Estudo nacional aponta predominância masculina e maior concentração de hospitalizações entre 30 e 39 anos; cardiologista alerta para sintomas durante exercícios e importância do histórico familiar
As doenças cardiovasculares não atingem apenas pessoas mais velhas. Entre 2020 e 2024, o Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) registrou 26.845 internações por infarto agudo do miocárdio em jovens brasileiros, classificados como pessoas com menos de 40 anos.
Os números fazem parte de um estudo epidemiológico, descritivo e retrospectivo elaborado a partir de registros do SIH/SUS. A análise identificou tendência de crescimento das hospitalizações no período e mostrou que a maior concentração ocorreu entre pessoas de 30 a 39 anos.
No Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, os dados chamam a atenção para fatores de risco cardiovascular que podem estar presentes desde cedo. Segundo o cardiologista cooperado da Unimed Goiânia Tarik Arcoverde, hipertensão arterial, alterações do colesterol, obesidade, tabagismo, sedentarismo e alimentação inadequada estão entre os principais problemas observados.
O consumo de álcool e outras drogas e o uso de esteroides anabolizantes sem indicação também integram a lista de fatores que merecem atenção.
Além da concentração de hospitalizações entre 30 e 39 anos, o estudo identificou predominância masculina entre os pacientes com menos de 40 anos internados por infarto agudo do miocárdio.
Também foram observadas diferenças regionais. O Sudeste apresentou o maior número absoluto de hospitalizações, enquanto o Centro-Oeste registrou a maior proporção de casos, segundo o estudo.
A taxa média de mortalidade hospitalar entre os casos analisados foi de 3,87%, e o estudo identificou pico da mortalidade entre 2020 e 2022. O percentual se refere aos pacientes hospitalizados incluídos na análise e não representa o risco de morte por infarto para toda a população brasileira com menos de 40 anos.
Nem todos os eventos cardiovasculares em adultos jovens estão relacionados aos fatores de risco tradicionalmente conhecidos. Algumas condições podem atingir inclusive pessoas aparentemente saudáveis ou que mantêm uma rotina de atividade física.
“Ser jovem e ter hábitos saudáveis não exclui a possibilidade de um evento cardíaco. Nessa faixa etária, muitas vezes a causa não é a doença das artérias, como ocorre com maior frequência em pessoas mais velhas, mas doenças cardíacas estruturais congênitas ou hereditárias, arritmias primárias e miocardites. Algumas podem permanecer completamente silenciosas até o primeiro evento e, em determinados casos, a própria morte súbita pode ser a primeira manifestação”, explica Arcoverde.
A ausência de sintomas anteriores, portanto, não permite descartar determinadas alterações cardíacas. Doenças congênitas ou hereditárias, arritmias e miocardites estão entre as condições que podem exigir investigação de acordo com o quadro clínico e o histórico de cada pessoa.
O Ministério da Saúde classifica o infarto como uma emergência que exige atendimento médico imediato. Um dos sintomas característicos é dor ou desconforto no peito, que pode irradiar para as costas, rosto e braços. A dor pode ser intensa e prolongada e estar acompanhada de sensação de peso ou aperto no tórax.
Suor frio, palidez, falta de ar e sensação de desmaio também estão entre os sinais descritos pelo Ministério da Saúde. Outros sintomas que podem estar associados incluem náuseas, vômitos e desmaio.
Diante de sinais compatíveis com um ataque cardíaco, a orientação é procurar imediatamente um serviço de emergência ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pelo telefone 192. O atendimento rápido é importante diante da suspeita de infarto.
A prática regular de atividade física permanece entre as principais aliadas da saúde cardiovascular. Para quem pretende realizar exercícios de maior intensidade, no entanto, Arcoverde recomenda atenção à condição individual e avaliação pré-participação esportiva, especialmente para identificar situações que possam representar risco.
A consulta envolve avaliação clínica e, quando necessário, exames complementares definidos pelo profissional. A progressão gradual da intensidade e do volume dos exercícios, a escolha de uma atividade compatível com o condicionamento físico e a utilização de equipamentos e ambientes adequados também fazem parte dos cuidados.
Durante ou após a atividade física, alguns sintomas não devem ser minimizados. Dor no peito durante o esforço, desmaio, palpitações, falta de ar ou cansaço desproporcional à atividade habitual, tonturas persistentes e queda de rendimento sem explicação estão entre eles.
“Embora eventos cardíacos graves possam acontecer sem aviso prévio, esses sintomas precisam ser valorizados, inclusive entre os mais jovens. Um desmaio durante o exercício, por exemplo, é algo que precisa ser investigado”, reforça o cardiologista.
A ocorrência de problemas cardiovasculares em adultos jovens não significa que os exercícios devam ser evitados. A atividade física regular faz parte das medidas de prevenção relacionadas à saúde cardiovascular e a outras doenças crônicas.
Como recomendação geral, o Ministério da Saúde orienta adultos a praticarem pelo menos 150 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana. Outra possibilidade é realizar pelo menos 75 minutos semanais de atividade vigorosa.
Caminhada, corrida, natação e ciclismo estão entre as possibilidades de atividades aeróbicas. A intensidade, o tipo de exercício e a progressão da atividade devem considerar as condições individuais de saúde.
Para quem está começando, a orientação é iniciar com intensidade leve e buscar aconselhamento da equipe de saúde quando houver necessidade de definir o nível adequado de esforço.
Mesmo entre pessoas com alimentação equilibrada e rotina de exercícios, a história familiar pode revelar riscos que não são modificados pelos hábitos de vida.
Morte súbita inexplicada em parente de primeiro grau antes dos 50 anos, infarto precoce, cardiomiopatias e presença de marcapasso ou desfibrilador em familiares jovens estão entre as informações que devem ser relatadas durante uma avaliação médica.
O histórico familiar de doença cardiovascular também integra os fatores considerados na avaliação de risco, ao lado de condições como diabetes, hipertensão, alterações do colesterol, tabagismo, obesidade e inatividade física.
Segundo Arcoverde, a prevenção deve começar ainda na infância e na adolescência, com alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do peso e distância do cigarro, incluindo os dispositivos eletrônicos.
A investigação da saúde cardiovascular, porém, não depende de um único teste. A avaliação individual é que determina quais exames podem ser necessários.
“Não existe um único exame que vá nos dar todas as respostas. Muitas vezes, uma consulta bem detalhada, associada a um eletrocardiograma e exames laboratoriais, consegue identifica alterações. Em outras situações, exames mais aprofundados podem ser necessários, e essa indicação deve ser feita pelo médico após a avaliação”, explica.
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Arcoverde destaca que os casos de problemas cardiovasculares em adultos jovens não devem provocar receio em relação à atividade física. O condicionamento físico e a capacidade aeróbica têm relação direta com a saúde cardiovascular, e a prática de exercícios integra as estratégias de prevenção.
“O condicionamento físico e a capacidade aeróbica estão diretamente relacionados à saúde cardiovascular. O exercício é uma ferramenta fundamental de prevenção e não existe idade para começar. O importante é praticá-lo com segurança, respeitando a condição individual e mantendo o acompanhamento de saúde”, conclui.
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