Mostra “Expressões” reúne mais de 100 obras, já recebeu 20 mil visitantes e pode ser vista até domingo na Vila Cultural Cora Coralina
A exposição “Expressões”, do artista plástico Siron Franco, entra na reta final para visitação em Goiânia. Aberta desde 6 de maio na Vila Cultural Cora Coralina, no Setor Central, a mostra termina na segunda-feira, 31 de agosto, após ter o período prorrogado diante da procura do público.
Desde a abertura, mais de 30 mil pessoas passaram pela exposição, apontada como a maior já realizada sobre a trajetória de Siron Franco. O conjunto, com mais de 100 obras, percorre mais de cinco décadas de produção, dos primeiros trabalhos, na década de 1960, a obras de 2025, e evidencia temas como memória, desigualdade social, violência, autoritarismo e resistência.
A visitação ocorre diariamente, das 9h às 17h. A Vila Cultural Cora Coralina fica no Setor Central de Goiânia e a entrada é gratuita.
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“Expressões” aproxima trabalhos produzidos em diferentes momentos da carreira de Siron Franco, sem limitar o percurso a uma sequência cronológica. Obras separadas por décadas são colocadas em diálogo para mostrar como questões sociais, políticas e humanas permanecem presentes na produção do artista.
O recorte alcança acontecimentos que marcaram Goiás e o Brasil, com referências à ditadura militar, ao acidente radiológico com o césio-137, à violência contra as mulheres, à exclusão social, à desigualdade e ao sincretismo religioso.
A amplitude temporal pode ser percebida em trabalhos como Arca de Noé e Pietà, de 1961, produzidos quando Siron tinha 14 anos, que dividem espaço com obras contemporâneas, entre elas Imigrantes, de 2025.
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Um dos núcleos de maior impacto de “Expressões” é dedicado ao acidente com o césio-137, episódio que marcou a história de Goiânia e passou a ocupar espaço importante na produção artística de Siron Franco.
A expografia foi concebida com referências visuais à cápsula que continha o material radioativo. Durante o dia, o ambiente utiliza elementos que remetem ao aspecto prateado do material; a iluminação azul faz referência ao brilho observado durante o manuseio do césio-137.
O acidente ocorreu em setembro de 1987, depois que um aparelho de radioterapia abandonado foi retirado das antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia. A fonte radioativa acabou violada, provocando a dispersão do césio-137 e a contaminação de pessoas e ambientes em diferentes pontos da capital.
Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, 112,8 mil pessoas foram monitoradas. Desse total, 249 apresentaram significativa contaminação interna e/ou externa. Em 120 casos, a contaminação estava apenas em roupas e calçados, e essas pessoas foram liberadas após a descontaminação. As outras 129 passaram a receber acompanhamento médico regular. Entre os casos mais graves, 14 pacientes foram transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde quatro morreram em decorrência de complicações da Síndrome Aguda da Radiação.
O episódio é considerado o maior acidente radiológico do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear e provocou consequências que ultrapassaram os efeitos da contaminação. Moradores de Goiânia e pessoas diretamente atingidas também enfrentaram estigma e preconceito após a tragédia.
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A relação de Siron Franco com o césio-137 não ficou restrita à representação artística da tragédia. Logo após o acidente, em 1987, o artista produziu uma série de trabalhos sobre a catástrofe, especialmente relacionada à região onde havia vivido durante a juventude.
Na série associada à Rua 57, Siron utilizou terra de Goiânia como matéria pictórica. Pesquisa publicada pela Universidade Federal de Goiás registra que o material foi aplicado às pinturas em um momento em que a cidade enfrentava medo e rejeição provocados pela contaminação.
Parte das pinturas foi apresentada ainda em 1987 na Galeria Montesanti, em São Paulo. O conjunto construiu uma narrativa artística sobre a tragédia e seus impactos sobre Goiânia e a população atingida. A exposição também teve uma finalidade solidária.
Siron também participou de mobilizações contra o preconceito sofrido pela população de Goiás após o acidente. O próprio artista relatou que goianos chegaram a enfrentar rejeição em outros estados e que participou de iniciativas de mobilização e conscientização naquele período.
Para Leopoldo Veiga Jardim, idealizador da exposição “Expressões” em Goiânia, a presença da própria terra goiana nas obras amplia o significado desse conjunto:
“Uma das questões mais comoventes desse conjunto de obras é perceber como Siron incorporou a terra de Goiás em algumas dessas telas, justamente em um momento em que o Estado era visto com desconfiança pelo restante do país, como se tudo aqui estivesse contaminado. Há um gesto profundamente simbólico nisso: transformar a dor coletiva em arte, memória e resistência.“
Para o idealizador, a exposição de Siron Franco em Goiânia é capaz de transformar quem passar pelo local: “O objetivo da mostra é que o visitante não saia indiferente. É uma exposição para ser vivida com profundidade, para que as pessoas possam revisitar a nossa história e, de alguma maneira, sair dali transformadas.”

A violência contra as mulheres forma outro eixo de “Expressões”. Uma instalação sobre feminicídio aparece cercada pela série “Madonas”, criada por Siron Franco entre as décadas de 1970 e 1980.
As obras reelaboram representações associadas à figura da Virgem Maria e estabelecem um contraste entre referências religiosas e questões como violência, desigualdade e vulnerabilidade feminina. A disposição das peças amplia o caráter sensorial do núcleo e coloca o visitante diante de um problema que permanece presente na sociedade brasileira.
O percurso também aborda memória, autoritarismo, exclusão social, desigualdade, sincretismo religioso e resistência cultural. A escolha de aproximar trabalhos de épocas diferentes permite observar a permanência dessas questões ao longo da produção do artista.
Segundo Siron Franco, esse diálogo entre acontecimentos históricos e questões atuais está no centro da proposta da exposição:
“A nossa ideia é trazer reflexões sobre fatos que aconteceram na história e que ainda reverberam na sociedade, por meio da arte. É muito gratificante mostrar obras que têm muito a dizer sobre a cultura, a identidade e a história goiana, brasileira e mundial, além de questões sociais urgentes e necessárias”, destaca o artista.
O percurso de “Expressões” inclui ainda a instalação “Fome”, assinada pelo artista e curador Aguinaldo Coelho. O trabalho amplia a abordagem sobre vulnerabilidade social e desigualdade presente na exposição.
A presença da instalação estabelece um diálogo com temas recorrentes na produção de Siron e ajuda a construir um percurso que não se limita à apresentação da carreira do artista, mas aproxima arte, memória coletiva e problemas sociais.

Natural da cidade de Goiás, Siron Franco construiu uma carreira que ultrapassou as fronteiras do estado. Pintor, escultor, desenhista, gravador, ilustrador e diretor de arte, participou de exposições e bienais no Brasil e no exterior.
A projeção nacional ganhou impulso na década de 1970. Em 1974, Siron recebeu o prêmio de Melhor Pintor Brasileiro na Bienal Nacional de São Paulo. No ano seguinte, recebeu uma premiação internacional na 13ª Bienal Internacional de São Paulo.
Ao longo da carreira, o artista também participou de exposições internacionais e recebeu reconhecimentos em importantes eventos das artes visuais brasileiras.
A permanência de temas sociais em sua produção é apontada por Leopoldo Veiga Jardim como uma das razões para o diálogo da exposição em Goiânia com questões contemporâneas.
“Siron não produz uma arte apenas contemplativa. Sua obra provoca, denuncia, emociona e obriga o espectador a refletir. Temas como violência, intolerância, exclusão, feminicídio, autoritarismo e desigualdade continuam absolutamente presentes na contemporaneidade. Por isso sua produção permanece tão viva e necessária. Existe também algo muito singular em sua linguagem: ele consegue unir força estética e profundidade humana de maneira muito autêntica. A obra de Siron não envelhece porque fala da condição humana”, conclui o idealizador da mostra.

>> SE LIGA
Exposição: Expressões, de Siron Franco
Encerramento: 31 de agosto de 2026
Local: Vila Cultural Cora Coralina - Setor Central, Goiânia (GO)
Horário de visitação: diariamente, das 9h às 17h
Entrada: gratuita
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Jornalista especialista em Cultura, Arte e Entretenimento. Com ampla experiência em assessoria de imprensa para eventos, também compôs redações de vários veículos de comunicação. Já atuou como agente de viagens e agora se aventura no cinema como roteirista de animação. Editora e administradora do portal Gazeta Culturismo
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