Goiás tem 2,5 mil pessoas à espera de transplante e recusa familiar chega a 67%

Setembro Verde chama atenção para uma decisão que depende dos parentes e pode definir o destino de órgãos e tecidos após a morte

doação de órgãos em Goiás

A doação de órgãos em Goiás ainda enfrenta um obstáculo decisivo: a recusa das famílias. Dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) apontam que 2.585 pessoas aguardam por um transplante no estado, enquanto a negativa familiar chega a 67,3% dos casos em que há possibilidade de doação. Durante o Setembro Verde, ações de conscientização tentam levar esse assunto para dentro de casa antes que parentes precisem tomar uma decisão em meio ao luto.

Goiás avançou em procedimentos como o transplante renal nos últimos anos, mas a quantidade de pacientes à espera continua elevada e a autorização da família permanece indispensável nas doações após a morte. Por isso, profissionais envolvidos com a doação de órgãos em Goiás apontam a conversa prévia entre parentes como uma das maneiras de reduzir dúvidas e tornar conhecida a vontade de quem deseja ser doador.

➡️ Clique aqui e entre no canal do WhatsApp para receber notícias de forma gratuita.

Recusa familiar ainda limita a doação de órgãos em Goiás

doação de órgãos em Goiás

Mesmo com campanhas de conscientização e avanços na estrutura de transplantes, quase sete em cada dez famílias abordadas no estado não autorizam a retirada de órgãos e tecidos. O percentual de 67,3% coloca a recusa familiar entre os principais desafios da rede estadual e ajuda a explicar a diferença entre o número de potenciais doadores identificados e as doações efetivamente realizadas.

Não é necessário registrar em documento a vontade de ser doador. Pela legislação brasileira, a autorização dos familiares continua sendo necessária após a morte, mesmo quando a pessoa já havia manifestado esse desejo em vida. Para a nefrologista Myllena Vieira, cooperada da Unimed Goiânia, essa particularidade torna o diálogo antecipado especialmente importante.

“A doação só é efetivada com a autorização da família, mesmo quando a pessoa já manifestou esse desejo em vida. Não é necessário nenhum registro prévio em documento”, explica.

A conversa pode fazer diferença porque a decisão costuma ocorrer em um momento de choque e sofrimento. Quando os parentes já conhecem a posição daquela pessoa, a equipe médica consegue conduzir a entrevista familiar a partir de uma vontade previamente discutida, reduzindo parte das incertezas que aparecem após a confirmação da morte.

>> Leia também: Goiás tem mais de 100 pontos de saúde mental; veja onde buscar ajuda

Córnea e rim concentram a maior parte da fila de transplantes

Entre os 2.585 pacientes inscritos atualmente em Goiás, a maior demanda está relacionada aos transplantes de córnea e rim. Dados divulgados pela SES-GO indicam 1.807 pessoas à espera de uma córnea e outras 757 na fila por um rim. Também há pacientes aguardando fígado, pâncreas e transplante combinado de pâncreas e rim.

Tipo de transplantePessoas na fila
Córnea1.807
Rim757
Pâncreas e rim11
Fígado7
Pâncreas3
Total2.585

A fila não é organizada apenas pela ordem de inscrição. Para cada órgão, são considerados critérios como compatibilidade sanguínea e imunológica, gravidade do quadro clínico, características físicas entre doador e receptor e tempo de espera. Casos de urgência também podem receber prioridade conforme as regras do Sistema Nacional de Transplantes.

O número ajuda a dimensionar por que a doação de órgãos em Goiás não depende somente da capacidade das equipes cirúrgicas. Para que um transplante aconteça, é necessário identificar o potencial doador, confirmar que os órgãos estão aptos, obter autorização familiar, encontrar um receptor compatível e organizar a retirada e o transporte dentro de um intervalo específico.

Morte encefálica ainda está cercada por dúvidas e informações falsas

Parte das recusas familiares está associada a dúvidas sobre a morte encefálica. O diagnóstico ocorre quando há perda completa e irreversível das funções do cérebro e do tronco cerebral. Mesmo que aparelhos continuem mantendo temporariamente os batimentos cardíacos e a circulação sanguínea, a pessoa já é considerada morta.

O protocolo brasileiro exige avaliações médicas e exames específicos antes que a morte encefálica seja confirmada. A possibilidade de doação de órgãos em Goiás só é apresentada à família depois da conclusão desse processo e quando o paciente possui condições clínicas para ser considerado um potencial doador.

Myllena Vieira cita entre os receios relatados por familiares o medo de que o tratamento seja interrompido caso a pessoa tenha manifestado vontade de doar, a dificuldade para compreender a morte encefálica e dúvidas sobre o estado do corpo após a cirurgia. A retirada dos órgãos, porém, ocorre em centro cirúrgico, e o corpo é recomposto após o procedimento, sem impedir a realização de velório com caixão aberto.

“A doação de órgãos é um gesto de solidariedade e compaixão para com outro ser humano, que muitas vezes tem no transplante sua única possibilidade de viver. Mesmo após a morte, é possível permitir que a vida continue”, afirma a nefrologista.

Rim pode ser doado em vida ou após a morte

doação de órgãos em Goiás

O transplante renal possui uma característica diferente de procedimentos envolvendo órgãos como coração e pulmão. Uma pessoa saudável pode doar um dos rins em vida, desde que passe por avaliação médica e cumpra os critérios estabelecidos para preservar a segurança do doador. Quando a doação ocorre entre pessoas que não possuem parentesco previsto pela legislação, há exigências adicionais.

A maior parte dos pacientes que precisam de um rim, entretanto, depende da lista de espera e de órgãos provenientes de doadores falecidos. Nesse cenário, a doação de órgãos em Goiás volta a depender diretamente da decisão familiar após o diagnóstico de morte encefálica.

Hipertensão arterial e diabetes estão entre as principais condições relacionadas ao desenvolvimento da doença renal crônica. Quando a função dos rins fica gravemente comprometida, o paciente pode precisar de diálise ou transplante.

“Quando ocorre a falência renal, o paciente precisa da substituição da função, seja por diálise ou transplante. É importante frisar que o transplante é uma modalidade terapêutica, e não a cura da doença”, explica Myllena Vieira.

Transplante exige acompanhamento permanente depois da cirurgia

Receber um órgão não encerra o tratamento. Após um transplante renal, por exemplo, o paciente precisa usar medicamentos imunossupressores para reduzir a possibilidade de o organismo atacar o novo rim. Consultas, exames laboratoriais e acompanhamento especializado passam a fazer parte da rotina. A atenção a sinais de rejeição ou infecção também é necessária.

“Após o transplante, o paciente deve manter o uso de imunossupressores e seguir acompanhamento médico frequente. Sintomas como febre, inchaço, dor no local do enxerto ou diminuição da urina devem ser observados imediatamente, pois podem indicar rejeição”, alerta a nefrologista.

Os cuidados anteriores ao transplante também interferem na saúde renal. Controle adequado da pressão e da glicemia, tratamento das doenças de base, alimentação equilibrada, atividade física e redução de fatores de risco como tabagismo estão entre as medidas associadas à prevenção da progressão da doença crônica.

Transplantes renais avançaram, mas fila continua elevada

Goiás realizou 176 transplantes de rim em 2025, sendo 153 com órgãos de doadores falecidos e 23 com doadores vivos. No ano anterior haviam sido registrados 146 procedimentos, o que representa crescimento de aproximadamente 20,5%.

O avanço mostra capacidade de ampliação dos procedimentos, mas ocorre diante de uma fila que ainda reúne centenas de pessoas apenas para transplante renal. A diferença entre demanda e número de cirurgias torna a doação de órgãos em Goiás um tema que ultrapassa os hospitais e envolve também informação, acolhimento familiar e identificação adequada de potenciais doadores.

A estrutura do processo inclui hospitais notificadores, equipes responsáveis pela identificação de possíveis doadores, Central Estadual de Transplantes, profissionais envolvidos na captação dos órgãos e serviços transplantadores. Cada etapa precisa ocorrer dentro de prazos específicos para preservar a viabilidade do órgão.

Um único doador pode beneficiar diferentes pacientes

transplante renal em Goiás

Depois da autorização familiar, são realizados exames para avaliar quais órgãos e tecidos podem ser aproveitados e quais receptores apresentam compatibilidade. Dependendo das condições clínicas do doador, diferentes pacientes podem ser beneficiados a partir de uma única autorização.

Coração, pulmões, fígado, rins, pâncreas e intestino estão entre os órgãos que podem ser utilizados em determinadas situações de morte encefálica. Tecidos como córneas, ossos, pele e válvulas cardíacas seguem regras próprias e podem possuir outras condições e períodos para retirada.

A logística precisa ser rápida porque cada órgão permanece viável por um período diferente após a retirada. Coração e pulmões exigem intervalos especialmente curtos, enquanto rins permitem um período maior de preservação sob condições adequadas. Essa operação envolve equipes médicas, centrais estaduais e, em alguns casos, transporte aéreo.

Setembro Verde leva a conversa sobre transplantes para fora dos hospitais

O Setembro Verde utiliza o mês de setembro para ampliar informações sobre transplantes e combater mitos que podem influenciar a decisão dos familiares. Em Goiás, as ações envolvem a Central Estadual de Transplantes, hospitais e outras instituições que participam de atividades educativas.

A doação de órgãos em Goiás também ganhou uma ação desenvolvida pela Unimed Goiânia em parceria com a SES-GO. A campanha “Uma decisão que multiplica vidas” incentiva beneficiários a conversar com os parentes e manifestar claramente a intenção de ser doador.

A iniciativa ocorre no mesmo mês do Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro. A data foi estabelecida por lei com o objetivo de ampliar a conscientização e estimular discussões sobre o tema em todo o país.

Conversar em casa continua sendo a orientação para quem deseja doar

Para quem deseja se tornar doador após a morte, a principal orientação é simples: comunicar essa decisão à família. Não é preciso alterar documentos pessoais ou portar uma declaração específica para que a vontade possa ser considerada.

A conversa antecipada não obriga os parentes a autorizar o procedimento, mas permite que saibam claramente qual era o desejo daquela pessoa. Em um estado onde a recusa se aproxima de 70%, esse conhecimento se torna uma das frentes trabalhadas pelas campanhas dedicadas à doação de órgãos em Goiás.

“Enquanto cooperativa médica, colocamos nossa estrutura e nossos cooperados a serviço de causas que impactam toda a sociedade goiana. Quanto mais pessoas conversarem sobre doação de órgãos dentro de casa, mais pacientes terão a oportunidade de retomar uma vida mais saudável, como sair da hemodiálise, no caso de quem precisa de um transplante de rim”, afirma Lueiz Amorim Canedo, diretor-presidente da Unimed Goiânia.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS


Leia Mais Sobre
Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.