Goiânia terá Memorial do Césio-137 quase 39 anos após a tragédia; saiba como será

Lei sancionada prevê acervo histórico, homenagem às vítimas, auditório e centro de pesquisa; endereço e prazo para implantação ainda não foram definidos

Memorial do Césio-137 em Goiânia

Quase 39 anos depois de o brilho azul de uma fonte radioativa mudar a história da capital, o Memorial do Césio-137 em Goiânia passou a existir oficialmente em lei. Sancionada pelo prefeito Sandro Mabel (União Brasil), a Lei 11.692/2026 determina a criação de um espaço dedicado às vítimas, aos profissionais que atuaram na emergência e à preservação dos registros do acidente de setembro de 1987.

A criação ocorre em um momento em que a memória do acidente com Césio-137 em Goiânia voltou a ocupar espaço público, enquanto sobreviventes continuam reivindicando reconhecimento e assistência. Em abril, uma audiência pública chegou a ser realizada no terreno do antigo ferro-velho de Devair Alves Ferreira, um dos imóveis diretamente ligados à disseminação do material radioativo.

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Lei prevê acervo e centro de pesquisa no Memorial do Césio-137 em Goiânia

Memorial do Césio-137 em Goiânia

O Memorial do Césio-137 em Goiânia foi instituído em 27 de agosto, quando Sandro Mabel sancionou a lei aprovada anteriormente pela Câmara Municipal. O projeto é de autoria do vereador Lucas Kitão (Mobiliza) e havia recebido aprovação unânime no Legislativo.

Pelo texto legal, o Museu do Césio-137 deverá homenagear vítimas diretas e indiretas, preservar a história do episódio e seus impactos sociais, culturais e sanitários, além de funcionar como espaço educativo para escolas, universidades e visitantes.

A estrutura poderá contar com exposição permanente formada por acervo histórico, documental e audiovisual. A lei também prevê um espaço de homenagem com os nomes das vítimas, áreas de convivência, auditório e um centro destinado à pesquisa e documentação. Exposições temporárias e atividades científicas e culturais também poderão integrar a programação.

O projeto permite ainda que a Prefeitura estabeleça parcerias com universidades, museus, organizações científicas e outras instituições públicas ou privadas para implantar e administrar o espaço.

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Local ainda não foi escolhido para o Memorial do Césio-137

Memorial do Césio-137 em Goiânia

Apesar da sanção, o Memorial do Césio-137 em Goiânia ainda não possui endereço definido. A Lei 11.692/2026 estabelece apenas que a estrutura deverá ser implantada em uma área pública escolhida pelo Poder Executivo. Também não há prazo fixado na legislação para construção ou abertura ao público.

As despesas deverão sair de dotações orçamentárias próprias, com possibilidade de suplementação, e a Prefeitura poderá utilizar convênios e parcerias para viabilizar o projeto. Lucas Kitão já declarou preferência pela região central de Goiânia, onde se concentram locais diretamente ligados ao caminho percorrido pela fonte radioativa.

O antigo ferro-velho de Devair Alves Ferreira, no Setor Aeroporto, chegou a ser citado publicamente entre os possíveis locais, mas não foi escolhido oficialmente. A definição é relevante porque alguns endereços ainda funcionam como marcas físicas da tragédia. Em abril de 2026, uma audiência promovida pela Associação das Vítimas do Césio-137 foi realizada justamente no lote da antiga Rua 26-A, atual Rua Francisca Costa Cunha D. Tita, onde funcionava o ferro-velho.

Sobreviventes ainda pedem assistência

A criação do Memorial do Césio-137 em Goiânia acontece enquanto parte das pessoas atingidas continua tratando a tragédia como uma questão do presente. Donizeth Rodrigues de Oliveira, que trabalhava no ferro-velho onde o material foi manipulado, relata conviver com diferentes problemas de saúde e diz que ainda busca apoio do poder público.

“Não aguento mais pedir ajuda é como se não tivesse acontecido nada com a gente, espero que o governo faça alguma coisa”, diz Donizeth.

O trabalhador conta ter passado por episódios graves de saúde ao longo da vida.

“Hoje eu tô com vários problemas de saúde, já sofri oito infartos, um AVC, tenho problema nos rins e na tireoide”, afirma Donizeth.

Ao falar sobre as dificuldades enfrentadas desde o acidente, ele acrescenta:

“O governo foi muito negligente com a gente, preciso de ajuda até hoje”, relata o trabalhador.

CARA acompanha radioacidentados

Atualmente, o atendimento especializado é realizado pelo Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves, o CARA, unidade da Secretaria de Estado da Saúde instalada no Setor Aeroporto. Criado em sua atual estrutura em 2011, o centro assumiu funções que antes pertenciam à Superintendência Leide das Neves. A equipe multidisciplinar atua na promoção da saúde, prevenção, diagnóstico e acompanhamento de pessoas relacionadas ao acidente.

Os pacientes são acompanhados por meio do Sistema de Monitoramento dos Radioacidentados, o SISRAD, que reúne informações utilizadas para observar possíveis efeitos tardios da exposição. O atendimento inclui também descendentes de pessoas classificadas em determinados grupos de exposição.

Segundo informação divulgada pela Câmara Municipal em abril de 2026, mais de mil pessoas ainda estavam em acompanhamento no CARA.

População não vive risco atual

Preservar a história no Memorial do Césio-137 em Goiânia também pode ajudar a separar as consequências do acidente de um temor que acompanha a cidade desde 1987: a ideia de que Goiânia permaneceria radioativamente perigosa.

Ivan Salati, diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), também aponta que as condições de controle e segurança mudaram desde o acidente.

“Acreditamos que não vamos ter outro acidente com fonte que venha a preocupar”, afirma Salati.

Além do acompanhamento das pessoas atingidas, o episódio modificou protocolos brasileiros de resposta a emergências radiológicas.

Walter Mendes Ferreira, físico que participou da identificação da fonte em 1987 e atualmente atua na Cnen, aponta entre os avanços posteriores mudanças em radioproteção, caracterização de rejeitos, comunicação pública, descontaminação e atendimento aos radioacidentados.

Tudo começou com um aparelho abandonado

Memorial do Césio-137 em Goiânia

Para compreender o que o Memorial do Césio-137 em Goiânia terá de preservar, é preciso voltar a setembro de 1987. O acidente começou quando Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira retiraram partes de um aparelho utilizado anteriormente em radioterapia das antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia, na região central da capital. A estrutura estava abandonada nas ruínas do imóvel.

Em 13 de setembro, o material foi levado em um carrinho de mão para a casa de Roberto, na Rua 57. A peça pesava cerca de 200 quilos, segundo registros da Secretaria de Estado da Saúde. Os dois homens não sabiam que dentro do equipamento havia uma fonte com césio-137, isótopo radioativo utilizado no aparelho médico.

A fonte continha cloreto de césio, substância altamente solúvel. Segundo a Secretaria da Saúde, o isótopo possui meia-vida física de aproximadamente 33 anos. Isso significa o tempo necessário para que metade dos átomos radioativos presentes em uma determinada quantidade se desintegre.

Brilho azul atraiu famílias

A trajetória do material mudou de escala poucos dias depois. Em 18 de setembro, partes do aparelho chegaram ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira. O material radioativo emitia um brilho azulado no escuro, característica que chamou a atenção de quem não conhecia o risco envolvido. Fragmentos foram levados para outros lugares e distribuídos entre parentes e conhecidos.

A curiosidade transformou o material em algo que circulava entre casas e pessoas. Crianças tiveram contato com a substância. Familiares a tocaram sem qualquer proteção. O cloreto de césio podia contaminar externamente a pele e também entrar no organismo pela inalação, ingestão ou por ferimentos.

Como ninguém sabia inicialmente que os problemas de saúde estavam relacionados à radiação, algumas das primeiras pessoas que passaram mal atribuíram os sintomas a alimentos. A dimensão radiológica da emergência só seria compreendida dias depois.

Maria Gabriela desconfiou da peça

Um dos personagens fundamentais dessa história é Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair. Diante do adoecimento de pessoas próximas, ela começou a desconfiar de que a peça levada ao ferro-velho poderia estar relacionada aos sintomas. Em 28 de setembro, Maria Gabriela levou o material até a Vigilância Sanitária.

A atitude ocorreu antes de qualquer conhecimento técnico da família sobre a presença de radiação e foi decisiva para que as autoridades chegassem à origem do problema. No dia seguinte, 29 de setembro, o físico Walter Mendes Ferreira foi chamado para avaliar a substância.

Walter tinha 29 anos quando recebeu o chamado. Com um equipamento capaz de medir radiações ionizantes, identificou níveis elevados e orientou a evacuação do local. A partir dali, o acidente foi oficialmente reconhecido, a Comissão Nacional de Energia Nuclear foi acionada e a ocorrência posteriormente comunicada à Agência Internacional de Energia Atômica.

A emergência já havia se espalhado por diversos endereços. Técnicos passaram a refazer o caminho percorrido pela fonte, identificar pessoas potencialmente contaminadas, interditar imóveis e medir níveis de radiação. A descontaminação mobilizou profissionais brasileiros e especialistas estrangeiros.

Mais de 112 mil passaram por medição

Memorial do Césio-137 em Goiânia

A escala do acidente com Césio-137 em Goiânia levou milhares de pessoas ao Estádio Olímpico, transformado em um grande ponto de monitoramento. Entre 30 de setembro e 21 de dezembro de 1987, mais de 112,8 mil pessoas passaram por medições. Entre elas, 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente, segundo registros citados pelo IPEN.

O acidente causou quatro mortes reconhecidas como diretamente decorrentes da exposição aguda: Leide das Neves Ferreira, Maria Gabriela Ferreira, Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza. Leide tinha apenas 6 anos. A menina teve intenso contato com o material e se tornou um dos principais símbolos da tragédia. O centro estadual responsável pelo acompanhamento dos radioacidentados hoje leva o nome dela.

Resposta inicial ainda é criticada

Décadas depois, a forma como as autoridades reagiram nos primeiros momentos também integra a discussão sobre o que deve ser registrado pelo Memorial do Césio-137 em Goiânia.

Marcelo Santos Teves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, considera que houve uma falha importante na comunicação pública.

“A grande falha do governo na época foi a de não comunicar de imediato à população para que se houvesse um controle maior da situação”, afirma Marcelo.

Segundo ele, a articulação institucional ganhou força posteriormente, com participação de órgãos públicos no controle da emergência.

A discussão reapareceu em 30 de abril de 2026, quando sobreviventes e familiares participaram de uma audiência pública no próprio terreno onde funcionava o ferro-velho de Devair, no Setor Aeroporto. O encontro foi organizado pela Associação das Vítimas do Césio-137 após o lançamento da produção “Emergência Radioativa”, que recolocou a história do acidente diante de um público nacional.

A entidade defendeu que dramatizações não substituem os relatos de quem viveu a contaminação e suas consequências. A escolha do terreno para a audiência também mostrou a relação entre lugar e memória. Mesmo sem museu, alguns endereços de Goiânia já funcionam como vestígios físicos do episódio.

Seis mil toneladas foram retiradas

Memorial do Césio-137 em Goiânia

A descontaminação não se limitou às pessoas. Casas foram demolidas, objetos pessoais descartados, veículos submetidos à descontaminação e toneladas de materiais retiradas dos locais atingidos. Ao final da operação, aproximadamente 6 mil toneladas de rejeitos radioativos foram produzidas. O material foi destinado a depósitos definitivos em Abadia de Goiás, na Região Metropolitana.

Os rejeitos permanecem sob controle técnico e monitoramento. O episódio também levou à criação e aperfeiçoamento de procedimentos brasileiros para emergências envolvendo fontes radioativas. A dimensão da ocorrência levou o acidente a receber posteriormente classificação nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos, que vai até 7.

O acidente também estigmatizou Goiânia

Os efeitos não ficaram restritos aos terrenos contaminados e aos hospitais. O medo da radiação atravessou as fronteiras de Goiás. Produtos do estado chegaram a enfrentar rejeição em outros mercados, e moradores de Goiânia passaram a conviver com preconceito associado à origem geográfica.

Uma pesquisa acadêmica da Universidade Federal de Goiás registra efeitos sobre setores econômicos e descreve discriminação alimentada pela desinformação sobre radioatividade. O próprio poder público precisou organizar ações simbólicas para demonstrar que a cidade inteira não estava contaminada. Técnicos da Cnen chegaram a participar de uma partida de futebol no Estádio Olímpico como forma de enfrentar o medo generalizado.

Esse aspecto social aparece entre os motivos previstos pela legislação para a criação do Memorial do Césio-137 em Goiânia. A lei determina que o espaço trate não apenas da cronologia do acidente, mas de seus impactos sociais, culturais e sanitários.


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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