Reposição hormonal: quando é indicada, benefícios, riscos e cuidados

Tratamento pode aliviar sintomas da menopausa e do hipogonadismo, mas indicação depende de avaliação clínica, exames e análise individual dos riscos

Reposição hormonal traz qualidad de vida (Foto: Pexels)

A reposição hormonal pode ser indicada para mulheres com sintomas associados à menopausa e para homens com hipogonadismo devidamente diagnosticado, inclusive no Brasil, onde o uso de determinados implantes hormonais é regulado pela Anvisa. O tratamento busca corrigir deficiências hormonais ou controlar sintomas que afetam a qualidade de vida, mas não deve ser utilizado de forma indiscriminada como estratégia contra o envelhecimento, para emagrecimento, estética, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho.

Sintomas como fadiga persistente, alterações do sono, mudanças de humor e redução da libido podem motivar uma investigação hormonal. Essas manifestações, porém, não comprovam isoladamente uma deficiência, já que também podem estar relacionadas a distúrbios do sono, alterações da tireoide, anemia, obesidade, uso de medicamentos, depressão, ansiedade e outras condições clínicas.

Nas mulheres, a transição para a menopausa pode provocar ondas de calor, suores noturnos, alterações do sono, ressecamento vaginal, desconforto durante relações sexuais e mudanças de humor. Nos homens, redução da libido, dificuldade de ereção, perda de massa muscular, aumento da gordura corporal e cansaço também podem aparecer em quadros de deficiência de testosterona, mas os sintomas precisam ser avaliados em conjunto com exames laboratoriais.

O médico nutrólogo Arthur Rocha aponta a necessidade de avaliação individual antes da indicação do tratamento. “A personalização do tratamento é essencial para garantir a eficácia e a adesão ao longo do tempo”, afirma.

Reposição hormonal na menopausa

A terapia hormonal da menopausa é considerada pela The Menopause Society o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores, como ondas de calor e suores noturnos, e para a síndrome geniturinária da menopausa. O tratamento também atua na prevenção da perda de massa óssea e de fraturas durante o período de uso.

Para mulheres saudáveis e sintomáticas com menos de 60 anos ou que estejam nos primeiros 10 anos após o início da menopausa, sem contraindicações, a relação entre benefícios e riscos tende a ser mais favorável. Quando a terapia é iniciada depois dos 60 anos ou após mais de 10 anos do início da menopausa, o balanço pode se tornar menos favorável devido ao aumento dos riscos absolutos de doença coronariana, acidente vascular cerebral, tromboembolismo venoso e demência.

Isso não estabelece uma idade única para interromper a terapia. A continuidade deve ser reavaliada periodicamente de acordo com sintomas, riscos, benefícios e características de cada paciente.

Problemas de sono relacionados às ondas de calor também podem melhorar quando os sintomas vasomotores são controlados. Isso não significa, porém, que a reposição hormonal seja um tratamento específico para todas as causas de insônia.

Reposição hormonal em pessoas mais jovens

A necessidade de tratamento com reposição hormonal não está restrita ao envelhecimento. Mulheres com insuficiência ovariana prematura, caracterizada pela perda da função ovariana antes dos 40 anos, podem necessitar de terapia hormonal. O Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, do Ministério da Saúde, orienta a manutenção do tratamento pelo menos até aproximadamente a idade média da menopausa natural, em torno dos 50 anos, considerando também as contraindicações à terapia hormonal descritas no documento.

Nos homens mais jovens, doenças genéticas, alterações nos testículos, na hipófise ou no hipotálamo, determinados tratamentos oncológicos e outras condições podem causar hipogonadismo. A investigação da origem da deficiência faz parte da avaliação antes da reposição de testosterona.

Hipogonadismo masculino exige diagnóstico

O termo andropausa é utilizado popularmente para descrever mudanças hormonais masculinas relacionadas à idade, mas a redução da testosterona não ocorre de maneira abrupta e universal como acontece com a função ovariana na menopausa.

A Endocrine Society destaca que sintomas isolados não permitem diagnosticar hipogonadismo masculino. O diagnóstico requer sinais ou sintomas compatíveis associados a níveis de testosterona inequivocamente e consistentemente baixos.

A diretriz recomenda a medição da testosterona total pela manhã e em jejum, com confirmação por uma segunda coleta realizada em outra manhã. Em determinadas situações, também pode ser necessária a avaliação da testosterona livre e de hormônios como LH e FSH para investigar a causa da deficiência.

Por isso, redução da libido, disfunção erétil, perda de massa muscular, aumento da gordura corporal ou cansaço não justificam automaticamente a prescrição de testosterona.

Quando o hipogonadismo é confirmado, a terapia com testosterona pode ser indicada para corrigir sintomas relacionados à deficiência hormonal, com acompanhamento dos níveis de testosterona, hematócrito, efeitos adversos e, quando indicado, risco prostático.

Benefícios da reposição hormonal dependem da indicação

Na menopausa, os benefícios com evidências mais estabelecidas da reposição hormonal estão relacionados ao alívio das ondas de calor e dos suores noturnos, tratamento dos sintomas geniturinários e prevenção da perda óssea e de fraturas durante o tratamento.

A terapia também pode contribuir para a qualidade de vida quando sintomas menopausais interferem de maneira significativa no cotidiano. A reposição hormonal, entretanto, não deve ser prescrita com o objetivo específico de prevenir infarto, acidente vascular cerebral ou outras doenças crônicas em mulheres assintomáticas.

A U.S. Preventive Services Task Force recomenda contra o uso de estrogênio isolado ou associado a progestagênio com a finalidade de prevenção primária de doenças crônicas após a menopausa. Essa recomendação não trata do uso de hormônios para controlar sintomas menopausais nem da terapia indicada em casos de insuficiência ovariana prematura.

Quais são os riscos da reposição hormonal

Os riscos da reposição hormonal variam de acordo com hormônio, dose, duração, via de administração, idade, momento de início do tratamento e características clínicas do paciente. Na terapia hormonal da menopausa, determinados esquemas podem estar associados ao aumento do risco de tromboembolismo venoso, AVC, doença da vesícula biliar e câncer de mama, entre outros eventos.

Nas mulheres que mantêm o útero, o uso de estrogênio sistêmico sem proteção adequada com progestagênio pode elevar o risco de câncer de endométrio. A via utilizada também precisa ser considerada. Dados observacionais sugerem menor risco de tromboembolismo venoso com estrogênio transdérmico em comparação ao oral, mas essa diferença não foi estabelecida da mesma forma por ensaios clínicos randomizados.

No tratamento masculino, a Endocrine Society recomenda que a testosterona não seja iniciada em determinadas situações, incluindo hematócrito elevado, apneia obstrutiva do sono grave não tratada, trombofilia, infarto ou AVC nos seis meses anteriores e alguns casos relacionados ao câncer de próstata ou de mama.

A terapia com testosterona também pode comprometer a produção de espermatozoides. Por isso, a diretriz recomenda não iniciar o tratamento em homens que pretendem preservar a fertilidade no curto prazo.

Hormônios bioidênticos não são sinônimo de maior segurança

Os hormônios bioidênticos são moléculas estruturalmente idênticas aos hormônios produzidos pelo organismo. Existem medicamentos industrializados que utilizam hormônios desse tipo, como determinadas formulações de estradiol e progesterona.

Esses produtos não devem ser confundidos com os chamados hormônios bioidênticos manipulados, preparados individualmente em farmácias de manipulação.

O American College of Obstetricians and Gynecologists, ACOG, afirma que produtos bioidênticos manipulados não devem ser prescritos rotineiramente quando existem formulações aprovadas disponíveis.

A segurança depende da substância, dose, via de administração, indicação, características do paciente e acompanhamento clínico.

➡️Clique aqui e entre no canal do WhatsApp para receber notícias de forma gratuita

Implantes hormonais e o chamado “chip da beleza”

No Brasil, a Anvisa adotou medidas de controle sobre implantes hormonais manipulados após identificar uso para finalidades estéticas, tratamento de fadiga ou cansaço e sintomas da menopausa.

Entre as principais complicações observadas em pacientes que utilizaram esses implantes manipulados, a Agência cita elevação do colesterol e dos triglicerídeos, hipertensão arterial, acidente vascular cerebral e arritmia cardíaca. Também foram relatados crescimento excessivo de pelos em mulheres, queda de cabelo, acne, alteração da voz, insônia e agitação.

A Anvisa informa ainda que os implantes conhecidos popularmente como “chips da beleza” não foram submetidos à avaliação da Agência e não existem produtos semelhantes devidamente registrados para fins estéticos, tratamento de fadiga ou cansaço e sintomas da menopausa.

O uso de implantes hormonais, portanto, não deve ser apresentado como alternativa automaticamente equivalente a comprimidos, géis, adesivos ou outras formulações utilizadas na terapia hormonal.

Formas de reposição hormonal

Na terapia da menopausa, a reposição hormonal pode ser realizada por diferentes vias, incluindo comprimidos, adesivos e géis transdérmicos. Quando os sintomas são exclusivamente geniturinários, como ressecamento vaginal e dor durante as relações sexuais, o tratamento local com estrogênio vaginal pode ser considerado.

Mulheres que possuem útero e recebem determinados tratamentos sistêmicos com estrogênio geralmente necessitam de um progestagênio para proteção do endométrio. Mulheres submetidas à histerectomia podem, dependendo do caso, utilizar estrogênio sem essa associação.

Para homens com hipogonadismo corretamente diagnosticado, existem diferentes formulações de testosterona. A escolha considera fatores como características do medicamento, efeitos adversos, preferência do paciente e possibilidade de acompanhamento.

>> Leia também: Goiânia lança programação “Agosto Lilás” com ações de enfrentamento à violência contra a mulher

Alimentação e exercícios fazem parte dos cuidados

A reposição hormonal não substitui hábitos relacionados à manutenção da saúde. Alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos, controle do peso e cuidados com o sono continuam relevantes durante o envelhecimento.

Fitoterápicos e suplementos também exigem avaliação. Produtos classificados como naturais não são necessariamente livres de efeitos adversos ou interações com medicamentos, e as evidências de eficácia variam de acordo com a substância utilizada.

O acompanhamento médico é necessário para avaliar a indicação, ajustar o tratamento e identificar possíveis efeitos adversos. Nas mulheres, idade, tempo desde a menopausa, presença ou ausência de útero e histórico de doenças que possam interferir na segurança da terapia fazem parte dessa análise.

Nos homens, o diagnóstico deve combinar sintomas e resultados laboratoriais consistentes, além da investigação das possíveis causas da deficiência. Durante o tratamento com testosterona, a Endocrine Society recomenda acompanhamento da resposta clínica, dos efeitos adversos, dos níveis hormonais e do hematócrito, além da avaliação individual da necessidade de monitoramento prostático.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Design sem nome (2)
Autor: João Pedro Oliveira

Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.

Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.