Game é conhecido por seu mundo denso e bem construído, e bebeu de diversas tradições medievais para desenvolver seus temas
“Na Era dos Antigos, o mundo era disforme, cercado por névoa. Uma terra de penhascos cinzentos, árvores colossais, e Dragões Eternos. Mas então, veio o fogo. E com o fogo, surgiu a disparidade. Calor e frio. Amor e morte. E é claro… A luz e as trevas.
Então, da escuridão, eles vieram e encontraram as Almas dos Lordes dentro da chama. Nito, o Primeiro dos Mortos, A Bruxa de Izalith e suas Filhas do Caos, Gwyn, o Lorde da Luz Solar, e seus fiéis cavaleiros. E o Pigmeu Furtivo, tão facilmente esquecido.
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Com a força dos Lordes, eles desafiaram os Dragões. Os poderosos raios de Gwyn separaram suas escamas de pedra. As Bruxas teceram grandes tempestades de fogo. Nito desencadeou uma miasma de morte e doença. E Seath, o Dragão Sem Escamas, traiu os seus, e os Dragões não existiam mais.”
Esse é o texto que abre o clássico Dark Souls (2011) que, com muitas simbologias e possibilidades de interpretação, marcou a indústria e refinou uma técnica de narrativa conhecida como narrativa ambiental, em que a construção de mundo, simbologias e pequenos detalhes importam mais para o contexto geral do que diálogos expositivos e longas cinemáticas. A história está espalhada em pequenos fragmentos. Os Dragões, especificamente, funcionam como um desses fragmentos — não apenas como inimigos, mas como o símbolo que sustenta a própria estrutura simbólica de Lordran.
Na cinemática de abertura, uma das poucas cenas com diálogos em todo o jogo, é passado ao jogador um contexto conciso do mundo. Um mundo difuso, onde habitavam apenas Dragões Imortais, até serem “traídos” por Seath, um dragão sem escamas que colaborou com os deuses revelando como destruir sua própria raça, cuja fraqueza é o raio. A partir dessa erradicação, iniciou-se a era do fogo e os conflitos dos opostos que, nesse universo, parecem irreconciliáveis.
A simbologia por trás dos Dragões, Raios e Fogo merece análise além da fantasia do próprio universo. Dark Souls busca influências simbólicas do paganismo, gnosticismo e, principalmente, da alquimia, que explorou profundamente o arquétipo do Dragão.
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Antes de entender o dragão em Dark Souls, é preciso conhecer a base que o jogo utilizou. Nas tradições alquímicas medievais, o Dragão representa simbolicamente a matéria prima do trabalho em busca da Pedra Filosofal, e dos instintos e desejos reprimidos no inconsciente dos alquimistas. Futuramente, inclusive, a alquimia foi estudada como um paralelo ao processo de desenvolvimento cognitivo humano.
O dragão representa a Nigredo, primeira fase da busca, que simbolizava a purificação da alma humana. Nessa fase, a matéria ainda está difusa e sem contorno definido, apresentando-se de maneira imponente, misteriosa e assustadora. O ambiente que abre Dark Souls também expressa essa fase: disforme, cercado por névoa. Uma realidade que ainda não experimentou a ambivalência e a disparidade.
Para avançar até a próxima fase, a Albedo, é necessária a transformação dessa matéria prima. A Nigredo não é ruim, mas um caos que deve ser transformado. No jogo, essa transformação é representada pelo desafio de Gwyn, o Lorde da Luz Solar, que com seus raios solares não é um tirano, mas um agente dessa diferenciação. Contudo, os alquimistas defendiam que a passagem de fase não era marcada pela destruição, mas pela integração, o reconhecimento de que tudo é um, e um é tudo.
O erro crítico de Gwyn, tanto simbolicamente quanto na história, foi negar as dicotomias surgidas com a primeira chama, resultando posteriormente na obsessão pela chama que, simbolicamente, representa o desenvolvimento da consciência. Além disso, Seath, o Dragão Sem Escamas, não pode ser considerado exatamente um traidor. Ao não possuir escamas cinzentas, Seath é reluzente e brilhante, representando um Dragão que já está em outra fase de desenvolvimento, que já passou pela Nigredo e reconhece que o caos primordial deve ser transformado. Entretanto, esse dragão comete o mesmo erro de Gwyn, tentando impor uma ordem onde deveria haver integração.
O Ouroboros, um dragão mordendo a própria cauda, formando um ciclo, é outro símbolo que envolve dragões e foi amplamente estudado por alquimistas. O jogo tem ligação direta com esse símbolo, que representa o ciclo eterno da vida, onde todo morrer é um novo nascer, representado pelo Ciclo do Fogo no jogo.

Gwyn e seus Quatro Lordes, entretanto, cometeram um erro fundamental no processo de desenvolvimento alquímico: mataram os Dragões em raios solares. A Era do Fogo que se segue não é uma realidade definitiva, mas deveria ser apenas mais uma fase e novo início no Ouroboros, mas que está fadada ao fracasso pela negação de que para haver vida, é necessário morte. E vice-versa.
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Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.
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