabalho. A partir dos seis meses, outros alimentos passam a fazer parte da alimentação da criança e podem ser oferecidos nos horários em que a mãe estiver ausente, sempre de acordo com a orientação do pediatra”, explica Débora.

Além da alimentação, colo, contato físico, olhar, carinho e interação durante os períodos de convivência contribuem para o vínculo entre mãe e filho. Familiares, cuidadores e profissionais de saúde também podem participar da organização da rotina e do suporte à mulher.

Política nacional amplia ações de apoio à amamentação

Desde outubro de 2024, o país conta com o Programa Nacional de Promoção, Proteção e Apoio à Amamentação, instituído pelo Ministério da Saúde para qualificar ações relacionadas ao aleitamento nas Redes de Atenção à Saúde.

A orientação individualizada ganha importância durante mudanças na rotina, especialmente diante de dúvidas sobre ordenha, armazenamento e oferta do leite.

“Cada mãe e cada bebê têm uma realidade. Por isso, informação e orientação profissional são fundamentais para que esse momento de transição aconteça da melhor maneira possível. A volta ao trabalho pode exigir adaptações, mas não deve representar o encerramento da amamentação”, finaliza Débora.

Mulheres com dúvidas sobre ordenha, armazenamento do leite materno, oferta ao bebê ou continuidade da amamentação devem procurar profissionais de saúde capacitados para receber orientações individualizadas.


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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