Retatrutida chega a perda média de 28,3% do peso, mas ainda não está aprovada

Medicamento experimental atua em três receptores ligados ao controle metabólico; estudos de fase 3 também encontraram efeitos sobre diabetes, apneia do sono e dor no joelho

Retatrutida (1)

A retatrutida voltou a chamar atenção após estudos de fase 3 registrarem perda média de 28,3% do peso corporal em 80 semanas entre participantes que receberam a dose de 12 mg. Quase metade desse grupo, 45,3%, perdeu pelo menos 30% do peso inicial. Os números colocam o medicamento experimental entre as terapias para obesidade com resultados mais expressivos já apresentados em estudos clínicos. Porém a retatrutida ainda não foi aprovada para venda ou prescrição por nenhuma agência reguladora.

Desenvolvida pela Eli Lilly, a molécula atua simultaneamente nos receptores de GLP-1, GIP e glucagon. É justamente esse terceiro mecanismo que a diferencia da semaglutida, que atua no GLP-1, e da tirzepatida, que combina GLP-1 e GIP. Além da perda de peso, resultados divulgados até agora apontam reduções de hemoglobina glicada em pessoas com diabetes tipo 2 e benefícios observados em estudos envolvendo osteoartrite do joelho e apneia obstrutiva do sono.

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Retatrutida atua em três receptores e acrescenta o glucagon à estratégia

Para entender por que os resultados despertaram tanta atenção, é preciso olhar para o mecanismo de ação. Barbara Franz Luvison, médica especialista em Endocrinologia e Metabologia e docente do curso de Medicina da Universidade Positivo (UP), explica que a diferença começa justamente na quantidade de alvos utilizados pelo medicamento.

“As canetas que a gente usa hoje funcionam estimulando hormônios que controlam a fome. A semaglutida, por exemplo, age em um receptor só, o GLP-1. A tirzepatida age em dois, o GLP-1 e o GIP. A retatrutida é diferente: ela é o que chamamos de agonista triplo, ou seja, age em três receptores ao mesmo tempo — GLP-1, GIP e também o glucagon”, explica.

O GLP-1 e o GIP estão relacionados a mecanismos de saciedade, secreção de insulina e controle metabólico. A retatrutida acrescenta a ativação do receptor de glucagon, o que pode modificar também o gasto energético e o metabolismo de gorduras.

“Esse terceiro alvo é o grande diferencial. O glucagon, além de ajudar a reduzir o apetite, aumenta o gasto de energia do corpo e a queima de gordura, o que soma efeitos e potencializa a perda de peso”, afirma Barbara.

Mosiah Machado, médico de família e comunidade e docente do curso de Medicina do Centro Universitário Cesuca, também destaca essa diferença farmacológica.

“Então, enquanto a semaglutida, a ozempique, né? Entre similares, tem um agonista, a tirizepatida atua em dois, a retatrutida atua em três, né? É um agonista triplo que é chamado”, explica.

Não significa apenas acrescentar um terceiro hormônio ao tratamento. O objetivo da combinação é atuar em diferentes componentes do balanço energético.

“Assim, essa molécula atua simultaneamente nos dois lados do balanço energético, enquanto os outros ativam mais a redução da ingestão, esse acaba aumentando o gasto energético e o metabolismo energético, potencializando então o efeito. Isso ajudaria a explicar a magnitude dessa perda ponderal”, diz Machado.

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Estudo inicial já havia encontrado perda média de 24,2% em 48 semanas

Antes dos resultados mais recentes, a retatrutida já havia chamado atenção em um estudo de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine. O trabalho incluiu 338 adultos com obesidade ou sobrepeso acompanhado de pelo menos uma condição relacionada ao peso. Pessoas com diabetes ficaram de fora daquele estudo. Os participantes receberam diferentes doses de retatrutida ou placebo durante 48 semanas.

Na dose de 12 mg, a redução média chegou a 24,2% do peso corporal após 48 semanas, diante de 2,1% no grupo placebo. Entre os participantes que receberam 12 mg, 83% perderam pelo menos 15% do peso inicial. Machado chama atenção ainda para o comportamento da curva naquele estudo.

“No ensaio de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine, os adultos com obesidade e sobrepeso associado à comorbidade tiveram uma redução média de peso de 24,2% com 12mg em 48 semanas, comparado com 2% do placebo. Então essa curva de peso ainda não havia atingido claramente um platô no final do estudo, que as outras canetas a gente atinge platôs de perda às vezes, e é interessante particularmente esse estudo que ainda não havia obtido esse chegado nesse platô”, detalha.

Fase 3 levou perda média a 28,3% em 80 semanas

O estudo TRIUMPH-1, de fase 3, avançou essa observação para 80 semanas. Entre participantes sem diabetes tratados com 12 mg, a perda média chegou a 28,3% do peso corporal, contra cerca de 2% no grupo placebo.

Além disso, 45,3% das pessoas nessa dose perderam pelo menos 30% do peso inicial. Entre participantes que iniciaram o estudo com IMC igual ou superior a 35 e continuaram em uma extensão por 104 semanas, a redução média chegou a 30,3%.

“O estudo Triumph 1 em pessoas sem diabetes, a perda média com 12mg chegou até 28,3% no intervalo de 80 semanas, contra o placebo só de 2%. 45% dos participantes dessa dose perderam pelo menos 30% do peso inicial”, detalha Machado.

Para o médico, os percentuais modificam a discussão sobre o alcance possível da farmacoterapia contra a obesidade.

“Para contextualizar isso clinicamente, a gente está entrando numa faixa de redução de peso, uma redução ponderal, que historicamente era muito difícil de alcançar só com o remédio”, afirma.

Ele ressalta, porém, que os números não autorizam uma comparação direta com a cirurgia bariátrica.

“Ainda não significa que isso é equivalente à cirurgia bariátrica, porque a cirurgia e o medicamento não podem ser comparados só pela porcentagem de peso perdido. Tem questão de durabilidade, complicações, efeitos metabólicos, custo, e necessidade de tratamento contínuo tem que ser avaliado por um médico, caso a caso, usando a melhor evidência para cada situação clínica”, explica.

Estudos também observaram resultados em diabetes, apneia e osteoartrite

A investigação da retatrutida não está limitada à balança. Resultados apresentados pela Lilly em junho mostraram redução de até 73,1% na dor relacionada à osteoartrite do joelho em um dos estudos e queda de até 60,6% na gravidade da apneia obstrutiva do sono, medida pelo número de eventos respiratórios por hora.

Em pessoas com diabetes tipo 2, estudos também encontraram reduções importantes da hemoglobina glicada, indicador usado para acompanhar o controle da glicose. Barbara explica que o interesse clínico está justamente no conjunto desses efeitos.

“O que já se sabe é bastante promissor. Além da redução de peso, os estudos mostraram benefícios adicionais: melhora da dor no joelho em pacientes com osteoartrite, redução da gravidade da apneia do sono e melhora de marcadores cardiometabólicos, como pressão arterial, triglicerídeos e colesterol. Em pacientes com diabetes tipo 2, houve também redução significativa da hemoglobina glicada”, afirma.

Dados mais recentes do programa de fase 3 também apontaram, em pessoas com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2, reduções do peso e de fatores associados ao risco cardiovascular. Na dose mais alta, houve queda média de triglicerídeos, colesterol não HDL, pressão arterial sistólica e circunferência abdominal. Isso não significa, porém, que já esteja demonstrado que a retatrutida previne infartos, AVCs ou mortes cardiovasculares.

Náusea, diarreia e vômito aparecem entre os efeitos adversos mais frequentes

Resultados expressivos de perda de peso vêm acompanhados da necessidade de avaliar segurança e tolerabilidade. No estudo de fase 2, os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais e apareceram especialmente durante o aumento das doses. Em geral, foram classificados como leves ou moderados. O estudo também identificou aumento da frequência cardíaca relacionado à dose, com pico por volta da semana 24 e redução posterior.

Barbara resume o perfil observado até agora:

“Sobre segurança, o perfil é parecido com o das canetas atuais. Os efeitos mais comuns são gastrointestinais — náusea, diarreia, vômito e constipação —, geralmente leves a moderados e mais presentes no início do tratamento. Também foram observados aumento da frequência cardíaca, queda de pressão (principalmente em quem já usa remédio para pressão) e reações no local da injeção. Houve casos isolados de pancreatite e colecistite, que precisam de atenção.”

Nos dados mais recentes do estudo TRIUMPH-2, divulgados pela Lilly em setembro, diarreia, náusea, constipação, diminuição do apetite e vômito também apareceram entre os eventos mais frequentes. As taxas aumentaram em alguns casos conforme a dose.

O que ainda não sabemos sobre a retatrutida

Apesar do avanço dos estudos de fase 3, há perguntas que não desaparecem com um percentual elevado de perda de peso. Uma delas é como o medicamento se comportará durante uso prolongado em populações muito maiores do que aquelas incluídas nos estudos clínicos. Também será necessário acompanhar eventos adversos menos frequentes e compreender melhor o que acontece após anos de tratamento.

“Mas é importante deixar claro: não existe aprovação ainda. Faltam respostas para perguntas importantes, como a segurança em longo prazo (além de 2 anos de uso), os efeitos sobre o coração — que ainda não foram totalmente medidos — e dados em populações mais amplas e diversas. Por isso, todo esse entusiasmo precisa ser acompanhado de cautela e rigor científico”, afirma Barbara.

A Lilly informou em agosto que o conjunto de estudos necessário para apoiar pedidos regulatórios relacionados a obesidade, apneia do sono e osteoartrite do joelho estava completo. A empresa pretende apresentar o dossiê inicialmente à FDA no primeiro trimestre de 2027.

Retatrutida não está aprovada no Brasil nem em outro país

Até 30 de setembro de 2026, a molécula continua experimental e não existe retatrutida aprovada comercialmente pela Anvisa, FDA ou outra agência reguladora. A própria Lilly informa que o medicamento só está disponível legalmente dentro de seus estudos clínicos.

Machado chama atenção para a diferença entre a substância investigada nos estudos e produtos clandestinos que usam o mesmo nome.

“A molécula reta trutida tem efeitos clínicos muito promissores, tem resultados clínicos promissores, mas os produtos que estão sendo comercializados clandestinamente como reta trutida não são o medicamento utilizado nos estudos e não devem ser utilizados.”

Barbara faz o mesmo alerta:

“E um alerta essencial para o público: como o medicamento ainda não foi aprovado, qualquer produto vendido com o nome “retatrutida” no Brasil é irregular e não tem garantia de qualidade, pureza ou segurança. Ninguém deve comprar isso por conta própria.”

Anvisa já mandou apreender produtos vendidos como retatrutida

A Anvisa já tomou medidas contra produtos que utilizavam o nome da molécula. Em janeiro de 2026, a agência determinou a apreensão e a proibição de produtos identificados como retatrutida de todas as marcas e lotes que estavam sendo comercializados irregularmente. A medida impede fabricação, importação, comercialização, distribuição, divulgação e uso desses produtos.

Em fevereiro, uma nova ação incluiu produtos anunciados como “Retatrutide 40 mg”, também sem registro sanitário. A situação continuou ao longo do ano. Em setembro, a Anvisa voltou a agir contra sites que ofereciam canetas emagrecedoras sem registro e produtos que alegavam conter retatrutida. A agência alertou que mercadorias adquiridas fora de farmácias e drogarias regularizadas não oferecem garantia de procedência, composição ou conservação.

“A Anvisa determinou a proibição de fabricação, importação, comercialização, distribuição e uso da reta trutida irregular de todas as marcas e lotes, porque não tem garantia de identidade, de concentração, de esterilidade ou mesmo de que o frasco contém essa medicação”, afirma Machado.

O produto vendido clandestinamente não é a retatrutida dos estudos

Essa distinção é especialmente importante porque resultados científicos divulgados sobre a molécula podem ser utilizados indevidamente para promover produtos sem origem conhecida. Os percentuais de 24,2% ou 28,3% observados nos estudos dizem respeito ao medicamento desenvolvido e controlado pela Lilly, utilizado dentro de protocolos clínicos com doses definidas, acompanhamento dos participantes e controle de fabricação.

Eles não podem ser transferidos para produtos encontrados em redes sociais, sites não autorizados ou importações clandestinas. A própria fabricante afirma que não existe forma de verificar segurança, pureza ou dose do que é vendido ao consumidor fora de seus estudos.

“É importante ressaltar, considerando o cenário brasileiro, que ela não é uma opção terapêutica disponível para prescrição clínica”, destaca Machado.

Para ele, o estágio atual precisa ser compreendido sem antecipar uma disponibilidade que ainda não existe.

“Então é algo para a gente prestar atenção para o futuro, mas no momento não é uma opção de tratamento.”

Se aprovada, retatrutida pode ampliar opções para casos de obesidade com complicações

Caso receba autorização regulatória, a retatrutida poderá oferecer uma alternativa para pessoas que precisam de reduções maiores de peso e apresentam condições associadas à obesidade. Barbara cita pacientes com diabetes, apneia do sono, problemas articulares e risco cardiovascular entre os grupos que, em tese, poderiam se beneficiar de uma terapia mais potente, caso segurança e eficácia sejam confirmadas para as indicações avaliadas.

“Se aprovado, ele pode representar um avanço importante, porque a obesidade é uma doença crônica que precisa de tratamento de longo prazo. Ter uma ferramenta mais potente para a perda de peso pode ajudar pacientes que hoje não conseguem resultados suficientes com as opções disponíveis”, afirma.

Médicos alertam contra uso estético e ideia de “caneta milagrosa”

Machado lembra que obesidade deve ser tratada como uma doença crônica e que a farmacoterapia precisa ser inserida dentro desse contexto.

“A farmacoterapia pode entregar o tratamento de longo prazo, mas não deve ser entendida simplesmente como um recurso estético, como uma intervenção temporária para perder alguns quilos, até porque os estudos não foram feitos nesse sentido.”

Ele acrescenta que extrapolar os resultados para pessoas sem obesidade ou sem indicação clínica modifica completamente a relação entre benefício e risco.

“Nenhum estudo está avaliando questão estética ou intervenção temporária para perder alguns quilos. Então tudo aquilo que a gente conversou não vale para esses casos, vale para aqueles casos que têm uma doença, a doença crônica da obesidade, risco cardiovascular.”

Barbara também afasta a ideia de que uma nova molécula possa substituir os demais componentes do tratamento.

“Mas é fundamental reforçar: nenhum medicamento substitui a mudança de estilo de vida. Alimentação, atividade física e acompanhamento médico contínuo continuam sendo a base do tratamento. E o uso precisa ser individualizado, sempre com avaliação e supervisão de um profissional de saúde. Não existe “caneta milagrosa” — existe tratamento sério, personalizado e baseado em ciência.”


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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